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junho 25, 2008

o concerto de João Gilberto em Salvador (II)

Mas enquanto João Gilberto não vem, vamos retornar por um instante a 1997 e lembrar das duas ou três cerimônias de formatura que assistimos naquele ano. Quero que você tente sentir o desconforto habitual, a vontade de não estar ali; veja como o auditório está lotado, cornetas soando à medida que se anunciam os nomes dos formandos. À primeira vista, nada difere do que se vê nas formaturas de hoje. Mas preste atenção; repare bem.

E olha lá.

Olha lá a quantidade de jovens bacharéis usando gravatas com estampas de personagens Looney Tunes: Patolino, Pernalonga, Marvin, o Marciano. São muitos, e ainda que qualquer álbum de fotos da época os mostre felizes, sorrindo com suas gravatinhas, parecem todos obviamente ridículos agora que ninguém mais usa o adereço infame, abandonado porque houve um ponto na História em que as pessoas subitamente não quiseram mais ser vistas e tratadas como um espécime pertencente a 1997—o que possivelmente ocorreu já em 1º/01/98.

tiahoneu.jpg

Essa gravata, a gravata de personagem Looney Tunes, é um excelente símbolo do que aqui vou chamar de Ironia Contemporânea, só que antes de avançar mais me parece útil dar logo minha definição do que vem a ser isso. Entendo que a Ironia Contemporânea é um jogo de linguagem cujos mecanismos podem ser facilmente compreendidos se estivermos de boa vontade, e peço licença para, a partir do próximo parágrafo, me tornar um pouco óbvio aos olhos de alguns de vocês.

Vejo a coisa estruturada em duas camadas, cada uma portando um fragmento da mensagem. Na primeira camada vem a literalidade do que se diz, e na segunda, o que se quer realmente dizer. Essas duas coisas—aquilo que literalmente se diz e aquilo que se quer realmente dizer—não podem coincidir. Antes, é preciso que exista um descompasso entre elas, a primeira camada criando uma expectativa a ser frustrada pela segunda. Digo uma coisa, mas o que eu realmente quero dizer é uma outra. A fim de que haja ironia, a relação entre as tais duas camadas não precisa ser contraditória ou paradoxal, necessariamente. Bastam a descoincidência e, principalmente, a intenção de criar essa descoincidência. Não existe ironia acidental, e eu faço questão de dizer isso porque, em minha experiência, tenho visto esse último aspecto ser um tanto desprezado. Tenho visto muita gente boa chamar de irônicas coisas que passam longe da ironia. Confunde-se ironia com paradoxo, com mera contradição, com aquilo que não passa de coincidência infeliz; a canção Ironic da canadense Alanis Morrissette parece ser o melhor exemplo disso. Nela, não sei se vocês se lembram, se enumeram situações que só possuem em comum o fato de absolutamente não serem irônicas—e aqui convém que eu me antecipe e diga que tampouco é irônico o fato de uma música que se chama Ironic não trazer nenhum exemplo de ironia. Isso é apenas um paradoxo. (Aos interessados, digo que vi uma exposição decente da diferença entre essas coisas ser feita por uma Zoe Williams, num artigo para o Guardian).

Retomemos agora o exemplo da gravata Looney Tunes para ver por que ela me parece ser um excelente símbolo de Ironia Contemporânea. Note que ali o primeiro nível está representado pelo objeto que lembra uma gravata: os sujeitos que em 1997 adornavam seu pescoço com aquilo comunicavam um aparente assentimento às regras de etiqueta que recomendam o uso de gravatas numa formatura. Na figura do Patolino, por outro lado, vemos o segundo nível, aquele em que os indivíduos expressavam sua verdadeira opinião sobre as ditas regras: numa cerimônia formal em que se pedem gravatas, uso uma que, por não ser formal, tampouco é gravata.

Fossem só essas características, teria razão quem dissesse que a Ironia Contemporânea não é assim tão diferente da velha e boa Ironia que nos acompanha desde os gregos. Mas há um traço distintivo que—creio eu—aconselha a tentativa de subclassificação, porque diz respeito com o desiderato do jogo. Enquanto Sócrates, fingindo ignorância etc., valia-se da ironia para levar seus discípulos a roçar a verdade, o que eu chamo de Ironia Contemporânea é o fenômeno acima descrito servindo a um propósito inteiramente gratuito. Subjacente ao jogo de linguagem, não se revela tomada de posição alguma. A Ironia Contemporânea é a ironia pela ironia. Quem quer que se dedique a observá-la mais detidamente verá que parcela expressiva dos que topam jogar seu jogo dá a impressão de só o fazer para participar ao resto da humanidade sua competência nele; é como se fazer uma ironia fosse o equivalente de hoje para a capacidade que, segundo Larkin, todo homem educado tinha para compor um verso e tocar alaúde no séc. XVII—e suponho que essa mania de ser irônico apenas para dizer que é capaz de ser irônico surgiu porque, nalgum ponto da segunda metade do séc. XX, ficou decretado que a coolness de um sujeito era diretamente proporcional ao quão habilidoso ele era ao fingir que gostava de uma coisa da qual ele na verdade não gostava tanto assim. É irônico? Ah, então é legal.

Meu argumento, embora meio silogístico, não me parece tão banal; caso contrário, podem ter certeza, o post seria menor. Penso que, como ironia virou sinônimo de cool, e como todos querem ser cool o tempo todo, todos passaram a ser irônicos o tempo todo. Creio que nenhum de nós estaria sendo leviano se dissesse que muitos dos sujeitos que usavam gravatas Looney Tunes em 1997, além de não estarem totalmente cientes dos níveis de mensagem que seu comportamento expressava, tampouco ligavam a mínima pra isso: se usavam aquelas gravatas, faziam-no principalmente porque queriam parecer ishpertos, descolados; quiçá nem sabiam que estavam sendo irônicos. Eles usavam aquelas gravatas pelos mesmos motivos que levam a que eu e alguns de vocês sejamos gratuitamente irônicos hoje; porque, por diversas razões, algumas das quais David Foster Wallace relacionou à televisão, o poderoso mantra “irônico, ergo cool”, a despeito do que tem de pedestre, se espraiou, virótico, por todos os lugares e está em toda parte.

Daí essa overdose de ironia gratuita, frívola e estéril. O exagero é tanto que, ao tempo em que eu escrevia este post, o google levava 0,09 segundos para me apontar 52.900 resultados na busca por “unironically”. Acredito que essa é a mais eloqüente demonstração do argumento que estou defendendo: só pode haver tanta necessidade de deixar claro que algo está sendo dito unironically porque, de alguma maneira, a ironia, de exceção, passou a regra. Reconheço, porém, a possibilidade de isso não ser tão presente na vida de alguns de vocês. É possível que isso seja coisa de gente que tem mais ou menos minha idade. Lembro que, ao tratar do que ele chamou de “culto da tosquice”, Pedro Sette Câmara escreveu:

[...] muitas vezes, ao ter contato com a geração dos nascidos nos anos 80, tenho a impressão de que a busca pela tosquice se tornou a norma. A quantidade de referências a coisas toscas que meus infantes amigos fazem é imensa, e o entusiasmo com que falam daquilo que na verdade desprezam, além de me dar a sensação de um abismo geracional, mostra, pelo distanciamento de si mesmos, o quanto de pose e cálculo existe nessa atitude. Pessoas que tiveram uma educação superior à média optam pela vulgaridade ao falar, escrever e consumir.

No que foi parcialmente corrigido por Alexandre Soares Silva, que disse que

[...] é verdade que não é fácil encontrar um homem de 45 anos, digamos, gostando de filmes ruins porque são ruins, falando que nem o Misto Eleazar e tal. É de fato um problema de geração, mas essa geração inclui a do Pedro: conheço muita gente de trinta e tantos que é assim.

Pedro disse não ter idéia das causas disso, e eu também não tenho; mas meu palpite é o de que seus infantes amigos estão apenas sendo porta-vozes da Ironia Contemporânea. Permitem-se fazer referência ao que é vulgar porque sabem que, devido ao contexto, a segunda camada, expressa na circunstância de haverem tido uma educação superior à média, não permite que corram o risco de serem tidos como gente vulgar. Escrevem como Misto Eleazar tomando o cuidado de ao mesmo tempo deixar claro que sabem a diferença entre uma redondilha menor e uma redondilha maior, a fim de que todos possam saber que eles estão sendo irônicos quando perguntam “como fas/”. Tudo o que eles querem é mostrar uns aos outros que são legais, que estão por dentro da brincadeira, e hoje a maneira mais eficaz de fazer isso é ser gratuitamente irônico. Digo isso sem esquecer que nasci nos anos 80 e sabendo que faço isso às vezes.

Mas também sei que ser irônico o tempo todo cansa; e às vezes me vem a desconfiança de que, no fundo, ironia gratuita em tempo integral pode ser apenas mais uma expressão de cinismo. Julgo, aliás, que o eventual interessado em fazer uma análise séria da Ironia Contemporânea—uma investigação que, a par de identificá-la e mostrar como ela funciona, se ocupasse de suas causas e dos motivos que levaram a essa sua quase onipresença; uma investigação que eu confesso não reunir condições para fazer—teria que testar a hipótese de que existe uma correlação entre ela e um tipo de cinismo que, em minha opinião, é hoje tão ubíquo quanto ela. Estou falando aqui deste cinismo covarde de que a gente lança mão quando não quer arcar com o ônus de abraçar uma causa, defender uma posição. Todo cínico sabe que a melhor maneira de pôr as coisas que diz fora do alcance de qualquer crítica é não revelar aquilo em que ele realmente crê. O cínico acha que é mais esperto que os outros quando faz seus comentários aparentando não expor senão seu próprio cinismo. Busca, com isso, escapar da crítica a que está sujeito todo aquele que aspira a ser tratado como adulto, a crítica na qual o cínico, em última instância, dando de ombros, sempre pode dizer não estar interessado. Mas além de cinismo—diria eu se tivesse alguma autoridade moral sobre vocês—, é bom que a gente saiba que os que assim agem também podem acabar revelando preguiça ou covardia. Arriscam jamais serem levados a sério; é o preço que se paga.

E é por passar boa parte do meu tempo ou sendo gratuitamente irônico, ou pensando nessas coisas todas, que eu, toda vez que quero tomar fôlego, descansar do jogo, experimentar um pouco de honestidade, me volto para João Gilberto, antônimo da ironia, sujeito que há décadas canta músicas que fizeram sucesso décadas antes de ele começar a cantar. Embora tenha gravado uma música de Lobão, episódio para o qual ainda não encontrei explicação, João Gilberto não faz concessões à Ironia Contemporânea; é a única pessoa que eu vejo cantar “quém-quém-quém” e emprestar sinceridade a cada grasno. É bem possível que, quando ele apareceu, cantando baixinho canções que faziam parte do repertório de Orlando Silva, muitos tenham achado que ele estava sendo irônico; no entanto, meus amigos, lá se vão cinqüenta anos, e ele continua cantando “Aos Pés da Cruz” do mesmo jeito; e se isso não prova que aquela gente estava errada, eu me chamo Farnésio Dutra e Silva, muito prazer. Diferentemente daquele seu fã dileto que cede à tentação de comunicar que também sabe jogar o jogo da Ironia Contemporânea ao incluir o funk do tapinha em seus shows, João Gilberto, no dia 05 de setembro de 2008, reclamará de algum ventinho no palco do Teatro Castro Alves, onde cantará sambas da década de 40 para uma platéia que, muito provavelmente, só poderia ser exposta àquele tipo de música, num contexto não-irônico, naquele lugar, àquela hora, e será a pessoa mais sincera num raio que vai do Campo Grande à Ribeira, enquanto eu, testemunha, encontrando pausa no meio da gritaria irônica, segurando a tua mão, meu amor, pensarei, mais feliz do que jamais estive, no post que escrevi meses antes, aquele post que você disse que eu devia terminar, aquele, o que encerrava com a frase “João Gilberto é refrigério” e ah, meu Deus, como eu estava certo.

junho 23, 2008

Creia em mim: é bombagarai este perfil-elogio-póstumo de JPP que saiu na piauí deste mês. Não é que os putos botaram o texto atrás de uma pay-wall? Via cache do google, ainda dá pra ler; pena que daqui a uns dias some. Mas a internet é tinhosa. Não diga a ninguém que na extended entry ;>) heheh

Um Homem Como Outro Qualquer
RODRIGO NAVES

Desprezando a ostentação de brilhantismo, José Paulo Paes escrevia para pessoas que, como ele, não tinham formação universitária. Trabalhava numa perspectiva na qual a cultura mantém a vocação universalista e democrática.

José Paulo Paes era um homem avesso a ênfases no escrever, no falar e no proceder. Detestava chamar a atenção e seu comportamento discreto era, num homem constante, talvez a constância predominante. Em situações sociais, parecia se ocupar sobretudo com sua bengala, girando-a lentamente diante dos olhos. Chegou mesmo a homenageá-la:

contigo me faço
pastor do rebanho
de meus próprios passos.

Gostava de conversar, gostava menos de discutir – tinha de áspero apenas os cabelos cortados à escovinha, aliás irretocáveis – e menos ainda de discursar. Pastoreava apenas os próprios passos. Valorizava o bom humor e, quando contrafeito, apenas fazia avançar rigidamente o queixo, como se o deslocamento anormal de uma parte do rosto revelasse a situação em que se encontrava.

Em 1995, a editora Atual encomendou-lhe uma pequena autobiografia, que desse aos leitores mais jovens alguma idéia da trajetória de um poeta. O título do livro era a sua cara: Quem, Eu? Um Poeta como Outro Qualquer. Ele se referia a um programa de rádio dos anos 40, no qual os humoristas Lauro Borges e Castro Barbosa comandavam um show de calouros. Em certos momentos, chamavam alguém da platéia e então se ouvia ao fundo as vozes de “quem, eu?”, ansiosas por serem levadas ao palco. No caso de Zé Paulo, a interrogação traduzia mais espanto que ansiedade. Afinal, não pusera todo seu esforço em viver sem itálicos, e agora lhe vinham com a encomenda de sublinhar os momentos marcantes da existência?

Os acontecimentos exteriores de sua vida, de fato, caberiam numa página. Nasceu em Taquaritinga, no interior de São Paulo, em 1926, numa família de classe média baixa, filho de pai português e mãe brasileira. Desde criança, revelou-se pouco fotogênico, o que o desajeito das fotos feitas na maturidade, para jornais, confirmou. Fez primário e ginásio no interior do estado e, em 1944, mudou-se para Curitiba, onde se formou no curso técnico do Instituto de Química do Paraná. Passou a morar na cidade de São Paulo em 1949, e aí trabalhou onze anos numa indústria farmacêutica, a Squibb, e quase vinte anos na editora Cultrix, quando se aposentou e passou a dedicar-se integralmente a escrever.

Tinha a saúde frágil, em função de um grave problema circulatório, e não teria chegado aos 70 anos se não tivesse conhecido o grande amor de sua vida: Dora, bailarina admirável com quem se casou em 1952 e cujos cuidados o ajudaram a superar as armadilhas da natureza. Também no amor, Zé Paulo falava baixo:

Meu amor é simples, Dora,
como a água e o pão.
Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.

Esses acontecimentos, à exceção de Dora, foram apenas os portos em que teve de atracar para chegar a outro destino – e que tenha chegado a ele é o que fascina. Não podia, afinal, ter se satisfeito com uma das paradas, se acostumado com ares e gentes, e ali ter construído pouso? Difícil não perder o norte quando não se sabe bem onde ele fica nem se está preparado para ele. Na dúvida, não custava ter um abrigo provisório, no qual pudesse ter paz para imaginar como viveria um dia. E aos poucos construíram, ele e Dora, uma pequena casa no bairro de Santo Amaro, que com o tempo tornou-se o ancoradouro definitivo. Em pouco mais de 150 metros quadrados encontraram espaço para biblioteca, jardim, uma pequena piscina, mais a casa, em que se dispõem ainda hoje lembranças de viagens e amigos, réplicas de esculturas gregas e telas modernas, garruchas e antigas máquinas de costura adaptadas a novos usos. Parecia com a vida deles: uma grande variedade de coisas e ambientes que uma vontade não impositiva soube aos poucos aproximar e afeiçoar.

Muitos outros escritores e intelectuais brasileiros (ou estrangeiros que aqui viveram) conseguiram sobreviver à margem das instituições oficiais de ensino e pesquisa. Talvez tenham sido maioria até o início dos anos 60, justamente pela ausência de instituições que os abrigassem. A cultura brasileira não seria a mesma sem a contribuição de figuras como Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Gilberto Freyre, Caio Prado, Otto Maria Carpeaux, Anatol Rosenfeld, Barbara Heliodora, Augusto de Campos, Fausto Cunha, os intelectuais (tantos!) ligados ao Itamaraty... a lista não teria fim. O fortalecimento das universidades e de outros centros de pesquisa teve, sem dúvida, um papel imprescindível para a cultura nacional. A influência decrescente desses grandes “amadores” também trouxe à nossa produção cultural – de par com os discutíveis ganhos do rigor universitário – algum desamor que, receio, deixou pelo caminho aspectos que fazem falta.

Um país com a produção intelectual tão profissionalizada como os Estados Unidos ainda se alimenta de um sem-número de escritores, críticos e ensaístas não universitários. Talvez não tenham mais o peso de um Clement Greenberg, Edmund Wilson, Susan Sontag, H. L. Mencken, James Agee ou de um Dwight Macdonald. Ainda assim, eles contrapõem ao conhecimento universitário uma perspectiva na qual a cultura mantém (talvez utopicamente) muito da sua vocação universalista e democrática.

Quando olhamos mais de perto a formação de Zé Paulo, essa capacidade de cidadãos comuns impulsionarem saberes e artes chega a ser comovente. Não me refiro apenas a seu avô tipógrafo, em cuja casa cresceu, e a esse contato íntimo entre letra e matéria, esse fascínio de dar multiplicidade aos pensamentos por meio de uma atividade artesanal, e de conviver com a admirável tensão entre o chumbo das fontes tipográficas e a abstração de conceitos, idéias e metáforas. Penso também na importância que teve para ele, ainda em Taquaritinga, um ex-sargento da Força Pública, Antônio Mendonça, homem simples que se educou em meio a correntes de esquerda e, em função desse engajamento, perdeu o posto, vindo a ser professor de educação física. Com ele, Zé Paulo teve acesso a Gorki, ao ABC do Comunismo de Bukharin e a outros textos marcantes da esquerda da época. Ou as sugestões fornecidas por um homem de educação mais formal, Oswaldo Elias Xidieh, que visitava parentes em Taquaritinga e abria um pouco os horizontes do nosso quase capiau.

Não creio que trace uma visão romântica da formação do Zé Paulo. Busco entender por que certas influências o conduziram, posteriormente, a valorizar determinados aspectos do trabalho de escritor: clareza, correção, preocupação com o leitor, adequação aos meios em que escrevia e um quase desprezo a qualquer ostentação de brilhantismo ou erudição. De certo modo – principalmente como crítico literário – Zé Paulo escrevia para pessoas que, como ele, se relacionavam com a cultura de maneira não profissional, e que nem por isso mantinham com a produção artística um vínculo superficial. Quando fecho os olhos e busco uma imagem definidora das realizações de Zé Paulo, vem à mente o infalível “tradução, introdução e notas de José Paulo Paes”, que acompanhava seus notáveis trabalhos de tradutor.

A preocupação do escritor com o público certamente tem relação com as posições políticas de José Paulo Paes. Foi nos tempos de Curitiba – quando se tornou amigo de Dalton Trevisan e de outros literatos da cidade, também importantes em sua formação – que ele se aproximou do Partido Comunista. As concepções estreitas do PC brasileiro, tanto em relação à arte quanto à própria sociedade – sem falar da irrestrita defesa dos descaminhos da União Soviética –, logo o afastaram de seus círculos. Mas por toda a vida Zé Paulo continuou a se considerar um homem de esquerda, e a visão ácida que expressava em boa parte de seus poemas não deixa lugar a dúvidas.

Ele costumava dizer, e não era uma boutade, que traduzia porque não sabia ler em outra língua. Quem nunca experimentou esse dilema não tem uma noção acabada do que seja crítica, tradução, análise ou interpretação – porque é sempre de traduções que se trata nessas atividades. Zé Paulo nunca aprendeu nenhuma língua de forma sistemática. Nenhuma. De algumas delas, como o holandês, se aproximou por meios prosaicos: aquelas coleções de discos que prometiam um acesso indolor a línguas de pouca circulação. E chegou a resultados formidáveis. Desconfio que ele queria provar que qualquer um, desde que movido por um encanto legítimo com uma manifestação cultural, poderia relacionar-se com ela de forma amorosa e rica.


Me vem à mente um personagem de A Náusea, de Sartre: o velho diletante que lia toda uma biblioteca por ordem alfabética. Péssimo contra-exemplo. Para gente da estirpe de Zé Paulo, o respeito à cultura (e à ordem alfabética) não tinha importância. O que valia era a capacidade de estar à altura das obras que amava. O grande pintor holandês radicado nos Estados Unidos Willem de Kooning, depois de muito acusado de plagiar seu colega Arshile Gorky, saiu-se com uma resposta irretorquível: “Claro, nunca ninguém gostou do Gorky quanto eu!” Para Zé Paulo, a tradução era o modo mais nobre de expressar seu fascínio por alguns autores.

Aqui vale uma nuance. Se Zé Paulo era um homem discreto, também era um grande lascivo, literariamente falando. Que o digam suas traduções de Aretino, sua antologia de poesia erótica e tantas outras devassidões. As palavras pertenciam a outros, mas era ele que as escolhia para traduzir. Sua tradução pioneira e deslumbrante de Kaváfis dá a medida precisa de seu caráter e vocação. Poucos poetas modernos souberam aproximar, como Kaváfis, de maneira tão inovadora, história e lirismo, Grécia clássica e modernidade, desejo e moral. E isso também era Zé Paulo, quase como um heterônimo. O poeta que, em “Ímenos”, chega a essa tensão:

Cumpre amar inda mais e sobretudo
a volúpia malsã que só com dano se
consegue
e que raro encontra o corpo capaz de
a sentir como ela pede –
que, malsã e danosa, propicia
uma tensão erótica que a sanidade
ignora...

– Esse mesmo poeta fazia o elogio de uma moral trágica, de quem precisa realizar uma tarefa justa custe o que custar, como em “Termópilas”:

E de mais honra serão merecedores
se previram (como tantos o fizeram)
que Efialte [o traidor] finalmente há
de surgir,
e que os medas finalmente passarão.

Conheço pouca coisa mais parecida com o destino dos homens justos na sociedade contemporânea. Como Kaváfis, Zé Paulo jamais fez de sua correção moral um moralismo, consciente de que, por mais que elejamos o justo caminho, “quando chega a noite com suas promessas” passam a vigorar outros critérios. E isso também é das pessoas comuns.

Algo de seu estoicismo, porque havia essa dimensão nele, lhe foi imposto pela aterosclerose. O grave problema circulatório o fez abandonar o cigarro (com o qual ainda sonhava mais de dez anos depois de largar o vício), boa parte das bebidas alcoólicas (restou-lhe o vinho branco, tomado moderadamente), quaisquer extravagâncias alimentares, deslocamentos mais arriscados e esforços físicos.

Dora deu-lhe uma sobrevida sem a qual seu período de alforria não teria existido. Ela não era apenas a companheira que, por dever de ofício, conhecia profundamente o corpo humano, e por amar Zé Paulo o obrigava a exercícios, dietas e a manter distância dos vícios. Dora começou a fazer dança para vencer uma paralisia infantil e, nos anos 50, foi uma das bailarinas mais avançadas de São Paulo. Ela ainda dá aulas de ginástica e, mesmo assim, até hoje fuma como um turco. Como ninguém, ela intuía o projeto difuso que movia o marido e, por admirar essa intenção tateante, apoiava-o integralmente. Mesmo porque, nas suas atividades – muitas, tocantes e que ficam para uma próxima história –, Dora realizava um movimento semelhante ao do Zé Paulo: o do anonimato compassivo que acredita na permanência de um núcleo de justiça em meio à sociedade do lucro, e que se compraz com o sentimento de justiça realizada, ainda que em escala modesta. Sem ela, Zé Paulo não teria alcançado a serenidade para trabalhar:

Como submeter
O desejo ao fado,
Se todo o prazer
Ri da cautela,
Ri do cuidado
Que o quer prender?
Vou despreocupado,
Dora, tão despreocupado,
Que nem sei morrer.

Com o agravamento da doença, esse homem discreto e ponderado teve um de seus raros momentos de excesso, ainda que involuntário e particular. A circulação prejudicada levou à gangrena de uma das pernas. As toxinas geradas pela necrose se espalharam pelo organismo e provocaram surtos de delírio tão fortes que ele mal sabia distingui-los da realidade. Com a amputação, Zé Paulo voltou a sua vida de sempre. Da doença ficou um poema notável, “À minha perna esquerda”:

Longe
do corpo
terás
doravante
de caminhar sozinha
até o dia do Juízo.
Não há pressa
nem o que temer:
haveremos
de oportunamente
te alcançar.

Na pior das hipóteses
se chegares
antes de nós
diante do Juiz
coragem:
não tens culpa
(lembra-te)
de nada.

Os maus passos
quem os deu na vida
foi a arrogância
da cabeça
a afoiteza
das glândulas
a incurável cegueira
do coração.
Os tropeços
deu-os a alma
ignorante dos buracos
da estrada
das armadilhas
do mundo.

Quase toda a produção poética de José Paulo anterior a este livro, Prosas Seguidas de Odes Mínimas, se caracterizava por epigramas extremamente econômicos e irônicos, de certa forma semelhantes a sua inserção no mundo. A partir daí, o poeta parece ter se dado o direito de abrir a porta a um narrador mais lírico, que no entanto jamais deixou de lado a ironia dos versos anteriores, como a própria perna esquerda demonstra.

Essa trajetória de vida complexa e descontínua ganharia uma versão postiça se fosse mostrada como um movimento sereno, de alguém que vislumbra, ao fim das mazelas, a paz que tanto almejara. Ao contrário (e apenas Dora testemunhou isso), foram décadas de angústia, porque aqueles dez anos de fim de cativeiro podiam não chegar. Mais: se ele se satisfizera com uma formação truncada, típica dos autodidatas, o tempo perdido na indústria farmacêutica ou na edição de livros roubava um tempo que, bem ou mal, ele sabia que poderia estar sendo empregado na sua formação.

Não há ilação mais difícil do que aquela que aproxima a biografia e a obra de um autor. Numa passagem comovente, falando de Cézanne, Merleau-Ponty diz que o melhor de um artista deve ser buscado na sua obra. É nela que as incapacidades pessoais de alguma forma se redimem, em que os nossos limites fazem vislumbrar algo maior do que se conseguiu ser, e por isso as obras precisam ganhar a luz do dia. Neuróticos renitentes deixaram trabalhos admiráveis. Cézanne, por exemplo. São os pecadores que entendem de salvação. Não os carolas.

Com freqüência – e quem não viveu essa ilusão deixou de entender a si próprio – tendemos a aproximar, até por generosidade, a grandeza de uma obra ao caráter, igualmente nobre, de seu autor. Do mesmo modo, quem não passou por essa desilusão, por essa discrepância tão corrente, deixou de experimentar uma das dissonâncias mais reveladoras da alma humana. No Zé Paulo, essa angústia conduziu a uma posição tocante: em quase tudo que fez nota-se a preocupação em dialogar com aqueles que, como ele, lidam com a arte e a cultura amorosamente e, mesmo, com ingenuidade. Todo seu extenso trabalho de crítico literário e tradutor tem uma preocupação formadora.

Não que ele, nos anos de liberdade, não ousasse: no Folhetim da Folha de S.Paulo, no qual muito colaborou nos anos 80, chegava a sugerir, com idéias brilhantes, temas que unificavam toda uma edição do suplemento. Certa vez, propôs que se realizasse um número sobre Frankenstein (a princípio um tema pouco instigante), mas que na sua sugestão aparecia como o primeiro, e talvez único, mito moderno: a figura que sintetizava inauguralmente o medo do homem moderno diante da revolução tecnológica e das possíveis monstruosidades que ela poderia criar. Massa! Também aceitava correr riscos – ele, já um senhor respeitável –, como quando teve um papel central num número falso do suplemento, no qual escreveu um artigo inesquecível sobre o artista inexistente que se tornou verdadeiro pelas demandas românticas: Ossian, o bardo gaélico. Todos os outros ensaios supostamente falavam de artistas verdadeiros que o tempo apagara, por não corresponderem a expectativas contemporâneas. Foram vários os intelectuais de prestígio que se recusaram a participar dessa “molecagem”. Não o Zé.

Mais para o final da vida, a preocupação formadora se orientou para poesias infanto-juvenis, sempre acompanhadas de ilustrações que eram discutidas carinhosamente com seus autores. O sucesso desses livros superou tudo que tinha publicado antes. Em parte, pela grande demanda por esse tipo de livro. Em parte, pela alta qualidade. No que interessa, mais uma vez ficava claro que seu negócio era formar. Muitas vezes discutiu com amigos sua tese de que a literatura de entretenimento era um degrau para a alta literatura. Ele acreditava nisso, ainda que nunca tenha se metido por essas veredas.

“Não dá para escrever de fraque, mas também não tem cabimento escrever de pijama” – essa frase que repetia com alguma constância talvez resuma bem o espírito de sua atuação como escritor. Nos anos de alforria conquistou, por mérito de seus escritos, espaço na imprensa, mas nunca adulou quem quer que fosse. Ao contrário, tinha um zelo profissionalíssimo com seus textos. Quando lhe enviavam um recibo em que se dizia que o periódico passava a ser proprietário do trabalho, jamais assinava. Sempre batalhou para ter uma porcentagem nos textos que traduzia – ou seja, não os vendia. E tratava com aspereza quem lhe supusesse um velhinho senil necessitado de exposição na mídia.

Não tratava a universidade com desdém – alguns de seus grandes amigos estavam lá, como Alfredo Bosi e Massaud Moisés, entre outros –, chegou a dar cursos na USP e na Unicamp, e não se deixava levar pelas glórias passageiras que a presença em jornais e revistas lhe concedia. Tratava os mais jovens que o freqüentavam com uma franqueza terna, procurava amenizar neles as angústias por que ele mesmo passara, e nunca os iludia com a possibilidade de sucessos e reconhecimentos futuros. Sua companhia era um pouco a garantia de que a simplicidade e a modéstia faziam sentido, e que a sede de nomeada podia ser a pior forma de servidão. À sua maneira, afirmou um modo sui generis de trabalhar com arte e cultura poucas vezes feito no Brasil. E isso, convenhamos, anima mais que muita retórica edificante.

José Paulo Paes morreu há dez anos e detestaria ser lembrado por um número par. Justamente ele que até nas pernas contentou-se com um número ímpar.

junho 08, 2008

atualidades

gabriela entrevista tiago a.

Gabriela diz:
começando pelo cqc

Tiago diz:
ninguém vai lembrar do cqc daqui a cinco anos. mas vc é quem manda

Gabriela diz:
eu explico entao o q é cqc?

Tiago diz:
boa!

Gabriela diz:
cqc, versão nacional de um programa de sucesso na espanha, que combinar jornalismo e humor, apresentado por marcelo taz na band. como vc avalia a tentativa do cqc? me diga uma coisa, vc o assiste com muita benevolencia? cobrando menos de humor inteligente do q se estivesse assistindo um bom programa de humor dos eua? seja sincero

Tiago diz:
vou partir do pressuposto de que você não está sendo irônica ao fazer essa pergunta apesar de todos os indícios indicarem o contrário. assisto cqc, sim. acho que eles são involuntariamente engraçados. tipo: quando a produtora deles reclamou da comparação com o pânico na folha de são paulo.

Gabriela diz:
hum

Tiago diz:
ela disse que não era pra fazerem essa comparação. que o cqc tava mais pra michael moore. eu chorei, nessa hora. foi a melhor piada de todas. o rapaz que faz o repórter inexperiente, cujo nome obviamente desconheço, é o melhor de todos eles. digamos que mesmo quando eu não assisto o cqc, deixo a tv ligada pra incentivar. mas o que me impressiona de verdade é como eles conseguem ficar tanto tempo sem parar para os comerciais; parece futebol.

Gabriela diz:
eu realmente nao estava sendo ironica, porque assim, tv aberta é tao ruim, q qq coisinha razoável vai se destacar. mas e o obama, vc é "go, obama", indiferente, acha q ele é um collor dos eua ou está muito temeroso do seu poder hipnótico? ou nda?

Tiago diz:
eu não consigo deixar de me espantar com o fato de que pessoas que não podem fazer nada a respeito realmente acompanhem a eleição do candidato à eleição dos estados unidos. eu fico besta com essas coisas. eu só vou me interessar por essa parte do jornal quando anunciarem o vencedor final, e mesmo assim só pra não ficar totalmente por fora. porque vai que eu participo de um programa de perguntas e respostas valendo UM MILHÃO DE REAIS e eles me perguntam quem é o presidente dos states, né

Gabriela diz:
hum, mas vc viu a capa da esquire latina deste mes, com o obama e uma frase da sua musa scarlett johansson: "mi corazon pertence a obama" ?

Tiago diz:
scarlett tem opiniões políticas equivocadas. é isso que a torna ainda mais charmosa. dá vontade de pegar no colo e dizer, minha filha, veja bem

Gabriela diz:
e a reforma ortografica, te interessa? nós, q aprendemos a usar o trema seremos igualados aos que nunca aprenderam e q agora nao precisarao mais aprender. o q vc acha disso? é niuma?

Tiago diz:
você não acha curioso que essa pergunta do trema venha sem vários acentos?

Gabriela diz:
ahn...

Tiago diz:
não precisa responder. foi uma pergunta retórica. acho que a resposta está contida aí, na sua pergunta. só quem vai precisar se preocupar com isso é vestibulando e revisor. as pessoas normais vão continuar à margem da reforma ortografica.

Gabriela diz:
hum

Tiago diz:
não vai demorar pra surgirem posts engraçadinhos: reforma ortrogafica como fas/
alguma coisa me diz que a posteridade não vai se interessar por essa nossa entrevista.

Gabriela diz:
e p q se interessaria, né. a nao ser q façamos alguma coisa

Tiago diz:
vc tem seu livro, né

Gabriela diz:
hahaha

Tiago diz:
e meu sonho sempre foi conseguir ser engraçado e charmoso numa entrevista. não estou conseguindo nem uma coisa nem outra. estou envergonhando minha futura prole, receio.

Gabriela diz:
vc pode fazer como o jp coutinho. sua propria entrevista. um FAQ. kkkk aquilo foi horrivel, embora tenha sido interessante

Tiago diz:
eu nem vi. me senti superior, agora

Gabriela diz:
rapaz, http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/joaopereiracoutinho/ult2707u360687.shtml

Tiago diz:
[entrevistadora adormece no meio da entr-] usei sua técnica da leitura em 30s. me pareceu o de sempre. auto-entrevista=inepta tentativa desesperada de parecer cool. acomete geralmente quem não pensou em nada melhor para preencher o espaço a que tem direito

Gabriela diz:
hahaha

Tiago diz:
muito comum em blogueiros e cronistas

Gabriela diz:
né?
a entrevistadora precisa lavar a louça, gato

Tiago diz:
beleza, gabis, foi divertido

Gabriela diz:
depois retomamos, beijão

junho 06, 2008

Olhaí, David. Tava demorando:

Blogueiros americanos=personagens de Dickens.

In Web World of 24/7 Stress, Writers Blog Till They Drop

By MATT RICHTEL
Published: April 6, 2008

SAN FRANCISCO — They work long hours, often to exhaustion. Many are paid by the piece — not garments, but blog posts. This is the digital-era sweatshop. You may know it by a different name: home.

A growing work force of home-office laborers and entrepreneurs, armed with computers and smartphones and wired to the hilt, are toiling under great physical and emotional stress created by the around-the-clock Internet economy that demands a constant stream of news and comment.

Of course, the bloggers can work elsewhere, and they profess a love of the nonstop action and perhaps the chance to create a global media outlet without a major up-front investment. At the same time, some are starting to wonder if something has gone very wrong. In the last few months, two among their ranks have died suddenly.

Two weeks ago in North Lauderdale, Fla., funeral services were held for Russell Shaw, a prolific blogger on technology subjects who died at 60 of a heart attack. In December, another tech blogger, Marc Orchant, died at 50 of a massive coronary. A third, Om Malik, 41, survived a heart attack in December.

Other bloggers complain of weight loss or gain, sleep disorders, exhaustion and other maladies born of the nonstop strain of producing for a news and information cycle that is as always-on as the Internet.

To be sure, there is no official diagnosis of death by blogging, and the premature demise of two people obviously does not qualify as an epidemic. There is also no certainty that the stress of the work contributed to their deaths. But friends and family of the deceased, and fellow information workers, say those deaths have them thinking about the dangers of their work style.

The pressure even gets to those who work for themselves — and are being well-compensated for it.

“I haven’t died yet,” said Michael Arrington, the founder and co-editor of TechCrunch, a popular technology blog. The site has brought in millions in advertising revenue, but there has been a hefty cost. Mr. Arrington says he has gained 30 pounds in the last three years, developed a severe sleeping disorder and turned his home into an office for him and four employees. “At some point, I’ll have a nervous breakdown and be admitted to the hospital, or something else will happen.”

“This is not sustainable,” he said.

It is unclear how many people blog for pay, but there are surely several thousand and maybe even tens of thousands.

The emergence of this class of information worker has paralleled the development of the online economy. Publishing has expanded to the Internet, and advertising has followed.

Even at established companies, the Internet has changed the nature of work, allowing people to set up virtual offices and work from anywhere at any time. That flexibility has a downside, in that workers are always a click away from the burdens of the office. For obsessive information workers, that can mean never leaving the house.

Blogging has been lucrative for some, but those on the lower rungs of the business can earn as little as $10 a post, and in some cases are paid on a sliding bonus scale that rewards success with a demand for even more work.

There are growing legions of online chroniclers, reporting on and reflecting about sports, politics, business, celebrities and every other conceivable niche. Some write for fun, but thousands write for Web publishers — as employees or as contractors — or have started their own online media outlets with profit in mind.

One of the most competitive categories is blogs about technology developments and news. They are in a vicious 24-hour competition to break company news, reveal new products and expose corporate gaffes.

To the victor go the ego points, and, potentially, the advertising. Bloggers for such sites are often paid for each post, though some are paid based on how many people read their material. They build that audience through scoops or volume or both.

Some sites, like those owned by Gawker Media, give bloggers retainers and then bonuses for hitting benchmarks, like if the pages they write are viewed 100,000 times a month. Then the goal is raised, like a sales commission: write more, earn more.

Bloggers at some of the bigger sites say most writers earn about $30,000 a year starting out, and some can make as much as $70,000. A tireless few bloggers reach six figures, and some entrepreneurs in the field have built mini-empires on the Web that are generating hundreds of thousands of dollars a month. Others who are trying to turn blogging into a career say they can end up with just $1,000 a month.

Speed can be of the essence. If a blogger is beaten by a millisecond, someone else’s post on the subject will bring in the audience, the links and the bigger share of the ad revenue.

“There’s no time ever — including when you’re sleeping — when you’re not worried about missing a story,” Mr. Arrington said.

“Wouldn’t it be great if we said no blogger or journalist could write a story between 8 p.m. Pacific time and dawn? Then we could all take a break,” he added. “But that’s never going to happen.”

All that competition puts a premium on staying awake. Matt Buchanan, 22, is the right man for the job. He works for clicks for Gizmodo, a popular Gawker Media site that publishes news about gadgets. Mr. Buchanan lives in a small apartment in Brooklyn, where his bedroom doubles as his office.

He says he sleeps about five hours a night and often does not have time to eat proper meals. But he does stay fueled — by regularly consuming a protein supplement mixed into coffee.

But make no mistake: Mr. Buchanan, a recent graduate of New York University, loves his job. He said he gets paid to write (he will not say how much) while interacting with readers in a global conversation about the latest and greatest products.

“The fact I have a few thousand people a day reading what I write — that’s kind of cool,” he said. And, yes, it is exhausting. Sometimes, he said, “I just want to lie down.”

Sometimes he does rest, inadvertently, falling asleep at the computer.

“If I don’t hear from him, I’ll think: Matt’s passed out again,” said Brian Lam, the editor of Gizmodo. “It’s happened four or five times.”

Mr. Lam, who as a manager has a substantially larger income, works even harder. He is known to pull all-nighters at his own home office in San Francisco — hours spent trying to keep his site organized and competitive. He said he was well equipped for the torture; he used to be a Thai-style boxer.

“I’ve got a background getting punched in the face,” he said. “That’s why I’m good at this job.”

Mr. Lam said he has worried his blogging staff might be burning out, and he urges them to take breaks, even vacations. But he said they face tremendous pressure — external, internal and financial. He said the evolution of the “pay-per-click” economy has put the emphasis on reader traffic and financial return, not journalism.

In the case of Mr. Shaw, it is not clear what role stress played in his death. Ellen Green, who had been dating him for 13 months, said the pressure, though self-imposed, was severe. She said she and Mr. Shaw had been talking a lot about how he could create a healthier lifestyle, particularly after the death of his friend, Mr. Orchant.

“The blogger community is looking at this and saying: ‘Oh no, it happened so fast to two really vital people in the field,’ ” she said. They are wondering, “What does that have to do with me?”

For his part, Mr. Shaw did not die at his desk. He died in a hotel in San Jose, Calif., where he had flown to cover a technology conference. He had written a last e-mail dispatch to his editor at ZDNet: “Have come down with something. Resting now posts to resume later today or tomorrow.”

junho 02, 2008

Tomaqui um conto inédito de Volodya, publicado pela primeira vez por volta de 1924, на русском. Nosso herói tinha uns 24, 25 anos.

Mas não inveje. Trabalhe.