dezembro, 2009 Archives
dez
pais
by tiagoa in Uncategorized
Sérgio Bittencourt fez Naquela Mesa para homenagear seu pai, Jacob do Bandolim. Apesar de ser filho de quem era, Sérgio não sofria da angústia que costuma acometer filhos que escolhem seguir a mesma profissão de pais famosos—e declarava que um de seus maiores feitos era mesmo ser filho de Jacob. Naquela Mesa, mais que uma música sobre a saudade, é também sobre o orgulho que uma pessoa sentia por seu pai: “mais que seu filho, eu fiquei seu fã”. É uma canção bonita porque verdadeira. Eu quase consigo apalpar a verdade que dela transborda.
Naquela Mesa
Sergio Bittencourt
Naquela mesa ele sentava sempre
e me dizia sempre
o que é viver melhor.
Naquela mesa ele contava histórias
que hoje na memória
eu guardo e sei de cor.
Naquela mesa ele juntava gente
e contava contente
o que fez de manhã.
E nos seus olhos era tanto brilho
que mais que seu filho
eu fiquei seu fã.
Eu não sabia que doía tanto
uma mesa num canto,
uma casa, um jardim.
Se eu soubesse o quanto dói a vida,
essa dor tão doída
não doía assim.
Agora resta uma mesa na sala
e hoje ninguém mais fala
do seu bandolim.
Naquela mesa tá faltando ele,
e a saudade dele
tá doendo em mim.
Quando seu pai morreu, James Tate ainda era um bebezinho. O pai dele, portanto, sempre foi uma ausência, uma ficção, o herói de guerra que todo pai que morre no campo de batalha inevitavelmente tende a se tornar. The Lost Pilot é uma das raras ocasiões em que James Tate recorre à autobiografia. Está também entre os poemas dele de que mais gosto. Sempre que o leio, tento recriar a sensação de “[to] touch [one's] face as a disinterested scholar touches an original page”; e, a cada vez, imagino uma coisa diferente—mas acho que, qualquer que seja ela, será exatamente essa a maneira que encontrarei para tocar o rosto de meu pai na próxima vez que o vir.
The Lost Pilot
James Tate
for my father, 1922-1944
Your face did not rot
like the others—the co-pilot,
for example, I saw him
yesterday. His face is corn-
mush: his wife and daughter,
the poor ignorant people, stare
as if he will compose soon.
He was more wronged than Job.
But your face did not rot
like the others—it grew dark,
and hard like ebony;
the features progressed in their
distinction. If I could cajole
you to come back for an evening,
down from your compulsive
orbiting, I would touch you,
read your face as Dallas,
your hoodlum gunner, now,
with the blistered eyes, reads
his braille editions. I would
touch your face as a disinterested
scholar touches an original page.
However frightening, I would
discover you, and I would not
turn you in; I would not make
you face your wife, or Dallas,
or the co-pilot, Jim. You
could return to your crazy
orbiting, and I would not try
to fully understand what
it means to you. All I know
is this: when I see you,
as I have seen you at least
once every year of my life,
spin across the wilds of the sky
like a tiny, African god,
I feel dead. I feel as if I were
the residue of a stranger’s life,
that I should pursue you.
My head cocked toward the sky,
I cannot get off the ground,
and, you, passing over again,
fast, perfect, and unwilling
to tell me that you are doing
well, or that it was mistake
that placed you in that world,
and me in this; or that misfortune
placed these worlds in us.
Como se vê, ainda não aprendi a lidar com o espaçamento entre linhas.
