fevereiro, 2010 Archives
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JMS
by tiagoa in Uncategorized
Joseph Mitchell talvez ajude a entender por que João Moreira Salles disse que “só voltaria a fazer documentários quando pudesse reproduzir a alegria que t[e]ve ao fazer Santiago”. Há alguns paralelos evidentes entre as obras-primas desses dois. Comecei a percebê-los quando, há poucos meses, pude enfim ler o posfácio para a edição de O Segredo de Joe Gould que saiu pela Cia. das Letras. Mais que um texto de avaliação crítica, mais que um tributo de um escritor a outro, o que nós vemos ali é uma sincera e comovente declaração de amor de João a Joseph, que ajuda a entender, inclusive, o que o primeiro vem fazendo nas páginas de piauí a partir de 2006.
O Segredo de Joe Gould traz dois artigos que Joseph Mitchell escreveu para a New Yorker, dois retratos formidáveis de um personagem bastante excêntrico. Professor Sea Gull, o primeiro deles, é de dezembro de 1942. O segundo, Joe Gould’s Secret, só seria publicado mais de duas décadas depois—em setembro de 1964, sete anos após a morte de Gould. Eles contam a história de um graduado em Harvard, elogiado por Cummings e por Pound, que se orgulhava de ser um competente tradutor de Longfellow para a língua das gaivotas. Embora dormisse em albergues ou nas ruas, não é justo dizer que ele era mendigo, pois seu sustento provinha de um fundo formado por contribuições regulares de entusiastas da opus magnum que ele há anos erigia, A História Oral de Nosso Tempo.
(A partir deste ponto, passo a presumir que você também sabe qual é o segredo de Joe Gould. Se não é esse o caso, pule para o último parágrafo desse post, que lá tem coisa boa pra você também.)
Não cabe transcrever aqui o trecho em que Mitchell finalmente se dá conta de que A História Oral de Nosso Tempo só existia na cabeça de Joe Gould. Importa mais fazer referência à teoria que busca explicar, a partir desse trecho e de tudo o que é descrito ali, o silêncio que Joseph Mitchell se impôs desde então. Joe Gould’s Secret foi o penúltimo texto que Mitchell publicou. (Pensava que era o último? Não é. O último veio no início da década de 90. É o prefácio a Up in the Old Hotel, livro lindo, que colige todos os seus artigos.) Por 32 anos, mesmo sem publicar mais nada, ele continuou incluído na folha de pagamentos da New Yorker e dono de uma sala na redação—que continuou frequentando até morrer, em 1996.
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Em 2008, numa entrevista, por ocasião do lançamento de Santiago, fizeram esta pergunta a João Moreira Salles: “Você já declarou que, depois de Santiago, deverá encerrar a carreira de documentarista. Deverá mesmo?”. E ele respondeu o seguinte:
Produzi o filme com uma sensação de ponto final. Santiago me possibilitou fechar uma porta, concluir um ciclo. O que penso sobre documentário está lá. Se abrirei novos ciclos, ainda não sei. Por ora, não tenho nenhuma vontade de abri-los.
E eis aqui os paralelos que eu enxergo. Quem viu sabe que Santiago também documenta uma tentativa anterior de fazer um documentário. João quis fazer um filme sobre o mordomo de sua família já em 1992, mas não conseguiu. Fracassou. Só foi conseguir mais de quinze anos depois, ao se pôr sob escrutínio também. Lembremos que Joe Gould’s Secret também é uma revisita: é Mitchell e o seu reconhecimento de que não contou tudo o que havia a ser contado. De maneira semelhante a João Moreira Salles em Santiago, Joseph Mitchell também está sob análise em Joe Gould’s Secret: há o segredo de Joe Gould, e há o segredo do romancista frustrado que Joseph Mitchell, na tentativa de entender Gould, confessa ser. Lembremos que, à maneira de Joe Gould (o grande personagem de Mitchell), que passou anos e anos escrevendo e reescrevendo os mesmos capítulos de uma obra que jamais concluiria, Santiago (o grande personagem de João) também passaria a vida escrevendo listas de celebridades que não viriam a ter utilidade alguma. Joseph Mitchell—a partir de Joe Gould—e João Moreira Salles—a partir de Santiago—promovem acertos de contas consigo mesmos. Joe Gould’s Secret marca o início do silêncio de Mitchell. Santiago pode marcar o de João.
Mas ainda bem que o silêncio de João não é absoluto. Aliás, seu amor por Joseph também pode explicar por que são tão bons os textos que ele vem escrevendo para a piauí nos últimos anos. O leitor de Mitchell se compraz com os textos de João porque João também é um excelente leitor de Mitchell. Eu já disse em outra oportunidade que os textos de JMS são o que de melhor tem sido publicado naquela revista—e eles são mesmo. Marcus pediu que eu os inventariasse, e eu resolvi compartilhar o resultado com vocês todos aqui. A partir do sistema de buscas do site da revista, pude reuni-los sob cinco grandes rubricas e, dentro delas, ordená-los cronologicamente. A maior parte das coisas que JMS tem escrito saem sem a sua assinatura, na seção Esquina e na seção Chegada; mas não se preocupe se, talvez por isso, você não os tiver lido, pois os melhores textos, os grandes textos, ele tem assinado. Em minha opinião, há seis deles; e se você ainda não leu nada, e quer começar pelos melhores, sugiro que vá direto à rubrica Grandes Matérias e Perfis, porque é lá que eles estão. Eles formam o que de melhor se publicou na imprensa brasileira nos últimos cinco anos, e eu quero que o chicote estrale sobre o meu corpo nu se, depois de lê-los, você não estiver prostrado de joelhos, concordando comigo. Antes, talvez seja preciso se cadastrar no site da revista, mas isso aí é moleza. Se não rolar, me avisa.
