Estátua!
uma tradução da tradução do que já foi um conto de Etgar Keret e que agora já pode muito bem ser uma coisa completamente telefone sem fio, vai saber
De repente, dava pra fazer. Eu dizia “Estátua!” e todo mundo congelava, bem assim, no meio da rua. Carro, bicicleta, até aquelas motinhas de entregador de encomenda, parava tudo. E eu ia andando e passando por eles até achar as mulheres mais lindas. Falava pra elas largarem as sacolas de compras ou tirava elas de um ônibus, levava lá pra casa e metia até os bagos. Era massa—era muito, muito massa. “Estátua!” “Venha cá!” “Deita na cama!” E depois disso, créu. As mulheres que eu pegava eram inacreditáveis, material pra pôster de borracharia. Eu me sentia ótimo. Me sentia um rei. Até minha mãe se meter.
Ela me disse que de um certo modo condenava aquilo. Falei pra ela que não tinha nada pra ser condenado. Falo pras mulheres virem e elas vêm. Não é como se eu tivesse estuprando elas ou algo assim. “Deus é mais”—disse minha mãe. “É só que tem algo de muito impessoal nisso. Sem emoção. Não sei como explicar direito, mas tenho essa impressão de que você não se conecta de verdade com elas.” Aí eu falei pra minha mãe que ela podia guardar pra ela as impressões dela. Ela falou uma coisa e eu falei uma coisa e ela falou uma outra coisa de volta e eu disse “Estátua!” e deixei ela lá no meio da Reiness Street debaixo de um toró. A partir daí, nunca mais foi a mesma coisa. De uma hora pra outra, isso que ela falou começou a me incomodar, essa coisa de eu não me conectar. Continuei comendo as mulheres, mas agora eu não me sentia conectado. Arruinou tudo. No começo achei que eram os barulhos. Então eu falava: “Faça barulho.” E as mulheres faziam todo tipo de barulho: Mickey Mouse, britadeira, imitação de político. Era um pesadelo. Eu tinha que mostrar as palavras exatas que eu queria que elas falassem. “Aaaah, aaaah” “Ai que gostoso” “Mais forte”. Esse tipo de coisa. E elas repetiam isso enquanto a gente tava transando, mas sempre com minha entonação. “Ai, ai, não pára, por favor. Tô gozando”—elas falavam, deitadas lá com olho de peixe morto. Dava pra ver que elas tavam mentindo e isso me deixava tão possesso que dava vontade de estrangular elas. “Se não tá sentindo de verdade”—gritei umas vezes—“não diga”—só que eu inda não conseguia ficar de pau duro. Era deprimente—era muito, muito deprimente.
Levei um tempo até perceber o que é que tava fudendo a porra toda. O problema era que eu tava insistindo em ser muito específico. Aí num dado momento, eu percebi isso e então comecei a dar instruções mais genéricas pra elas tipo: “Aja como se estivesse gostando de verdade”, e quando a sensação de que elas tavam fingindo começava a me irritar, eu simplesmente dizia: “Goste.” Era sensacional—era muito, muito sensacional. Elas gritavam. Enfiavam a unha em minhas costas. Diziam: “Você é o melhor de todos.” Dá pra sacar o que eu tô descrevendo? Modelos, aeromoças, aquelas mulheres da previsão do tempo—na minha cama. Dizendo que eu era o melhor de todos.
Só que aí, saber que elas tavam lá só porque eu tinha mandado começou a me encher. Essa sensação—esse insight—me veio de uma hora pra outra. Eu tava descendo a Reiness Street, na altura do cruzamento com a Gordon, e lá estava minha mãe, em pé ainda, bem onde eu tinha deixado ela, com uma cara de arrependida, quando de repente eu saquei: Essa não era a parada de verdade. Nunca ia ser. Porque nem uma dessas mulheres gostava de mim de verdade. Nem uma delas gostava de mim pelo que eu realmente sou. E se elas não tavam comigo pelo que eu era, então qual era mesmo a razão daquilo tudo? Daquele momento em diante, decidi parar e começar a chegar nas mulheres do jeito normal. Foi uma merda. Uma tremenda bosta. Mulheres que eu comia em pé na rua, encostando elas numa caixa de correio, nem o telefone me davam mais. Diziam que eu tinha mau hálito, ou que eu não era o tipo delas, ou que elas tinham namorado, ou outra coisa qualquer. Era bizarro—era muito, muito bizarro. Mas eu queria tanto uma relação genuína que apesar da tentação de voltar a fuder do jeito que eu tava acostumado ser enorme, eu não sucumbi.
Três meses de verdadeiro inferno depois, vi aquela gata maravilhosa do comercial da cerveja descendo a Ibn Gvirol Street. Tentei engatar um papo. Daí tentei fazer ela rir. Depois a gente passou por uma florista, e aí eu tentei flores—mas ela nem olhava pra mim. Quando a gente chegou na Rabin Square, tinha um Mazda esperando ela com um modelo no volante, aquele do comercial da batata. Ela tava pra entrar no carro dele e ir embora. Eu não sabia o que fazer e sem nem perceber o que tava fazendo, gritei: “Estátua!” Ela parou. Todo mundo parou. Vi toda aquela gente parada lá, bem assim. Olhei pra ela, e ela tava tão bonita quanto na propaganda. Eu não sabia o que fazer. Por um lado, eu não podia, não podia mesmo deixar ela ir embora. Por outro, se era pra ela ficar comigo, queria que fosse pelo que eu era—por causa do que eu sou por dentro, não porque eu tinha mandado. E foi aí que saquei tudo. A solução me veio do nada. Tipo uma epifania. Peguei a mão dela, olhei bem nos olhos e disse: “Me ame pelo que eu sou, pelo que eu sou de verdade.” Aí trouxe ela pra minha casa e comi ela que nem um insano. Ela gritava e enfiava a unha em minhas costas e dizia: “Me come, vai, me come.” E ela me adorava. Sem brincadeira: essa é que era a parada de verdade. Ela me amava pelo que eu sou.