outubro, 2008 Archives

27
out

eita, e agora?

by tiago a. in Uncategorized

Você conhece a série Domingo com poesia, de Pedro Sette Câmara, não conhece? Espero que sim, porque é legal. O post de ontem apresentou um poema de Elizabeth Barrett Browning, traduzido por Manuel Bandeira, e começou com esta ressalva:

[...] é preciso ter algum conhecimento da história de Robert Browning e Elizabeth Barrett para entender por que os Sonnets from the Portuguese que ela escreveu são os “Sonetos da Portuguesa”: como Barrett tivesse um pé na Jamaica, parecia um pouco mestiça, e Browning a chamava de “minha portuguesinha” (my little Portuguese) [...]

Hmmm. “Sonetos da Portuguesa”… Será? Bem, ao que parece, não era essa a opinião de Carpeaux, apud Ivan Junqueira, que logo no primeiro parágrafo da introdução ao segundo volume dos Ensaios Reunidos (UniverCidade Editora/Topbooks, 2005), conta a seguinte anedota:

Não me lembro com exatidão do dia do mês de outubro de 1962 em que conheci Otto Maria Carpeaux. Recordo-me apenas de que era uma dessas manhãs ensolaradas de primavera quando ouvi, pela primeira vez, a voz tonitruante daquele homem tomado de cólera diante da tradução inexata, ou mesmo estapafúrdia, que fizera um dos colaboradores da Enciclopédia Barsa do título de um dos livros de poesia de Elizabeth Barrett Browning: Sonnets from the Portuguese. O colaborador havia traduzido, entre parênteses, como preconiza a boa norma enciclopédica, Sonetos da portuguesa, em vez de Sonetos do português (ou seja, da língua portuguesa), muito provavelmente porque ouvira contar a história de que o marido da autora, o poeta Robert Browning, costumava chamá-la carinhosamente de “minha portuguesinha” por causa do amor que devotava ao idioma de Camões.

E agora? É mentira de Ivan? O colaborador foi injustiçado? Pedro está certo? Carpeaux errou?

27
out
25
out

nós, os relativamente virgens

by tiago a. in Uncategorized

Tratando da importância do bom manejo do DETALHE nos livrinhos, escreve James Wood na p. 53 de How Fiction Works (Jonathan Cape, 2008) algo parecido com:

Basta você ir ensinar literatura para perceber que grande parte dos jovens leitores são maus observadores. Tomando como referência meus próprios livros velhos, copiosamente anotados pelo estudante que eu era há vinte anos, sei que eu freqüentemente sublinhava, sinalizando aprovação, detalhes, imagens e metáforas que agora me parecem lugares-comuns, ao passo que ignorava serenamente coisas que hoje julgo maravilhosas. A gente cresce, enquanto leitores, e os que têm vinte anos são relativamente virgens. Ainda não leram literatura o suficiente para com ela aprender o modo como se deve lê-la.

Pois é, jovem relativamente virgem como eu: é doloroso, é doloroso―é a verdade. Li esse trecho e não pude senão imaginar o dia em que isso será lido pelo jovem jornalista risos cultural que num debate no ano passado revelou, sem vergonha alguma, que só se sentiu confortável para escrever sobre literatura depois de 2 anos lendo. Isso mesmo que você leu: 2 (dois) anos. O que é quase praticamente uma vida né.
Numa nota relacionada, aproveito para desabafar meu espanto cada vez maior com quem reivindica para si a condição de romancista sem (ou, pior, sem nem ao menos reconhecer a importância, a necessidade, o dever de) ter lido Flaubert―a quem, por sinal, JW dedica dois capítulos. Mas também, pensando bem, qual o problema? Que problema há em deitar-se na mesa de cirurgia do médico que se orgulha de nunca ter tocado num bisturi?
Penso também no jovem autor brasileiro, premiado, que sangra a própria mão e baba iogurte e tira foto do resultado para produzir capas de livros seus, e defende que a receita do sucesso é “[l]er muito, mas não em excesso, para não correr o risco de virar um crítico literário de sua própria obra”.
Repetindo a fórmula para quem não creu (atenção, revisor: creu não é créu):

$egredo do $uce$$o = ler muito, mas não ler em excesso

(Ah, Eliot, vai lá puxar o pé dele de noite, vai)

Mas é melhor deixar de picuinhas; o objetivo aqui é recomendar entusiasticamente o livro de JW, um curso completo de creative writing dotado da grande vantagem de não custar os olhos da cara. Estou lendo e gostando bastante. É verdade que, ocasionalmente, eu me lembro do jovem jornalista brasileiro, do jovem autor brasileiro, e uma lagriminha começa a se formar—mas aí, machamente, eu a reprimo.

21
out

by tiago a. in Uncategorized

É bem triste a matéria escrita à propos da morte de David Foster Wallace que saiu nessa última Rolling Stone, a que tem Obama na capa. Aconselho salvar no HD porque quem subiu avisou que esse link não vai funcionar para sempre. Em uma das fotos que ilustram a página 106, vemos Dave escrevendo numa prancheta, sentado em frente a uma estante que exibe dois gigantescos volumes da edição compacta do OED e, mais acima, um livro grosso em cuja lombada figuram, garrafais, as letras N, A, B, O, K, O e V.
Update: a RS subiu a íntegra do artigo.

21
out

by tiago a. in Uncategorized

Descrição da comunidade dedicada a Pietro Nassetti no orkut:

Comunidade em homenagem a esse patrimônio da nossa nação, homem de inefável erudição, filósofo, matemático, teólogo, botânico, compositor, poeta, decorador de interiores e tradutor venerandíssimo, que contribuiu ao corpus editorial brasileiro com obras do etrusco, do grego eólico, do sânscrito védico, do hebraico pré-bíblico, do eslavo eclesiástico antigo e do chinês da dinastia Wú.
Pietro Nassetti traduziu para o português o Bhagavad-Gita, o Alcorão, os Analetos de Confúcio, o Livro dos Mortos egípcio, a História dos Reis da Noruega de Snorri Sturluson — aliás, numa edição belíssima da Martin Claret —, e, direto do Pali, a opera omnia de Buda.
Pietro Nassetti fala braile e lê Linear-B.
Vale a pena também conferir a linda tradução que ele fez do Orlando Furioso para LIBRAS.
Quando Pietro Nassetti acha algo muito fácil, ele diz “‘Tis Greek to me!”.

Meta: fazer um Pietro Nassetti Facts, apresentando-o como o Chuck Norris literário brasileiro.

20
out

três coisas legais que o capitalismo me deu hoje

by tiago a. in Uncategorized

Comprei na pré-venda da Saraiva, que me cobrou $0 de frete e me deu 20% de desconto, os dois livros de JPP que serão lançados no fim deste mês: o que reúne a poesia completa e o de ensaios. Bagatela. E ainda deu pra dividir tudo em 3x.
Visitei o blog coletivo patrocinado pela Bavaria que a partir de hoje vai reunir Cardoso, Mojo, Renato Parada, Träsel, Cecília Giannetti e Arnaldo Branco.
E baixei a mixtape do Costa a Costa, grupo de rap de Fortaleza (periferia ensolarada do capitalismo) que é SURREAL 100% MASSA. Pra ter idéia do que se trata, pegue De Leve e o Quinto Andar, tire as letras engraçadinhas e no lugar ponha peso (não é à toa que a mixtape se chama “Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência”) e bote sobre uma base que mistura tudo que é ritmo dançante já concebido, carimbó, brega, samba, música latina etc. O resultado vai ser mais ou menos este:

18
out

by tiago a. in Uncategorized

E agora, com vocês, esta leitura dramática de uma carta 100% real pondo fim a um relacionamento—carta, essa, escrita por uma pessoa também 100% real. Espirrei coca-cola pelo nariz e melei tudo aqui quando chegou a parte do I HATE YOU I HATE YOU MORE THAN ANYTHING IN THIS DAMN WORLDDDDDDDDDD.

18
out

não se faça de mouco

by tiago a. in Uncategorized

Não não não oh não faça como eu fiz, não se faça de mouco, faça o esforço necessário para ouvir isto que tenho a lhe dizer, porque eu certamente me arrependo de não ter ouvido quando me disseram e agora, tendo finalmente visto, anseio por espalhar a boa-nova aos que ainda não ouviram (sim estou bêbado) com o entusiasmo desses recém-convertidos que, ignorados por todos e movidos apenas por essa fé que os cega de razão, esbravejam em praça pública e brandem a Palavra, firmes na convicção de que fazem a coisa certa, agindo assim por ser essa, no fundo, a única coisa a ser feita quando se vê a, ah, você também verá quando for chegada a sua hora, que espero seja logo—e quando isso acontecer você também julgará ter tocado nalgo que nem desconfiava estar ali, a luz refletindo sobre frases tão convolutas quanto límpidas e se tornando o estímulo contínuo que faz vibrar áreas de seu cérebro que ninguém daqui jamais conseguiria divisar, tudo se passando de maneira tal que o que à primeira vista parecia linear palavra palavra palavra vai voltar-se sobre si mesmo, entremeado por vírgulas que você só crerá possíveis porque as estará vendo diante de si, inesperados pronomes relativos que, veja, lá vão eles, estão indo dar em cerca de dois mil cavalos selvagens que cruzam em disparada essa planície gaucha formada pelas mesmas vinte e poucas letras que compõem as outras tantas e tantas imagens que no fim também não vão desaparecer tão cedo de sua memória, todas elas virando parte de sua experiência e portanto também um pouquinho daquilo que você ainda não é mas que passará a ser quando fechar o livro e se perguntar por que diabos só está vendo aquilo tudo só agora, outubro de dois mil e oito, sendo que pô bastava alguém ter feito um esforço um tantinho maior, te pegando pelos ombros e sacudindo, sacudindo, sa-cu-din-n-n-n-do e repetindo, olhos arregalados, LEIA SAER LEIA SAER LEIA JUAN JOSÉ SAER.

18
out
16
out

by tiago a. in Uncategorized

A essa altura você já sabe que durante esta semana o Dinosaurs Comics está sendo tocado por convidados e que amanhã a tirinha virá da pena do carinha do xkcd. Se não sabia, clica:

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