6
mai

eu já sabia

by tiago a. in Uncategorized

Chat with Leandro Oliveira
Apr 15
9:54 AM me: qual é sua teoria pro chilique de adriano?
estou fazendo uma enquete
9:55 AM a minha é a de que ele quer voltar a jogar no rio
vai fazer esse auê todo, depois volta, no framengo
Leandro: depressão
acho que é uma doença
9:56 AM mesmo jogando na Sibéria, o cara com um salário daquele não iria chutar o balde assim
9:57 AM mas, se o cara voltar pro Flamengo, eu vou comemorar!
me: vc é framengo é?
hahahah
Leandro: sim!
hahahahaha
me: pensei que cê era galo, rapá?
Leandro: moro em Minas mas sou carioca :>
9:58 AM e como todo bom carioca, flamenguista, hahahaha
me: pois eu acho que ele pode, sim, estar com depressão–mas que vai voltar a jogar, e no fra
assim que a poeria baixar
o flamengo é um time interessante
não ganha nada há décadas
mas continua com os torcedores mais chatos do universo!
9:59 AM :)
Leandro: é, eu penso o seguinte: se o cara tem mais dinheiro que pode gastar numa vida e quer jogar bola, por que não seria lá?
hahahahaha

5
mai

“venha, meu pai!”

by tiago a. in Uncategorized

Bastante comum em Salvador, a expressão que serve como título para este post é uma espécie de saudação. É o high five americano vertido para o vernáculo do Pelourinho. Os mais atentos me corrigirão, dirão que na verdade o que se diz não é bem “venha, meu pai!”, mas “venha, pai!”, assim mesmo, com o “meu” virando “mô”, mas isso é mero detalhe. Aliás, é bom que se diga: embora seja certo que o soteropolitano gosta de chamar seus camaradas de “meu pai”, nunca vi ninguém chamando ninguém de “painho” por aqui. “Painho” é coisa de novela da Globo, e a Bahia da Globo é tão fidedigna quanto a Índia da Globo, o Marrocos da Globo, etc. (exceção feita à “Ó paí ó” de Lazáro Ramos, decalque da realidade).
Este vídeo, portanto, só fez confirmar o que eu sempre soube: Obama não é do Havaí coisíssima nenhuma. Mas tampouco é mulçumano, como quer Eulavo seu Baralho. O que Obama é é baiano. Vejam a maneira como a mão dele se desloca a fim de encontrar a mão de Luis Inácio. Prestem atenção nesse movimento brau―não é racismo, patrulheiros; “malandro” na Bahia é “brau”, d’où Carlinhos Brown, versão baiana de Serginho Mallandro―prestem atenção no movimento brau que antecede o aperto de mão.
Eu, desde minha condição de baiano―eu sempre quis dizer “eu, desde minha condição de alguma coisa”―, eu, como eu ia dizendo, eu quase posso ouvir Obama exclamando mentalmente um “Venha, mô pai!” e procurando a expressão anglófona que melhor possa traduzir seu entusiasmo nagô. De maneira que, se um tradutor baiano tivesse sido o responsável pela criação das legendas deste vídeo, a tradução do que Obama disse à propos de Lula teria sido mais perfeita do que a que já se tornou notória. Assistam o vídeo, vocês que não viram ainda, e notem que Obama não diz hora nenhuma que Lula é o cara. O que ele diz é: “This is my man, right here”, e isso quer dizer o mesmo que o “Esse é o meu cumpádi” dos cariocas, ou o “Aqui é meu manu, tá ligado?” dos paulistas, ou o “Venha, mô pai” de seus conterrâneos baianos. Jamais “Este é o cara”, essa invenção da imprensa lulista (= Carta Capital, Hora do Povo, e agora BBC). Dizer que Obama disse que Lula é o cara é erro grosseiro. Ou má-fé. Parem de falsear a história.

27
abr

ainda ij

by tiago a. in Uncategorized

Falando em Infinite Jest, eu preciso comprar uma nova edição, hardcover, pois o paperback atual não deve durar muito mais. Quem sabe se isso não serve como incentivo para uma releitura? Hmmm.
Nessa segunda maratona, vou ver se existem mais trechos que ecoam outros livros dele, passagens que venham fazer companhia a estas duas:
Na p. 445 (do paperback do décimo aniversário):

Bob Death smiles coolly (South Shore bikers are required to be extremely cool in everything they do) and manipulates a wooden match with his lip and says No, not that fish-one. He has to assume a kind of bar-shout to clear the noise of his idling hawg. He leans in more toward Gately and shouts that the one he was talking about was: This wise old whiskery fish swims up to three young fish and goes, ‘Morning, boys, how’s the water?’ and swims away; and the three young fish watch him swim away and look at each other and go, ‘What the fuck is water?’ and swim away. The young biker leans back and smiles at Gately and gives an affable shrug and blatts away, a halter top’s tits mashed against his back.

Glosa: é a mesma anedota que ele conta no 2005 Kenyon Commencement Address, que acaba de virar livro.
E na p. 937:

The sun outside the big windows seemed to go up and down like a yo-yo.

Glosa: ele usa essa mesma imagem pra encerrar o conto Incarnations of Burned Children, coligido em Oblivion.

16
abr

duas verdades em que pensei hoje

by tiago a. in Uncategorized

Pra mim, dia feliz é aquele no qual você fica sabendo que, décadas antes de você existir, um homem muito mais sábio do que você disse uma coisa que você vive repetindo, porque acredita na verdade que ela encerra, topando fazer isso mesmo com boa parte de seus amigos, inclusive alguns dos melhores, desdenhando de você e lhe dizendo que essa coisa é uma daquelas que se pode encontrar entre as capas de livros baratos de auto-ajuda. Saibam vocês, então, que, sim, “[...] most of the inconveniences that make men swear or women cry are really sentimental or imaginative inconveniences – things altogether of the mind” e que quem disse isso foi Gilbert Keith Chesterton. Essa é a verdade nº 1.
Agora, a nº 2. Em algum lugar, Dave Wallace disse algo que, se bem me recordo, poderia ser resumido mais ou menos assim: todo clichê traduz uma verdade e se tornou clichê justamente por causa disso. Infinite Jest é um livro que já mereceria ser lido apenas por conter passagens como aquelas nas quais viciados com formação superior à média, ao frequentarem encontros dos Alcoolicos Anônimos e entrarem em contato com ex-viciados que lutam dia após dia para se manterem longe da Substância, são levados a ver que (i) eles não estão no controle, que (ii) superioridade intelectual nem liberta ninguém do vício, nem é garantia de que você não vai sofrer, e que (iii) as coisas que você às vezes tacha de Coisas Encontráveis Entre As Capas De Livros Baratos De Auto-Ajuda podem revelar verdades que você até então não tinha reunido coragem suficiente para encarar. Passagens como esta, da endnote nº 90 (citando assim, parece bíblico, né?):

Keep reading »

16
abr

sessão da tarde

by tiago a. in Uncategorized

He’s Just Not That Into You é um filmito que vale o ingresso, se você adquire este último por R$ 2, como fiz ontem. É divertido, mas uma coisa me assombrou: como é que depois de The Wire, um filme se passa em Bodymore, Murderland, trazendo um elenco que é 98% branco?
E aquele carinha do comercial da Apple? Ele é a cara do vocalista daquela bandinha, cuspido e escarrado!
cotação
:/
Ops, já ia esquecendo: o filmiño traz Scarlett Johansson no papel que ela melhor sabe fazer―o de goshtosa.
cotação de SJ :D

15
abr

shelf life

by tiago a. in Uncategorized

Este texto de William Gass é muito bom, e toda pessoa interessante deveria lê-lo. Se você não se acha tão interessante assim, e gosta de se ver como um sujeito que não tem tempo a perder (porque tempo é dinheiro etc.), eu não sei o que você veio fazer aqui. Mas já que veio, faça um favor a si mesmo e leia pelo menos o trecho final, vá:

Keep reading »

27
mar

minha alma canta

by tiago a. in Uncategorized

Estamos no Rio. Constato que o Galeão está pior que a Rodoviária de Salvador. O primeiro contato com a fauna local se estabelece quando passamos pela moça que recebe o ticket do estacionamento. Sem se importar com os clientes, ela faz algum comentário sobre uma prótese de silicone e em seguida quase grita, “A bunda da Manoela―caralho!” Ficamos curiosos, querendo saber se Manoela pôs silicone na bunda ou o quê. Biscoito Globo é só um avoador metido a besta que custa dois reais. Que bom que hoje não está chovendo; amanhã, quando nos encontrarmos, Igor dirá que choveu a semana toda.
Vamos buscar os ingressos na Sapucaí. Pessoas que vão assistir aos shows, daqui a oito horas, já estão fazendo fila. Não há fila para a compra de ingressos, porém. Ficamos sabendo depois que a totalidade dos ingressos não foi vendida e que Los Hermanos receberam muito dinheiro para topar fazer essa reunião, último recurso de que lançou mão a organização do festival “Just a Fest” para chamar público, que será de apenas 24 mil pessoas, informará o jornal de domingo. “Compraram ingressos pela internet?”, pergunta o segurança, “Por aqui, então. Nesse tapete vermelho.” Tapete vermelho. Agora só nos falta-nos o gramour.
Ingressos na mão, decidimos comer. Pegamos o metrô, ao qual me afeiçoo. Ao chegar no shopping, decidimos que, primeiro, vamos beber. Gente sensata não acorda às três da manhã, tendo dormido pouco mais que quatro horas, pega um voo às cinco, sem tomar café, e antes de almoçar toma quase dois litros de cerveja. Cumpre dizer, portanto, que não somos sensatos. Só almoçaremos quando a falta de alimento já estiver trazendo séria ameaça de desmaio a um de nós.
Voltamos pra casa. Urge dormir, e dormimos. Porque não acreditamos em pontualidade carioca, sairemos com um pouco de atraso e chegaremos à Sapucaí por volta das 19h30, a tempo de assistir meio show dos Los Hermanos e ouvir parte daquela que, saberemos mais tarde, foi apenas a segunda vez que Cher Antoine foi executada ao vivo por essa banda de barbados que neste momento toca, melancolicamente, para uma Sapucaí quase vazia. Dias depois, dois de nós conversarão sobre a singela letra dessa canção, que foi composta por um sujeito que iniciava seus estudos de francês e que não quer dizer senão isto: “Caro Antoine, lamento profundamente, mas não vou poder ir com você. Tenho que trabalhar do dia 20 ao 24. Tenho quatro dias de folga. Vou pro interior, viajar de trem pelas montanhas, um trajeto adorável! Vou à praia com os amigos. Vou praticar esportes, e depois, vou esquiar.” Um de nós se perguntará por que é que a parte em francês dessa música faz mais sentido que a parte em português (“Feito pra mim, bom pra você, deixa mudar e confundir. Deixa de lado o que se diz, tem no mercado, é só pedir, me faz chorar e é feito pra rir.”), porém não chegará a conclusão alguma.
Estamos nos aproximando das catracas, onde coletarão nossos ingressos e não quererão ver o documento de identificação estudantil que confere a um de nós o direito de pagar cem reais, e não duzentos, para estar ali. Ficamos com a sensação de que desperdiçamos trezentos reais, e isso muito nos custará, pois tudo aqui é muito caro. Para beber 300ml de água, será preciso se desfazer de três reais. Na arquibancada, de onde assistiremos os shows, os mesmos 300ml de água custarão cinco reais, mesma quantia que estão cobrando por uma lata de cerveja. O som dos Los Hermanos está muito baixo, e a iluminação do palco lembra um show de colégio. Por que será que fazem isso com as bandas de abertura? O show não corresponde a minhas expectativas, Kraftwerk também não me empolga, e quando eu já estou começando a achar que fiz mau negócio, Radiohead entra no palco. Ouve-se, em português, o anúncio “somos Radiohead”, feito por um dos integrantes da banda. Pelas próximas duas horas, assistirei ao show mais bonito a que já pude comparecer. Nos telões projetam-se imagens; são porções dos corpos dos músicos: uma cabeça, um braço. Sobre o palco, acima da banda, há agora o que parecem ser estalactites de luz. Eu nunca vi coisa parecida. É tudo muito bonito. O som está bem mais alto e muito bom. Quer dizer, quem está aqui na arquibancada percebe um pequeno problema, pois ele sai do palco, atravessa a Sapucaí, choca-se contra uns paredões de concreto e retorna, ou seja, eco―que merda. Tirando isso, o show vai ser épico. Vai valer cada real gasto, e quando voltarmos pra casa, estaremos certos de que assistimos a um espetáculo de primeira grandeza.
Dormimos e acordamos. É sábado. Ligo para Igor. É Cíntia que atende. Marcamos de nos encontrar no shopping. Quando eu tiver um filho, quero que ele seja igual a Davi, que ele não pare quieto, que me pergunte se eu conheço a música do camarão, que diga coisas como “eu era Botafogo mas agora eu sou Flamengo porque se não meu pai disse que eu não vou ganhar a piscina de minha mãe”. Grande garoto. Família bonita. Nós vamos ficar lá, conversando e rindo, até as 18h. Vai ser uma tarde muito agradável, ao fim da qual Igor ouvirá a promessa de que não beberá Schin quando vier a Salvador.
Nós agora estamos no metrô, indo para Copacabana, a fim de encontrar o rapaz que atendia pela alcunha de Marcelo Rota. A Rua Tonelero nos recorda a figura de Carlos Lacerda. O Sujeito Que Era Marcelo Rota―neste texto, doravante, um acrônimo―chega acompanhado de Pedro, pianista gente-boa. Marcus chega logo depois. Vamos para o bar. SQEMR não bebe, mas fuma que é uma beleza. O Fluminense está jogando, e SQEMR, pó-de-arroz, confessa que nem sabia. Pedimos batata-frita, cerveja e refrigerante. Falamos de Cormac McCarthy e do Big Lebowski e de João Antônio e de Joe Gould. Nos sentimos bem, na presença um dos outros. SQEMR propõe que passeemos no calçadão que orla a praia―além do sambódromo, este será o único ponto turístico que visitaremos. A noite está como a tarde, agradável. Passamos pelo monumento aos 18 do Forte, onde bananas jazem inexplicavelmente. Calling it a night, voltamos para casa.
Dormimos e acordamos, de novo. O domingo está feio. Nublou-se o céu. Hoje não vamos fazer nada digno de nota. Voltaremos pra Salvador à noite. (Apertemos o botão de fastforward para que anoiteça logo. Pronto: é noite.) Estamos no taxi, rumo ao Galeão. Estamos passando pelas imediações do Maracanã agora. O taxi―com a gente dentro―por pouco não vai ficar preso no meio do conflito que dezenas de flamenguistas e vascaínos ali conflagrarão. Mais cinco segundos, e aqui haveria um relato ensanguentado. Ainda no taxi, ouvindo o jogo, damos muita risada quando o locutor narra, “Que ótima arrancada de Léo Lima, conduzindo a bola pelo meio-de-campo! Lá vem ele! Lá vem ele! Pode ser agora, pode ser ago― ô, Léo Lima… ô, Léo Lima… O Léo Lima tava até indo bem, só que aí ele lembrou que ele era o Léo Lima e fez esse papelão aí”. Rindo ainda, alguém pensa, “Pô, fim-de-semana legal”.

27
mar

tom jobim, profeta

by tiago a. in Uncategorized

“Tenho esperanças que o rock vai evoluir e descobrir o quarto acorde, porque fazer música só com três acordes é difícil, né?” disse Tom Jobim, numa entrevista à Playboy, em 88.
Corta para 2009, manchete da Ilustrada: Roqueiro Iggy Pop canta Tom Jobim em novo álbum. “Isso é porque chegou um certo momento em que simplesmente fiquei enjoado de ouvir brutamontes idiotas com suas guitarras, tocando música ruim.”

26
mar
14
mar

corleone

by tiago a. in Uncategorized

Esta matéria da Vanity Fair deste mês, espécie de making of de The Godfather, conta várias estórias legais. Adianto uma delas.
Johnny Fontane, você se lembra, é um cantor apadrinhado por Don Vito Corleone. Quando ele aparece no casamento da filha do Poderoso Chefão, é aquele alvoroço, as mulheres ficam todas indóceis. Numa cena mais adiante, vemos que, junto com os votos de felicidade aos noivos, Fontane foi levar queixas ao Don, dizer que um certo produtor não quer dar a ele um papel na adaptação cinematográfica de um bestseller cujo personagem principal, ele alega, é um cara igualzinho a ele. “I wouldn’t even have to act—just be myself”, ele diz e, logo em seguida, começa a chorar, dando chilique, “Oh, Godfather, I don’t know what to do. I don’t know what to do”. Em resposta, toma um tapa e ouve “You can act like a man!”.
Desde o livro de Mario Puzo se ouve que esse personagem do cantor apoiado pela Máfia foi inspirado num tal Frank Sinatra, um cantor que, dizem, era apoiado pela Máfia. No filme, o personagem é interpretado por Al Martino, um cantor menos famoso que, fiquei sabendo agora, só ganhou esse papel graças à intervenção de um chefão do crime: “Didn’t the Don send Tom Hagen to convince [studio head] Jack Woltz that Johnny Fontane must be in the movie?” pergunta Al Martino. “Isn’t it similar to what I did? Woltz didn’t want Johnny, and Coppola didn’t want me. There was no horse’s head, but I had ammunition.… I had to step on some toes to get people to realize that I was in the effing movie. I went to my godfather, Russ Bufalino,” ele conta, referindo-se a um chefão do crime da Costa Leste.
Então, gente, eis o que temos aqui. Porque teve o apoio de criminosos ao longo de sua carreira, um cantor serve de modelo para a concepção de um personagem também cantor que, interpretado por um outro cantor que só foi parar no filme graças ao apoio de um criminoso, recorre a um criminoso para obter o papel principal do filme-dentro-do-filme.
A matéria ainda diz que “[w]hen Al Martino, as the whimpering Johnny Fontane, cries over the role the big-shot producer won’t give him, and Brando barks ‘You can act like a man!’ and slaps him, the slap was Brando’s spontaneous attempt to bring some expression into Al Martino’s face [...]“.
Isso é tão meta que minha cabeça quase deu um nó. Li essas coisas e fiquei (O_O) por três dias.