a barata
O cursor já tinha piscado 42 vezes―sim, eu estava contando―quando ela apareceu no meu campo de visão, cruzando o trecho da mesa onde fica o monitor, certamente atraída pelos pedaços de bolacha cream cracker que eventualmente caem de minha boca enquanto desperdiço juventude no youtube. Mas também é possível que ela, a barata, não estivesse interessada nos pedaços de cream cracker depositados nos desvãos do teclado; talvez ela estivesse dando só uma voltinha, desbravando território. Meu primeiro impulso foi querer matá-la. Mas me contive; tentei me pôr em seu lugar. "Se eu fosse uma barata, eu ia ter a manha de invadir o território de meu maior nemesis, assim, como ela está fazendo agora?", pensei. Não. Provavelmente não. Se bem me conheço, eu ia dar um jeito de viver da forma que me parecesse a mais segura possível (i. e., medrosamente), na penumbra, sem arriscar, comendo restos de bolacha cream cracker, fugindo da luz, limitado à minha condição de barata, sem ousar, desdenhando das baratas aventureiras, mais corajosas que eu, e invejando-as ao mesmo tempo, simplesmente porque elas estariam sendo tudo o que eu nunca seria; eu, a barata que quer morrer de velhice. Mexendo as anteninhas, ela disse, antes de ir-se embora, "Você pode até não ter medo de mim, mas eu sou mais corajosa que você. Agora vai, escreve."
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Genial, caro. Genial.
Posted by: c. ward | março 28, 2008 07:24 PM