setembro, 2008 Archives

20
set

“faço de graça”

by tiago a. in Uncategorized

Atenção, Prezado Senhor Que Decide As Coisas Na Companhia Das Letras: o professor e tradutor Caetano Waldrigues Galindo, que apresentou uma tradução de Ulisses como anexo à sua tese de doutorado (!), disse:

Não. Eu não estou traduzindo IJ1. Gostaria muito, claro. Mas não. Se a Cia resolver editar, sei que o Daniel Galera gostaria de traduzir. Mas é claro que se ele não puder eu me ofereço. Faço de graça.

Sim. Caetano Waldrigues Galindo traduziria 1.079 páginas de prosa nada fácil por R$0. Ele não está brincando.
Proponho uma campanha na internet: algo na linha “Queremos Don Gately No Vernáculo”.

[1] Acrônimo de ij.jpg, de David Foster Wallace (R.I.P.).

20
set

by tiago a. in Uncategorized

O disco novo de Marcelo Camelo saiu faz poucos dias. Não ouvi, nem pretendo. Vai ter show dele na Concha amanhã. Não vou. Melhor ficar ouvindo as musiquinhas dessa banda nova de Rodrigo Amarante.

19
set
18
set

by tiago a. in Uncategorized

“Pleno de hilária inventividade e de ambição pós-moderna, insere-se na melhor tradição borgiana”, escreveu o crítico Julian Cardoni sobre o blog Livros Que Você Precisa Ler.

14
set

felo de se

by tiago a. in Uncategorized

Quando o adolescente que eu fui começou a gostar de Nirvana, Kurt Cobain já tinha se matado há uns quatro, cinco anos, então eu nunca entendi direito o que era gostar de uma pessoa que você não conhece e ver essa pessoa suicidar. Começo a entender. David Foster Wallace está morto, e eu estou triste.
Transcription of the 2005 Kenyon Commencement Address – May 21, 2005

9
set

by tiago a. in Uncategorized

Se cumprirem a promessa, hoje vai ao ar a primeira versão do perfil de Charlie Kaufman que a Wired planeja publicar em sua edição de novembro. Sabe aquele filme dele, Adaptação? Tudo indica que foi inspirada ali que a revista resolveu fazer um blog para revelar o processo de fabricação das salsichas, quero dizer, o processo de escrever e editar a coisa toda, desde a aprovação da pauta até a própria idéia de criar o blog. É lá que o rough draft vai sair, segundo o escriba responsável pelo perfil. Fiquem ligados ao longo do dia.

7
set

O Concerto de João Gilberto em Salvador (V, parte 2)

by tiago a. in Uncategorized

(Continuando)
“Boi. Boi. Boi. Boi da ca-ra pre-ta. Pe-gues-sa me-ni-na que tem me-do de ca-re-ta”
Ao fim da canção, visivelmente emocionado, chamou a atenção da platéia para a beleza daquilo―como se isso fosse necessário. “Vejam que coisa linda: ‘Os anjinhos foram se deitar’. Liiindo.” E repetiu um trecho da música.
Outro momento em que João pediu licença para repetir a canção, por ter se visto mais uma vez obrigado pela iminência das lágrimas a deixar de cantar certos trechos, aconteceu durante a execução de Bahia com H, de Denis Brian. Essa canção foi antecedida da anedota que João também contou no Concerto do dia 14 de agosto, em São Paulo: ele diz que um dia encontrou Denis Brian nos bastidores de uma dessas redes de televisão de antigamente e que elogiou a música, “É linda, linda”. E o campineiro Denis ouviu o encômio e respondeu, “Nunca fui lá”. Sérgio menciona isso tudo, mas não narra uma coisa que eu só sei porque amigos que se sentaram na fila G fizeram o favor de me contar. Logo atrás deles estava Daniela Mercury. A ilustre embaixadora do UNICEF, segundo o que me disseram esses meus amigos, julgou que as pessoas a sua volta ficariam gratas por pagar para ouvir João Gilberto e, de quebra, ainda levar a voz da cor dessa cidade. E cantou junto em vários momentos, talvez porque saudosa dos tempos em que foi backing vocal de Gilberto Gil. Um desses meus amigos, conhecido pela acidez de seus comentários, diz que ela cantou todas as músicas que sabia. Eles dizem que o ápice de sua participação especial aconteceu justamente quando João cantou Bahia com H. Daniela cantou a música inteira e, quando o emocionado João deixou de cantar e prosseguiu só com o violão, ainda ofereceu para os que lhe circundavam o comentário esclarecido e generoso que explicava tudo: “Ih, ele errou”. Quando João pediu desculpas e anunciou que ia cantar a canção de novo, Daniela deu por encerrada sua participação.
Pra mim, a parte mais bonita do post de Sérgio Sant’anna acontece quando ele, que já conta 67 anos de idade, reflete sobre o envelhecer. Cuidando de fazer a ressalva de que considera João Gilberto um gênio, ele diz que João dá mostras de que sente o peso de seus 77 anos. Sérgio não se detém por muito tempo no assunto, dedica a ele pouco mais que cinco linhas, como se temesse não conseguir explicar o que queria dizer e, com isso, acabar maculando o indizível num ligeiro post de blog. Diz que julga ter visto alguma coisa na expressão do rosto de João em determinados momentos, quando este parecia não conseguir fazer do mesmo jeito o que antes fazia facilmente.
Eu acho que entendi o que é que Sérgio diz aqui. Mas para desenvolver o tema, é preciso fazer uma breve digressão.
Início da breve digressão:
Vocês conhecem Retrato em Branco e Preto, de Tom Jobim e Chico Buarque:
1 Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
4 Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar tanto pior
7 O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
12 Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retratos
Eu teimo em colecionar
15 Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
18 Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
21 Pra lhe dizer que isso é pecado
Trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
25 Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração

(Os algarismos estranhos estão aí para que, mais adiante, eu possa falar mais facilmente da maneira como João executou essa canção ao longo de sua carreira.) Conta a internet que Tom Jobim gravou a música pela primeira vez em 1965, no álbum A Certain Mr. Jobim. Nessa época ela ainda não tinha letra e se chamava Zíngaro. Só depois, quando Tom a deu a Chico para que este fizesse a letra, é que ela passou a se chamar Retrato em Branco e Preto. Se não estou enganado, João Gilberto a registrou em quatro de seus discos. A primeira vez foi num disco de 1976: The Best of Two Worlds, gravado ao vivo em Nova York, com Miúcha e Stan Getz. A segunda foi em estúdio; está em Amoroso, de 1977. A terceira aconteceu num show especial para a Rede Globo, que virou disco em 1980. A quarta e última vez está no disco de 1986, que registra seu show no 19º Montreux Jazz Festival.
Para falar do que torna as versões de João mais especiais que todas as outras que já ouvi, vou recorrer a um episódio auto-biográfico. Minha primeira audição dessa música na voz e no violão de João se deu na tarde do dia em que pus as mãos no disco do especial da Globo, disco que se chama João Gilberto Prado Pereira de Oliveira. Eu já tinha lido Chega de Saudade, de Ruy Castro, e já tinha topado a brincadeira que ele lá sugere: a de botar os discos de João pra tocar e tentar cantar junto com ele, karaokê-style. Durante um tempo, essa foi minha brincadeira favorita. A graça dela está em que fazer isso é bem difícil, porque João Gilberto tem um jeito especial de tomar fôlego para cantar: a reserva de ar que ele faz é tão gigantesca que ele consegue emendar um determinado verso de uma canção no verso seguinte e no outro e no outro sem precisar respirar entre eles (v. g.: João conseguiria ler esse último período em voz alta com um só fôlego e ainda assobiaria no final). Quando Ruy Castro chamou minha atenção para isso, passei a prestar atenção nos momentos em que João pegava ar, para tentar fazer igual. Depois de algumas tentativas, eu invariavelmente conseguia (aspectos como afinação e beleza nunca foram necessariamente levados em conta). Mas com Retrato em Branco e Preto, a tarefa parecia impossível.
Para entender o que estou tentando dizer, experimente este teste. Cante Retrato em Branco e Preto e preste atenção nos momentos em que você vai parar pra respirar. Cante, vá―pra ficar mais confortável, certifique-se de que ninguém está olhando. E só leia o resto depois de ter feito o teste; se não, não tem graça.
Pronto? Bem, se você for um cidadão comum, são grandes as chances de que você tenha respirado ao fim de cada verso ou que, no máximo, tenha conseguido cantar dois deles, antes de sentir a necessidade de respirar de novo. Espero que a partir de agora, depois desse pequeno exercício, você possa entender (como eu entendi quando ouvi a música pela primeira vez) a razão por que João Gilberto não é um cidadão comum. Saiba que, enquanto você e eu, em nossas execuções dessa canção, tendemos a cantar um, no máximo dois versos, parar, respirar e cantar mais um, o mínimo que João Gilberto costuma cantar é uma estrofe inteira! (Considero estrofes os trechos que aparecem entre os algarismos. Assim, em 1 < x < 4, x é uma estrofe; em 4 < y < 7, y é outra, etc.) E no disco do especial da Globo, onde a ouvi pela primeira vez, ele faz o impossível. Logo na primeira execução do tema, canta do início da linha 4 até o fim da linha 10: de " Já conheço as pedras do caminho" até "E que no entanto".
Aí você diz, "Ah, isso é fácil. Basta cantar mais rápido", e eu ouço você dizer isso e te informo que João canta Retrato em Branco e Preto sem alterar seu andamento. Quer dizer, ele até altera, mas apenas para torná-lo ainda mais lento! Duvida? Então ouça:

Hoje, depois de muito treino, eu até consigo acompanhá-lo nesse trecho; mas meu irmão, que há pouco estava ao meu lado enquanto eu verificava se ainda era capaz de tal façanha, disse que antes de começar a cantar essa parte, eu inspiro de uma maneira tão exagerada que pareço alguém que vai participar de uma aposta pra ver quem consegue ficar mais tempo embaixo d’água na piscina.
Fim da breve digressão.
Se você não toma cuidado, acaba viciando nessa brincadeira e não consegue mais ouvir João Gilberto sem prestar atenção nos momentos em que ele respira. Passa, então, a ter uma espécie de piada interna com ele: as outras pessoas, as que não repararam nisso ainda, ouvem a execução, e só. Você, não. Você fica recebendo uma mensagem contínua de João, em que se desvenda mais um pouco desse modo falsamente simples de fazer música, que tanto engana. Para quem ouve inadvertidamente, João aparece como alguém que não está fazendo esforço algum para cantar. Mas você, que adquiriu o hábito de enfileirar vários arquivos em mp3 da mesma canção para ouvi-los um atrás do outro, reparando nas sutilezas, nas diferenças entre uma versão e outra, você sabe precisamente o que está em jogo ali.
Sérgio Sant’anna certamente é assim, e estava lá no TCA ansioso para ver por quanto tempo João, com um único fôlego, sustentaria a nota final de um compasso, depois de já ter cantado três, quatro, cinco versos. Deve ser exatamente por isso que ele diz ter conseguido enxergar, no rosto de João, a expressão em que este pareceu revelar uma espécie de frustração por não conseguir fazer o que queria, uma expressão que se de fato existiu, poucos puderam ver, seja porque não prestaram suficiente atenção, seja porque não conseguiram sentar mais perto do palco. No canto de João Gilberto havia mesmo algo um pouco diferente, que eu consegui notar em não mais que dois momentos.
O que aconteceu nesses momentos foi o seguinte: João Gilberto respirou no meio da frase musical. Pode ser que ele estivesse apenas um pouco resfriado; pode ter sido culpa do ventinho; pode ter sido a emoção; e eu juro que ainda prefiro acreditar em algumas dessas hipóteses. Mas pode ser também que Sérgio Sant’anna esteja certo: talvez João esteja mesmo sentindo o peso dos 77 anos. Esse é o tipo de coisa em que ninguém acreditaria se estivéssemos falando de um show de quinze anos atrás, por exemplo. Mas no Concerto de João Gilberto em Salvador, isso ocorreu, sim. Quem prestou atenção na execução de Retrato em Branco e Preto―e a essa altura espero nem precisar falar do grau de atenção que dediquei a essa parte do show―, viu que João, na segunda repetição do tema, cantou, “Já conheeeço as pedras do camiiiiinho eeeee seiiiiii taaambém que aliiiiiiiiiiiiiiiii sooooooooooziiiiiiiiiiiiiiiiiinho eu vou ficaaar (respira) tanto piooor”, coisa que, para ele, seria inconcebível, há vinte anos. E não me espantaria se um dos que partilham da intimidade de João me dissesse que essa música se tornou seu maior desafio nesta década; no show que deu em Recife, em 2000, durante a primeira execução do mesmo tema, João respirou depois de “maltratar”. Isso acontece mais ou menos em 1:53 no bootleg postado abaixo:

(Continua no fim-de-semana que vem―espero.)

6
set

O Concerto de João Gilberto em Salvador (V, parte 1)

by tiago a. in Uncategorized

No dia seguinte ao Concerto de João Gilberto em Salvador, acordei querendo ler uma notícia em que não se mencionasse o atraso de mais de uma hora para o início da apresentação. Notícias desse tipo não são tão importantes. Eu queria que os jornais estivessem falando mais de tudo o que aconteceu por lá; algo que fosse além do registro da presença de figurões e dos preços que os cambistas estavam pedindo pelos ingressos, pois essas coisas são ordinárias, acontecem toda hora. Eu queria ler algo incomum, porque um relato trivial jamais daria conta do que aconteceu durante o Concerto de João Gilberto em Salvador, que foi extraordinário. Mas eu acho que, no fundo, no fundo, o que eu queria na verdade é que Sérgio Sant’anna tivesse gostado da experiência de ter um blog e tivesse se mantido blogueiro (ainda que sob um nom de plume), e que ele também tivesse ido ao TCA ontem, e que ao chegar no hotel não tivesse conseguido dormir, atormentado pela experiência angustiante que é ver e ouvir João Gilberto tocar ao vivo e saber-se incapaz de transformar em palavra tudo o que sentiu enquanto estava lá, com seus pensamentos, impressões e emoções mais uma vez teimando em não virar esse outro conto que ele vem tentando escrever sobre João. Sim, porque 26 anos depois dessa coisa linda que é O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, e apesar de toda recepção e de todo aplauso―mais que merecidos, na minha opinião―, ouvi dizer que ele ainda acha que falhou ali. Coisa de escritor.
Mas Sérgio Sant’anna, esse herói, esse bravo, segue lutando no quarto de hotel: e bebe hectolitros de café e vai acendendo um cigarro no outro e até chora em alguns momentos, pois acha que, merda, inda não vai ser dessa vez. Apaga tudo e começa de novo. Liga pra um amigo daqueles que ele pode ligar a qualquer hora, com a certeza de que nunca vai estar incomodando, devido a mais uma dessas inexplicáveis e belas prerrogativas que as velhas amizades conferem aos homens a fim de tornar suas existências um pouco menos penosas, um amigo que, sei lá, a gente vai chamar aqui de Carlos, e com a voz embargada dos desesperados, diz “Porra, Carlinhos. Não vai dar. Tá fogo. Não vai sair”, apenas para receber, em réplica, mais um reconfortante “Vai, sim. A gente sabe que vai.” Ele então resolve voltar ao computador e decide deixar o conto pra mais tarde e agora vai fazer só um post, porque blog não é (e, como tudo, também não precisa ser) literatura. E é exatamente esse post de Sérgio Sant’anna o texto que eu queria ler hoje.
O atraso, os figurões, os cambistas: ele não falaria de nada disso. Também, pra quê? Nesse post de Sérgio Sant’anna, um leitor mais atento (como você, por exemplo) pode enxergar que aquilo pode, sim, estar servindo como rascunho para algo maior, já que ele não se limita aos aspectos factuais, vai um pouco além. É certo que não é ainda o que ele queria ter escrito, mas seguramente aquilo foi tudo o que ele conseguiu escrever, porque se não escrevesse pelo menos aquele post, não ia nem conseguir dormir, a cabeça não ia parar de doer―ele sabe como são essas coisas, lembra bem o que foi escrever Cenários.
Seu post seria mais ou menos assim. Ele começa dizendo que o Concerto de João Gilberto em Salvador já teria sido diferente daquele que João Gilberto não deu no Canecão e que resultou em O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro pelo simples fato de que aquele (o Concerto de Salvador) realmente aconteceu, e este último (o do Canecão), não. Só que essa não é a única razão da diferença. Houve mais. João estava bem-humorado e emocionado e feliz de cantar em sua terra. Quando começou a falar, depois de entrar pelo lado esquerdo do palco, ouvir os aplausos de cabeça baixa e sentar-se, João inaugurou um novo mundo, segundo Sérgio, cujos ouvidos sentiram a mudança imediatamente. Tudo virou silêncio; o concerto enfim iria começar. Ele então passa a descrever o que aconteceu quando soaram os primeiros versos, em forma de anúncio: “Que saudade tenho da Bahi―”
João pára de cantar, balança a cabeça. “Eu tinha pedido pra não ter esse microfone. Tem um negócio assim, desnecessário. Você encosta, e faz um barulho. Poderia ser reto, sem ‘isso’. Pedi a alguém pra pedir, mas…acho que ‘alguém’ não pediu.” Todo mundo ficou nervoso nessa hora. Sérgio, porém, nos diz que até nos momentos em que reclamou, seja do microfone, seja do ventinho, João dava a ele, Sérgio, a impressão de não estar reclamando de verdade. Acho que ele simplesmente estava de bom humor, mas Sérgio Sant’anna diz que viu ali algo de Budismo, algo de desapego. Ele diz que João hoje se permite fazer graça com o que foi no passado: o genioso genial que interrompia shows por causa de temidos ecos, injustas vaias, impiedosos aparelhos condicionadores de ar. E deve ter alguma verdade nisso que ele está dizendo, porque eu, claro, também fui ao show de ontem e vi que o que não faltou foi barulho, vindo principalmente de celulares, pigarros e tosses; e posso atestar que João estava mesmo brincalhão porque a certa altura, depois de uma tosse mais forte, ele disse que deveriam ter levado um xarope―ou foi isso ou algo muito parecido, não ouvi direito, só ouvi “xarope”. Seja como for, Sérgio lamenta que essa fase zen não tenha chegado a tempo de permitir que o concerto no Canecão acontecesse, e eu não deixo de ver nas entrelinhas desse lamento dele uma esperançazinha de que, se aquele show tivesse acontecido, o conto teria saído melhor. Preciosismo de artista que busca a perfeição. O conto é magnífico.
Resolvido o problema do microfone, Sérgio diz que João seguiu brincando com as expectativas. Não voltou a tocar Saudade da Bahia. Em vez disso, veio “Você já foi à Bahia, nêga? Não? Então vá.” A propósito, posso dizer que essa coisa de fingir reclamação, de fingir começar a tocar uma música e tocar outra, isso de meio que brincar com as expectativas do público, isso rolou o show todo. Por exemplo: todo mundo esperava que, com a morte de Dorival Caymmi, ocorrida há poucos dias, João Gilberto tocasse muitas canções desse que parece ser um de seus dois compositores prediletos, o outro sendo Antônio Carlos Jobim. E João, sabedor dessa vontade coletiva, atendeu, sim, a essa expectativa, mas não deixou de brincar com ela também, à medida que apresentava novas versões para cada uma das músicas de Caymmi que costuma tocar e, não satisfeito com isso, ainda mostrava cada repetição de cada tema de um jeito diferente―o que, por seu turno, também era uma expectativa (minha e de Sérgio Sant’anna, pelo menos). Um outro exemplo dessas brincadeiras, lembrado por Sérgio, aconteceu durante o bis. João atendeu a um pedido da platéia e tocou Coqueiro Velho, e isso foi o que bastou para que todo mundo se achasse no direito de pedir uma música também. Pediram Avarandado. Pediram Doralice. Pediram uma outra lá. E João, brincalhão, provocava, “Tem uma outra…que pediram aí…nesse instante”. Volta a gritaria, ninguém entende nada; João ri e interrompe a balbúrdia com Garota de Ipanema, a última da noite. Mas essa parte é o fim do post, antes disso tem mais coisa.
Para Sérgio Sant’anna, o momento mais tenso de todo o concerto aconteceu quando, da platéia, começaram a vir pedidos de “aumenta o som”. Mesmo tendo erroneamente entendido que os pedidos eram para que ele cantasse mais alto, João não se aborreceu, falou da “trompinha”: “Você tem a orquestra, aqueles instrumentos todos lá, blém-blém-blém. E aí tem a trompinha, fuuuuuuon. Baixinho…fuuuuuuon”. Sérgio Sant’anna diz que não é de rir, mas que riu. Assim como todo o resto da platéia, eu inclusive. Ele ainda dedica um parágrafo inteiro à vontade que sentiu de ser baiano na noite de ontem: diz que João disse, “Olha, eu canto por esse mundo todo…mas a Bahia é diferente. Eu fico até nervoso”. Ensaia descrever o que deve sentir um baiano quando ouve citações à Baixa do Sapateiro, Calçada, Barroquinha, na voz de João Gilberto, mas desiste. Diz que é mineiro, que nunca vai entender. Entendo o que ele quer dizer. O show foi mesmo muito emotivo pra quem é daqui; eu até chorei um pouquinho. Em certos momentos, João deixava de cantar trechos de algumas músicas, também dando a impressão de que ia começar a chorar. Como quando cantou Acalanto, mais uma de Dorival.
(Continua)

3
set

by tiago a. in Uncategorized

Meu mundo caiu, e o seu também vai cair caso você seja mais um que se interessou por Auden assistindo Sete Casamentos e Um Funeral (oh, dê cá um abraço, meu irmão filisteu!). Sabe aquele poema? Diz-se que é ironia!

The odd thing is that Auden’s poems are often saying the reverse of what we have now decided to hear. “Stop All the Clocks” was written as a jaunty, Noël Coward-like ironic pastiche of a mourning song, unmoored from grief—no more meant to be taken seriously as an elegy (“Prevent the dog from barking with a juicy bone”?) than “You’re the Top” is to be taken seriously as a love poem.

E pergunto aos amigos audenianos se é isso mesmo, porque algo me diz que é prudente ler esse trecho cum grano salis, sendo esse Adam Gopnik o mesmo Adam Gopnik que há poucos meses escreveu aquele artigo sobre o anti-semitismo de Chesterton (chamar de “polêmico” seria eufemismo).

3
set

by tiago a. in Uncategorized

Ah, Ruy, é divertido! Adoro debates em que um dos contendores encarna um Grammar Nazi. É rasteiro, eu sei. É vil, eu sei. É cretino, eu sei; e vai ver por isso mesmo é que eu adoro. Ao coligir os estratagemas, Schopenhauer se esqueceu deste: mostre que seu adversário não sabe escrever (se bem que, pensando direito, dá pra reconduzir a manobra a alguns deles sim, especialmente ao XXXVIII). Mas enfim, eu acho divertido. “‘Um lustro tedioso’ faz pensar num qüinqüênio sem novidades”―isso é muito massa!