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março 28, 2008

Estátua!

uma tradução da tradução do que já foi um conto de Etgar Keret e que agora já pode muito bem ser uma coisa completamente telefone sem fio, vai saber

De repente, dava pra fazer. Eu dizia “Estátua!” e todo mundo congelava, bem assim, no meio da rua. Carro, bicicleta, até aquelas motinhas de entregador de encomenda, parava tudo. E eu ia andando e passando por eles até achar as mulheres mais lindas. Falava pra elas largarem as sacolas de compras ou tirava elas de um ônibus, levava lá pra casa e metia até os bagos. Era massa—era muito, muito massa. “Estátua!” “Venha cá!” “Deita na cama!” E depois disso, créu. As mulheres que eu pegava eram inacreditáveis, material pra pôster de borracharia. Eu me sentia ótimo. Me sentia um rei. Até minha mãe se meter.

Ela me disse que de um certo modo condenava aquilo. Falei pra ela que não tinha nada pra ser condenado. Falo pras mulheres virem e elas vêm. Não é como se eu tivesse estuprando elas ou algo assim. “Deus é mais”—disse minha mãe. “É só que tem algo de muito impessoal nisso. Sem emoção. Não sei como explicar direito, mas tenho essa impressão de que você não se conecta de verdade com elas.” Aí eu falei pra minha mãe que ela podia guardar pra ela as impressões dela. Ela falou uma coisa e eu falei uma coisa e ela falou uma outra coisa de volta e eu disse “Estátua!” e deixei ela lá no meio da Reiness Street debaixo de um toró. A partir daí, nunca mais foi a mesma coisa. De uma hora pra outra, isso que ela falou começou a me incomodar, essa coisa de eu não me conectar. Continuei comendo as mulheres, mas agora eu não me sentia conectado. Arruinou tudo. No começo achei que eram os barulhos. Então eu falava: “Faça barulho.” E as mulheres faziam todo tipo de barulho: Mickey Mouse, britadeira, imitação de político. Era um pesadelo. Eu tinha que mostrar as palavras exatas que eu queria que elas falassem. “Aaaah, aaaah” “Ai que gostoso” “Mais forte”. Esse tipo de coisa. E elas repetiam isso enquanto a gente tava transando, mas sempre com minha entonação. “Ai, ai, não pára, por favor. Tô gozando”—elas falavam, deitadas lá com olho de peixe morto. Dava pra ver que elas tavam mentindo e isso me deixava tão possesso que dava vontade de estrangular elas. “Se não tá sentindo de verdade”—gritei umas vezes—“não diga”—só que eu inda não conseguia ficar de pau duro. Era deprimente—era muito, muito deprimente.

Levei um tempo até perceber o que é que tava fudendo a porra toda. O problema era que eu tava insistindo em ser muito específico. Aí num dado momento, eu percebi isso e então comecei a dar instruções mais genéricas pra elas tipo: “Aja como se estivesse gostando de verdade”, e quando a sensação de que elas tavam fingindo começava a me irritar, eu simplesmente dizia: “Goste.” Era sensacional—era muito, muito sensacional. Elas gritavam. Enfiavam a unha em minhas costas. Diziam: “Você é o melhor de todos.” Dá pra sacar o que eu tô descrevendo? Modelos, aeromoças, aquelas mulheres da previsão do tempo—na minha cama. Dizendo que eu era o melhor de todos.

Só que aí, saber que elas tavam lá só porque eu tinha mandado começou a me encher. Essa sensação—esse insight—me veio de uma hora pra outra. Eu tava descendo a Reiness Street, na altura do cruzamento com a Gordon, e lá estava minha mãe, em pé ainda, bem onde eu tinha deixado ela, com uma cara de arrependida, quando de repente eu saquei: Essa não era a parada de verdade. Nunca ia ser. Porque nem uma dessas mulheres gostava de mim de verdade. Nem uma delas gostava de mim pelo que eu realmente sou. E se elas não tavam comigo pelo que eu era, então qual era mesmo a razão daquilo tudo? Daquele momento em diante, decidi parar e começar a chegar nas mulheres do jeito normal. Foi uma merda. Uma tremenda bosta. Mulheres que eu comia em pé na rua, encostando elas numa caixa de correio, nem o telefone me davam mais. Diziam que eu tinha mau hálito, ou que eu não era o tipo delas, ou que elas tinham namorado, ou outra coisa qualquer. Era bizarro—era muito, muito bizarro. Mas eu queria tanto uma relação genuína que apesar da tentação de voltar a fuder do jeito que eu tava acostumado ser enorme, eu não sucumbi.

Três meses de verdadeiro inferno depois, vi aquela gata maravilhosa do comercial da cerveja descendo a Ibn Gvirol Street. Tentei engatar um papo. Daí tentei fazer ela rir. Depois a gente passou por uma florista, e aí eu tentei flores—mas ela nem olhava pra mim. Quando a gente chegou na Rabin Square, tinha um Mazda esperando ela com um modelo no volante, aquele do comercial da batata. Ela tava pra entrar no carro dele e ir embora. Eu não sabia o que fazer e sem nem perceber o que tava fazendo, gritei: “Estátua!” Ela parou. Todo mundo parou. Vi toda aquela gente parada lá, bem assim. Olhei pra ela, e ela tava tão bonita quanto na propaganda. Eu não sabia o que fazer. Por um lado, eu não podia, não podia mesmo deixar ela ir embora. Por outro, se era pra ela ficar comigo, queria que fosse pelo que eu era—por causa do que eu sou por dentro, não porque eu tinha mandado. E foi aí que saquei tudo. A solução me veio do nada. Tipo uma epifania. Peguei a mão dela, olhei bem nos olhos e disse: “Me ame pelo que eu sou, pelo que eu sou de verdade.” Aí trouxe ela pra minha casa e comi ela que nem um insano. Ela gritava e enfiava a unha em minhas costas e dizia: “Me come, vai, me come.” E ela me adorava. Sem brincadeira: essa é que era a parada de verdade. Ela me amava pelo que eu sou.

março 27, 2008

OMG

(Traduzindo: AMD). Do Trabalho Sujo vem a notícia de que:

É isso o que os caras do South Park estão fazendo agora com o site South Park Studios. [...] No site, é possível assistir cada um dos mais de 150 episódios com Kyle, Stan, Cartman e Kenny, que estão na íntegra e divididos em milhões de clipes (estes, diferentes dos episódios, podem ser "embedados" em outros sites à vontade). Em outras palavras: pra que procurar no YouTube quando se pode ir direto no catálogo principal?

Não tenho palavras. Enquanto vou ali vender minha TV, revejam aí embaixo o trecho mais escroto do episódio mais escroto. MAS ATENÇÃO: Se você nunca assistiu o episódio Scott Tenorman Must Die, não ponha o vídeo pra rodar. Em vez disso, clique aqui. Obrigado.

março 23, 2008

da série "gente a quem tenho dedicado minha atenção nos últimos dias"

Ao lado de Amós Oz, Etgar Keret forma agora o duo Escritores Israelenses Cujas Coisas Já Li (sem contar a galera da Bíblia, claro). Li muito pouca coisa dele, mas já o suficiente pra vir aqui dizer que é bem bom. Talqualmente Amós, Etgar prefere escrever em hebraico, ou seja, tá difícil de ler no original. As traduções pro inglês começaram a sair em 2000 e alguma coisa; pro português, me disseram que a Casa da Palavra tá providenciando. Vamos então logo de uma vez às três ou quatro prejudicadas notas mentais que fiz durante a leitura ainda inacabada de The Bus Driver Who Wanted to Be God & Other Stories, que AMP, generoso, me emprestou.

Basta folhear o livro pra perceber o aspecto que mais chama atenção: Etgar, pelo menos neste livro, produz estórias bem curtas. A maioria cabe em três, quatro páginas―que parecem dezenas depois que você lê. É como se os contos tivessem sido tipo zipados pra causar um efeito ainda mais poderoso. Lendo, vê-se o traço fantástico da coisa: as estórias não se limitam às, digamos, fronteiras do real, mas sempre mantêm contato com ele e nunca deixam de ser verossímeis. Eu diria que lembra Kaf― dããã, tudo lembra Kafka, esquece, risca.

Também quero crer que não foram os tradutores os responsáveis pelo uso responsável e não-chato de gírias que dá aos contos o agradável tom coloquial que eles têm―infelizmente, porque não leio em hebraico, não posso estar cem por cento certo disso, mas estou tipo noventa e nove. O crédito deve ser mesmo todo de Etgar, já que ele também mexe com cinema, devendo então estar mais que acostumado a produzir aquele efeito Olha Só, Uma Pessoa Normal Falando.

Além disso, quê mais? Ah tá, notinha biográfica: fez 40 ano passado e escreveu a maioria desses contos que eu li quando tava na casa dos vinte.

Site oficial, onde dá pra ler algumas coisas. Entrevistinha.

Cotação
:D (vá de com força)

março 22, 2008

a barata

O cursor já tinha piscado 42 vezes―sim, eu estava contando―quando ela apareceu no meu campo de visão, cruzando o trecho da mesa onde fica o monitor, certamente atraída pelos pedaços de bolacha cream cracker que eventualmente caem de minha boca enquanto desperdiço juventude no youtube. Mas também é possível que ela, a barata, não estivesse interessada nos pedaços de cream cracker depositados nos desvãos do teclado; talvez ela estivesse dando só uma voltinha, desbravando território. Meu primeiro impulso foi querer matá-la. Mas me contive; tentei me pôr em seu lugar. "Se eu fosse uma barata, eu ia ter a manha de invadir o território de meu maior nemesis, assim, como ela está fazendo agora?", pensei. Não. Provavelmente não. Se bem me conheço, eu ia dar um jeito de viver da forma que me parecesse a mais segura possível (i. e., medrosamente), na penumbra, sem arriscar, comendo restos de bolacha cream cracker, fugindo da luz, limitado à minha condição de barata, sem ousar, desdenhando das baratas aventureiras, mais corajosas que eu, e invejando-as ao mesmo tempo, simplesmente porque elas estariam sendo tudo o que eu nunca seria; eu, a barata que quer morrer de velhice. Mexendo as anteninhas, ela disse, antes de ir-se embora, "Você pode até não ter medo de mim, mas eu sou mais corajosa que você. Agora vai, escreve."

março 20, 2008

p/ todos os meus amigos, mas, principalmente, p/ igor soul barbosa

Pra ouvir de joelhos.

Atenção, você que não tem a mínima idéia do que aconteceu com os Wunderblogs: eles parecem ter algo a te dizer (canto superior esquerdo de sua tela).

Voltaram.

março 14, 2008

[...] when it comes to choosing a life path, you should do what you love — because if you don't love it, you are unlikely to work hard enough to get very good. Most people naturally don't like to do things they aren't "good" at. So they often give up, telling themselves they simply don't possess the talent for math or skiing or the violin. But what they really lack is the desire to be good and to undertake the deliberate practice that would make them better. [+, via]

março 11, 2008

vitor araújo

Trecho do DVD que vai ser lançado em breve:


Contras: é poser & kinda wannabe Brad Mehldau.
Prós: é pernambucano (convenhamos: ser pernambucano é o maior pró que pode haver) e tem só 18 anos (então, tipo, há esperança).

Cotação
:>/ (tente)

março 09, 2008

filmes, trilhas, etc. e tal

Dos dois últimos filmes que fui ver no cinema―There Will Be Blood e Paranoid Park―, tenho a dizer que o aspecto de ambos que mais me impressionou foi a trilha sonora. Por esses dias também assisti No Country For Old Men, mas nesse o que mais embasbaca é justamente a ausência quase absoluta de música.

A trilha de TWBB é da lavra daquele guitarrista dentuço do Radiohead, que caso não tivesse se tornado no que é hoje, teria virado maestro ou coisa do tipo, dizem. (Pra ler mais a respeito, clique no ponto pelo qual você acaba de passar, porque esse post é só tipo um levanta cabeça). Já a trilha de PP é basicamente uma coletânea de música boa em que predominam Nino Rota e Elliot Smith. Muita coisa importante pode ser dita sobre a relação destas trilhas sonoras com seus respectivos filmes, mas infelizmente não vou ser eu quem vai dizer.

De todo jeito, alguns palpites. Pra mim já ficou impossível tentar dissociar TWBB de sua trilha sonora―nunca conseguirei, porque não paro de pensar no peso que ela adiciona àquelas imagens, no modo como ela vai pontuando a narrativa* sem jamais ser excessiva. E uau o que é melhor: continua funcionando sem o filme. Eu não entendo muito dessas coisas, mas se eu pudesse dar dois tostões no assunto, eu diria que se trata de grande exemplo de uma obra sendo evidentemente feita para servir de suporte a uma outra enquanto mantém sua autonomia com relação a esta última, e isso não só porque a primeira foi feita disso que vocês chamam de música instrumental. (Sério: eu realmente recomendo que você clique no link do pontinho, baixe o disco nalgum site de torrent e ouça, para depois, como eu, passar cinco dias de sua vida correndo, nu e em prantos, pelas ruas de sua cidade).

Em PP a música também tem um papel importante, mas, diferentemente de TWBB, acho que o efeito só é completo com as imagens; tanto que não vou lhe dizer que vale a pena se dar o trabalho de ir baixar a trilha sonora. O que não significa dizer que é ruim. Não, não. É bom. Mas é que só fica grande com o filme. Em algumas cenas, por exemplo, me vinha a impressão de que tinham aberto um parêntese prum clip bonito―o filme é mesmo muito bonito. (E a propósito, se alguém lembrar qual é a música que toca durante aquela cena dos skatistas dando aéreos sucessivos, faz favor me dizer! Eu não consigo lembrar. Esse vídeo me fez lembrar; nunca vou conseguir dizer o quanto adoro a coisa de a gente ter certeza de que o último cara se acabou completamente mesmo sem ver a queda dele!). Sobre o filme em si, acho que Gus Van Sant aprendeu um jeito único de filmar a gurizada, com aquele olhar não-destacado, sa' como é?, que absolutamente não vem de cima, que parece não vir de um adulto, mas de um deles. Feito Salinger. Deus do céu, como é que ele arrancou aquelas atuações daqueles pivetes?

Resumo do post é o seguinte: se não quiser assistir TWBB, beleza, país livre, baixe só a trilha, que já garante a piração. Mas vá assistir PP no cinema, se ainda estiver passando.

* Esbocei a teoria de que No Country For Old Men não tem trilha sonora porque Cormac McCarthy não aprecia pontuação excessiva, a ausência absoluta de música que pontue a narrativa sendo parte componente do modo obsessivo com que os Coen tentaram ser fiéis ao livro (considerações acerca do final de Anton Chigurh à parte). Disseram que eu estava ficando louco, vendo coisa onde não tem. Ficaria feliz se alguém resolvesse defender isso a sério.

do que não consigo parar de ler

Ficar parado nos show é uma dessas parada que branco gosta:

So when white people go to concerts at smaller venues, what to do they do? They stand still! This is an important part of white concert going as it enables you to focus on the music, and it will prevent drawing excess attention to you. Remember, at a concert everyone is watching you just waiting for you to try to start dancing. Then they will make fun of you.

The result is Belle and Sebastian concerts that essentially looks more like a disorganized line of people than a music event. (+)

Responsável pelo completo esfarelamento do meu ser: Rafael.

Semana passada, meu computador (sentimental que é) resolveu dar defeito pra chamar minha atenção. Isso é parte da razão preu inda não ter anunciado os reforços do apostos.com pra temporada 2008. O time (agora é rumo a Tóquio!) passou a contar com os reforços de Antonio Fernando Borges e o blog named after him, Janaína Leite e seu Arrastão, Godoy e seu 8 bits e meio e Fudílson Noronha, mantenedor do Filthy McNasty. Mas ah—aposto que vocês já sabiam.

março 08, 2008

hegemonia canhota

Bem que A Torre de Marfim avisou: tá tudo dominado. Tanto é assim que minha Sorte de hoje lá no orkut é "A sociedade prepara o crime, o criminoso o comete".

É, amigos: é a Cyberesquerda Penal.

março 06, 2008

sobre um prefácio

Um certo professor, velho, que era lá da faculdade, cujo nome vou preferir não revelar (porque não vem ao caso e porque a maioria não ia mesmo saber quem é), disse, num prefácio a um livro de um outro professor, jovem, que também é lá da faculdade, cujo nome etc., o seguinte:

Apenas diria a ——, com o carinho de quem o estima e admira de modo especial, que saiba casar os arroubos da impetuosidade dos moços com certa dose de ceticismo dos mais vividos. Livre-se do perigo da ansiedade intelectual, que às vezes prejudica os jovens. Precisamente eles que têm tanto tempo, comportam-se, em certas circunstâncias, como se já não tivessem tempo nenhum. O saber é como o amor. Só vale a pena quando saboreado até à exaustão. A pressa no pensar e no dizer o que se pensa causa tanto mal-estar quanto o alimento que se leva ao estômago sem o cuidado de mastigá-lo e salivá-lo. Não é o quanto se deglute que nutre, mas o quanto do deglutido se assimila. O candidato tem toda uma vida pela frente. Use-a para ir ao âmago do saber, sem pressa, com requintes de sensualidade intelectual, tão capaz de nos levar ao êxtase quanto o é a fusão dos corpos na busca da unidade perdida.

Os grifos são meus. Se você achou cheesy, não sabe nada.

Reflita.