março, 2009 Archives

27
mar

minha alma canta

by tiago a. in Uncategorized

Estamos no Rio. Constato que o Galeão está pior que a Rodoviária de Salvador. O primeiro contato com a fauna local se estabelece quando passamos pela moça que recebe o ticket do estacionamento. Sem se importar com os clientes, ela faz algum comentário sobre uma prótese de silicone e em seguida quase grita, “A bunda da Manoela―caralho!” Ficamos curiosos, querendo saber se Manoela pôs silicone na bunda ou o quê. Biscoito Globo é só um avoador metido a besta que custa dois reais. Que bom que hoje não está chovendo; amanhã, quando nos encontrarmos, Igor dirá que choveu a semana toda.
Vamos buscar os ingressos na Sapucaí. Pessoas que vão assistir aos shows, daqui a oito horas, já estão fazendo fila. Não há fila para a compra de ingressos, porém. Ficamos sabendo depois que a totalidade dos ingressos não foi vendida e que Los Hermanos receberam muito dinheiro para topar fazer essa reunião, último recurso de que lançou mão a organização do festival “Just a Fest” para chamar público, que será de apenas 24 mil pessoas, informará o jornal de domingo. “Compraram ingressos pela internet?”, pergunta o segurança, “Por aqui, então. Nesse tapete vermelho.” Tapete vermelho. Agora só nos falta-nos o gramour.
Ingressos na mão, decidimos comer. Pegamos o metrô, ao qual me afeiçoo. Ao chegar no shopping, decidimos que, primeiro, vamos beber. Gente sensata não acorda às três da manhã, tendo dormido pouco mais que quatro horas, pega um voo às cinco, sem tomar café, e antes de almoçar toma quase dois litros de cerveja. Cumpre dizer, portanto, que não somos sensatos. Só almoçaremos quando a falta de alimento já estiver trazendo séria ameaça de desmaio a um de nós.
Voltamos pra casa. Urge dormir, e dormimos. Porque não acreditamos em pontualidade carioca, sairemos com um pouco de atraso e chegaremos à Sapucaí por volta das 19h30, a tempo de assistir meio show dos Los Hermanos e ouvir parte daquela que, saberemos mais tarde, foi apenas a segunda vez que Cher Antoine foi executada ao vivo por essa banda de barbados que neste momento toca, melancolicamente, para uma Sapucaí quase vazia. Dias depois, dois de nós conversarão sobre a singela letra dessa canção, que foi composta por um sujeito que iniciava seus estudos de francês e que não quer dizer senão isto: “Caro Antoine, lamento profundamente, mas não vou poder ir com você. Tenho que trabalhar do dia 20 ao 24. Tenho quatro dias de folga. Vou pro interior, viajar de trem pelas montanhas, um trajeto adorável! Vou à praia com os amigos. Vou praticar esportes, e depois, vou esquiar.” Um de nós se perguntará por que é que a parte em francês dessa música faz mais sentido que a parte em português (“Feito pra mim, bom pra você, deixa mudar e confundir. Deixa de lado o que se diz, tem no mercado, é só pedir, me faz chorar e é feito pra rir.”), porém não chegará a conclusão alguma.
Estamos nos aproximando das catracas, onde coletarão nossos ingressos e não quererão ver o documento de identificação estudantil que confere a um de nós o direito de pagar cem reais, e não duzentos, para estar ali. Ficamos com a sensação de que desperdiçamos trezentos reais, e isso muito nos custará, pois tudo aqui é muito caro. Para beber 300ml de água, será preciso se desfazer de três reais. Na arquibancada, de onde assistiremos os shows, os mesmos 300ml de água custarão cinco reais, mesma quantia que estão cobrando por uma lata de cerveja. O som dos Los Hermanos está muito baixo, e a iluminação do palco lembra um show de colégio. Por que será que fazem isso com as bandas de abertura? O show não corresponde a minhas expectativas, Kraftwerk também não me empolga, e quando eu já estou começando a achar que fiz mau negócio, Radiohead entra no palco. Ouve-se, em português, o anúncio “somos Radiohead”, feito por um dos integrantes da banda. Pelas próximas duas horas, assistirei ao show mais bonito a que já pude comparecer. Nos telões projetam-se imagens; são porções dos corpos dos músicos: uma cabeça, um braço. Sobre o palco, acima da banda, há agora o que parecem ser estalactites de luz. Eu nunca vi coisa parecida. É tudo muito bonito. O som está bem mais alto e muito bom. Quer dizer, quem está aqui na arquibancada percebe um pequeno problema, pois ele sai do palco, atravessa a Sapucaí, choca-se contra uns paredões de concreto e retorna, ou seja, eco―que merda. Tirando isso, o show vai ser épico. Vai valer cada real gasto, e quando voltarmos pra casa, estaremos certos de que assistimos a um espetáculo de primeira grandeza.
Dormimos e acordamos. É sábado. Ligo para Igor. É Cíntia que atende. Marcamos de nos encontrar no shopping. Quando eu tiver um filho, quero que ele seja igual a Davi, que ele não pare quieto, que me pergunte se eu conheço a música do camarão, que diga coisas como “eu era Botafogo mas agora eu sou Flamengo porque se não meu pai disse que eu não vou ganhar a piscina de minha mãe”. Grande garoto. Família bonita. Nós vamos ficar lá, conversando e rindo, até as 18h. Vai ser uma tarde muito agradável, ao fim da qual Igor ouvirá a promessa de que não beberá Schin quando vier a Salvador.
Nós agora estamos no metrô, indo para Copacabana, a fim de encontrar o rapaz que atendia pela alcunha de Marcelo Rota. A Rua Tonelero nos recorda a figura de Carlos Lacerda. O Sujeito Que Era Marcelo Rota―neste texto, doravante, um acrônimo―chega acompanhado de Pedro, pianista gente-boa. Marcus chega logo depois. Vamos para o bar. SQEMR não bebe, mas fuma que é uma beleza. O Fluminense está jogando, e SQEMR, pó-de-arroz, confessa que nem sabia. Pedimos batata-frita, cerveja e refrigerante. Falamos de Cormac McCarthy e do Big Lebowski e de João Antônio e de Joe Gould. Nos sentimos bem, na presença um dos outros. SQEMR propõe que passeemos no calçadão que orla a praia―além do sambódromo, este será o único ponto turístico que visitaremos. A noite está como a tarde, agradável. Passamos pelo monumento aos 18 do Forte, onde bananas jazem inexplicavelmente. Calling it a night, voltamos para casa.
Dormimos e acordamos, de novo. O domingo está feio. Nublou-se o céu. Hoje não vamos fazer nada digno de nota. Voltaremos pra Salvador à noite. (Apertemos o botão de fastforward para que anoiteça logo. Pronto: é noite.) Estamos no taxi, rumo ao Galeão. Estamos passando pelas imediações do Maracanã agora. O taxi―com a gente dentro―por pouco não vai ficar preso no meio do conflito que dezenas de flamenguistas e vascaínos ali conflagrarão. Mais cinco segundos, e aqui haveria um relato ensanguentado. Ainda no taxi, ouvindo o jogo, damos muita risada quando o locutor narra, “Que ótima arrancada de Léo Lima, conduzindo a bola pelo meio-de-campo! Lá vem ele! Lá vem ele! Pode ser agora, pode ser ago― ô, Léo Lima… ô, Léo Lima… O Léo Lima tava até indo bem, só que aí ele lembrou que ele era o Léo Lima e fez esse papelão aí”. Rindo ainda, alguém pensa, “Pô, fim-de-semana legal”.

27
mar

tom jobim, profeta

by tiago a. in Uncategorized

“Tenho esperanças que o rock vai evoluir e descobrir o quarto acorde, porque fazer música só com três acordes é difícil, né?” disse Tom Jobim, numa entrevista à Playboy, em 88.
Corta para 2009, manchete da Ilustrada: Roqueiro Iggy Pop canta Tom Jobim em novo álbum. “Isso é porque chegou um certo momento em que simplesmente fiquei enjoado de ouvir brutamontes idiotas com suas guitarras, tocando música ruim.”

26
mar
14
mar

corleone

by tiago a. in Uncategorized

Esta matéria da Vanity Fair deste mês, espécie de making of de The Godfather, conta várias estórias legais. Adianto uma delas.
Johnny Fontane, você se lembra, é um cantor apadrinhado por Don Vito Corleone. Quando ele aparece no casamento da filha do Poderoso Chefão, é aquele alvoroço, as mulheres ficam todas indóceis. Numa cena mais adiante, vemos que, junto com os votos de felicidade aos noivos, Fontane foi levar queixas ao Don, dizer que um certo produtor não quer dar a ele um papel na adaptação cinematográfica de um bestseller cujo personagem principal, ele alega, é um cara igualzinho a ele. “I wouldn’t even have to act—just be myself”, ele diz e, logo em seguida, começa a chorar, dando chilique, “Oh, Godfather, I don’t know what to do. I don’t know what to do”. Em resposta, toma um tapa e ouve “You can act like a man!”.
Desde o livro de Mario Puzo se ouve que esse personagem do cantor apoiado pela Máfia foi inspirado num tal Frank Sinatra, um cantor que, dizem, era apoiado pela Máfia. No filme, o personagem é interpretado por Al Martino, um cantor menos famoso que, fiquei sabendo agora, só ganhou esse papel graças à intervenção de um chefão do crime: “Didn’t the Don send Tom Hagen to convince [studio head] Jack Woltz that Johnny Fontane must be in the movie?” pergunta Al Martino. “Isn’t it similar to what I did? Woltz didn’t want Johnny, and Coppola didn’t want me. There was no horse’s head, but I had ammunition.… I had to step on some toes to get people to realize that I was in the effing movie. I went to my godfather, Russ Bufalino,” ele conta, referindo-se a um chefão do crime da Costa Leste.
Então, gente, eis o que temos aqui. Porque teve o apoio de criminosos ao longo de sua carreira, um cantor serve de modelo para a concepção de um personagem também cantor que, interpretado por um outro cantor que só foi parar no filme graças ao apoio de um criminoso, recorre a um criminoso para obter o papel principal do filme-dentro-do-filme.
A matéria ainda diz que “[w]hen Al Martino, as the whimpering Johnny Fontane, cries over the role the big-shot producer won’t give him, and Brando barks ‘You can act like a man!’ and slaps him, the slap was Brando’s spontaneous attempt to bring some expression into Al Martino’s face [...]“.
Isso é tão meta que minha cabeça quase deu um nó. Li essas coisas e fiquei (O_O) por três dias.

14
mar

bc

by tiago a. in Uncategorized

Bernardo Carvalho: “Eu não tenho formação de leitor. Quando fiz vestibular, não sabia nem escrever redação”.

14
mar

bb

by tiago a. in Uncategorized

A Trip entrevistou Bob Burnquist, “o maior atleta brasileiro em atividade”. Duvida? Duvida mesmo?

13
mar

osíris proclamou matrimônio com ísis

by tiago a. in Uncategorized

por Marcus Martins

egito.jpg

O Olodum foi criado como bloco de carnaval em 1979, saindo pela primeira vez às ruas em 1980. Distinguia-se do som dominante à época por sua forte percussão e letras de caráter social e racial. O primeiro álbum, Egito Madagáscar, foi lançado apenas em 1987 e deu início a uma seqüência de dez discos em cerca de dez anos. Depois de ser o grande nome do carnaval baiano por um longo período, alcançando grande prestígio fora do país, o Olodum, por questões de mercado, passou a fazer diversas concessões em sua música, caindo em relativo ostracismo. As sucessivas concessões à axé music, que se erguia como ditadura musical, aceleraram o processo de desgaste da banda, que lançou seu último álbum de estúdio em 1997, sendo hoje em dia mais um projeto social que entidade musical—e neste ponto é pálido fantasma de seu passado glorioso.
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10
mar

macarrão

by tiago a. in Uncategorized

          Eu devia ter de nove pra dez anos quando apareceu aqui na rua um cara que a galera botou logo o apelido de Macarrão. Como no começo ele odiava ser chamado assim, eu já nem lembro mais o nome verdadeiro dele—todo mundo sabe que se o apelidado não gosta, é aí que o apelido pega mesmo. É óbvio que a gente chamava Macarrão de Macarrão porque ele era alto, branquelo e magrelo. Ele raspava a cabeça com máquina um e tinha uns dentões assim, pra frente, tipo uma égua. Não era de falar muito, e por causa dos dentes, ninguém entendia direito o que ele dizia, quando dizia. Mas até que ele era legal.

          Às vezes a gente chamava Macarrão de Brandini, e parece que ele até preferia esse apelido; acho que porque, na cabeça dele, Brandini era um nome que podia levar alguns desavisados a pensarem que ele era descendente de italiano, gângster, sei lá. Macarrão jogava uma bolinha desse tamanhinho, mas tinha lugar garantido em qualquer time, porque corria feito um queniano. Ele se deslocava do jeito mais desengonçado que eu já vi; as pernas lá na frente, o tronco formando um ângulo de uns 110º com relação a elas. Apesar disso, ou vai ver que por causa disso, corria mais que todo mundo.

          A estória de Macarrão que eu tenho pra contar é que um dia a gente estava batendo baba naquele campo que fica do lado da igreja, eu num time, ele no outro. Aí uma hora lá eu recebo um lançamento, Macarrão vem marcar, e assim que mato a bola no peito, levo uma porrada—quase um rabo-de-arraia—que me derruba feio. Jurando vingança, levanto na mesma hora, retado da vida—e sem bola, na maldade, dou um toquinho por trás em Macarrão, que se afastava do local do crime rindo alto.

          Foi o que bastou. Um corpo estendido no chão, Macarrão com a cara cheia de terra. Saio correndo, temendo pela vida, Macarrão doido atrás de mim; e ele quase me pega; e se me pega, me almoça. Ainda bem que seguraram. Evitaram uma tragédia. Ninguém nunca tinha visto Macarrão daquele jeito, com tanto ódio no coração. Depois desse dia passei quase um mês sem sair na rua. Era de casa pra escola, da escola pra casa, direto.

          Muito, mas muito tempo depois, estava eu no fliper do bar de Seu Juarez, jogando sozinho o bom e velho Cadilaque e Dinossauro, quando do meu lado eis que surge Macarrão. Continuei olhando pra tela, esperando pelo pior, o esfíncter totalmente contraído, pedindo mentalmente a Deus, Senhor, faça Macarrão mudar de ideia, faça o murro na cara que estou prestes a levar virar um pescotapa, algo menos destruidor. Foram os segundos mais longos de minha vida.

          Eu tinha começado a jogar não fazia cinco minutos, acho que ainda estava na primeira fase; eu era Jack, como sempre. Macarrão ficou um tempinho assistindo, depois foi no balcão, comprou uma ficha e voltou. Sem falar nada, botou a ficha, pegou Mustafá e passou a jogar comigo, nós dois contra o computador. E eu lá. Suando frio. Olho grudado no jogo.

          Foi ali, naquele dia, com Macarrão me ajudando, que zerei Cadilaque pela primeira vez. Empolgado, quis comemorar de alguma maneira; aterrorizado, mudei de ideia na mesma hora. Enquanto os créditos finais ainda estavam rolando, Macarrão—que já devia ter zerado aquela fita umas duzentas mil vezes—pegou as coisas dele e foi embora. Nem me bateu, nem me disse palavra. Até hoje.

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Esta é uma estória de ficção, contribuição que faço à primeira aposta de 2009, cujo mote é “macarrão”. Qualquer semelhança com fatos e pessoas da vida real é devida à circunstância de que a vida real de vez em quando me plagia.

6
mar

acadimia

by tiago a. in Uncategorized

Randall Patrick Munroe: “Actually, I think if all higher math professors had to write for the Simple English Wikipedia for a year, we’d be in much better shape academically”.
Grande ideia. E que coincidência, rapaz: ainda ontem estive me perguntando por que é que há tantos acadêmicos escrevendo tão mal. Formulei duas hipóteses:
1) Eles escrevem mal porque sabem que ninguém vai ler;
ou
2) Eles escrevem mal porque são gente ruim mesmo.
A ideia que tive para solucionar o problema foi arranjar um jeito de forçar esses acadêmicos a lerem as coisas que eles escreveram para uma plateia formada pelas mães deles. Isso, claro, contanto que elas também não fossem da Academia.

1
mar

Wiggle Room

by tiago a. in Uncategorized

Conto de David Foster Wallace na NYer. É inédito, salvo engano.
Update: Não, não é um conto; é mais um trecho do que seria o terceiro romance, The Pale King, diz este artigo que também nos informa que o que conhecíamos como Good People e aquele trecho que ele leu pela primeira vez em 2006 naquele festival na Itália (.pdf aqui) são na verdade mais dois trechos do mesmo livro, o qual, embora não tenha sido concluído, vai sair ano que vem e tem por tema o poder libertador do tédio. O personagem principal é um burocrata do Fisco americano.