janeiro, 2010 Archives

2
jan

James 157 Cameron

by tiagoa in Uncategorized

Se existe um nome que não me traz bons augúrios, esse nome é James Cameron. Ao longo dos anos, nessa minha vida, seu nome tem sido invocação de um-cinco-sete. Essa nossa relação amaldiçoada deve ter começado quando eu tinha uns onze anos, apenas mais um anônimo na multidão ignara e ávida pela estreia de Titanic, seus Leonardo DiCaprio, suas Céline Dion.

Era a première. A família pôs sobre meus ombros a tarefa de ir em busca dos ingressos, disputados, os quais tive de ir comprar à tarde, com horas de antecedência. Tirando a fila, e a par da longa espera, a compra em si até que  não foi tumultuada. Os problemas começaram quando eu já estava no ponto, esperando o ônibus que me levaria de volta para casa.

Um bonezinho Nike adornava minha cabeça juvenil; uma Kenner, meus pés. Nas mãos, trazia eu uma sacola de plástico, dentro da qual vinha um pacote de Bono, recheio de morango, que eu comia aos poucos, do jeito certo: primeiro, um biscoito; depois, o recheio; depois, o outro biscoito. Enquanto eu entretinha pensamentos bastante sublimes, o ladrão surgiu em toda sua ladrãonitude e, seco, ordenou que eu (1) tirasse o boné. Ao perceber o significado daquela ordem, comecei a chorar, baixinho. O ladrão, então, mandou que eu (2) tirasse a sandália também. Lembro que eu tentei resumir num “Pô, véi” o argumento de que ficar descalço, pisando o chão imundo da Estação da Lapa, aviltava minha dignidade, feria meus direitos humanos, todas essas coisas; mas ele, porque ladrão, não se comoveu. Me disse que era pra eu tirar o biscoito da sacola, botar o boné e a sandália dentro, e depois, calminho, calminho, passar a parada para ele. Triste e humilhado, fiz tudo conforme suas ordens; e ao passar-lhe a sacola, meu boné, minha Kenner, não podendo mais me conter, passei a chorar alto, de modo a ser notado, buscando tirar vantagem da minha gurizice, da minha cara sem espinhas, do marejar de meus olhinhos verdes, de tudo o que pudesse despertar alguma compaixão na humanidade. Deu certo. Um sujeito que estava na minha frente, na fila esperando o ônibus, tomou as minhas dores e perguntou ao ladrão SE ELE TAVA QUERENDO ROUBAR O GURI É. O ladrão, surpreso, disse que não, não, era só que eu parecia muito um carinha que tinha batido no irmão dele ali embaixo, e me entregou a sacola com meus pertences, e foi-se embora. Enxugando as lágrimas, pus a Kenner nos pés. Mas só voltei a usar o boné tempos depois.

Para mim está claro que o culpado disso tudo foi James Cameron. Porque veja: se ele não tivesse feito Titanic, eu não teria passado por esse constrangimento todo. Se isso não lhe parece prova suficiente de minha tese, vamos cortar então para os últimos dias de 2009. E cá estamos nós: vindo do Cinemark, ligeiramente frustrados por não ter conseguido comprar ingressos para ver Avatar em 3D, mas no fundo comemorando um pouquinho também, por não ter ficado alguns reais mais pobre, por haver resistido a todo o hype, nem que seja por alguns dias. Lá venho eu, assoviando, solfejando, eventualmente cantando um samba antigo qualquer, totalmente esquecido de que este é um mundo hostil, em que as pessoas tomam o patrimônio umas das outras mediante violência ou grave ameaça, totalmente esquecido do que James Cameron simboliza em minha vida. Eu já estou perto de casa e vejo que lá vem uma menina, muito transtornada. “O que foi? O que foi?”, pergunto. “Oxen, você não viu? Os cara da moto, roubaram a galera toda que tava sentada aí. Eu vi eles vindo, me joguei no chão, e vi você vindo lá embaixo, ali no poste. Se você tivesse demorado mais um segundo, esse relógio aí, por exemplo, já era.”

QED.

James 157 Cameron.