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fevereiro 26, 2008

amy

68,3% de mim também acha que writing about music is like dancing about architecture. Confesso que até houve época em que eu tentei ler essas revistas de música que todo mundo lia, mas desisti logo (e só voltei a folhear a já de novo finada Bizz por causa de alguns textos de GOIABA, Ruy). É preciso reconhecer, porém, que esse pessoal que escreve sobre música às vezes diz algo que preste. Sasha Frere-Jones, por exemplo, tá dizendo tudo o que precisa ser dito sobre Amy JunkieWinehouse lá no site daquela revista lá. O fato de tantos deslumbrados estarem saudando Amy W. como *O* advento não é senão a confirmação de que a galera tá sem perspectiva histórica mesmo. Sim, minha gente, é legal de ouvir, diverte, etc. e tal―mas é derivativo, meu povo, chu-pá-dê-ó-dó. E feito para consumo. Ou, como diz Sasha,

[...] what reads as musical innovation in 2008 is blue-ribbon revivalism, a high-production-value version of the songbook logic driving current Broadway musicals. The sounds of yesteryear! Sung by today’s young people! (Who, in this case, enjoy ketamine and margaritas.) Winehouse’s music is reassuring to those old enough to remember the original and novel to those too young to know. And her music refers to rappers while simultaneously avoiding actual rapping and sounding just like the music that rappers first sampled decades ago. So many demographics united through the magic of consumption!

Não, não acho que ser derivativo e feito para o consumo seja pecado. Mas que não se aplauda gênio onde não há um. Ou, melhor, que se aplauda o gênio onde efetivamente há um―no caso de Amy W., em sua produção. Pronto, falei.

nossa homenagem a Fidel

www.juventudrebelde.cu/cuba/2007-05-19/sexo-anal-otro-camino-al-placer

Queremos ver Cuba lançar.

(hahahahah é juventud rebelde ponto cu hahahahah!!!1)

fevereiro 25, 2008

oscar 2008

Juro que tinha pensado em prometer fazer tipo uma transmissão ao vivo da cerimônia do Oscar aqui no blog e em vez disso passar a noite toda registrando pensamentos aleatórios e comentários banais sobre outros assuntos tão irrelevantes quanto. De uma certa maneira, portanto, Jason Kottke me plagiou. Evidente que não assisti, mas fiquei sabendo pela internet que os Coen levaram tudo, então agora é que só vai dar Seu Cormac mesmo. Javier Bardem também ganhou estatueta por haver encarnado Satanás. A propósito, um desafio para Zé Wilker & cia.: participar da transmissão do Oscar sem mencionar as palavras "favorito", "Academia", "cerimônia", "tapete vermelho", "estatueta", "and the oscar goes to".

fevereiro 08, 2008

como enfim escrever uma resenha de The Brief Wondrous Life of Oscar Wao, de Junot Díaz

Comece falando um pouco de como você ficou feliz quando ganhou The Brief Wondrous Life of Oscar Wao, o presente de natal que você queria. Aliás, pensando bem, melhor não. Melhor não falar de você. Deixe essa mania de sempre estar ostensivamente presente nas coisas que você escreve. Desta vez tente falar só do livro.

Brief+Wondrous+Life.jpg

Mas antes fale um pouco do autor. Reconheça a probabilidade de as pessoas ainda não terem ouvido falar dele. Não precisa repetir as coisas que costumam ser ditas a respeito dele em todas as resenhas que você leu. Diga apenas que ele se chama Junot Díaz, nasceu na República Dominicana, foi para New Jersey aos seis anos de idade e demorou para falar inglês. Diga que ele tem menos de 40 anos. Registre que The Brief Wondrous Life of Oscar Wao é o segundo livro dele e que o primeiro—Drown, elogiadíssima coleção de contos—foi lançado no Brasil, pela Record, como Afogado. Saliente que há um intervalo de dez anos entre os dois livros. Tente valorizar esse fato e o que você acha que ele representa.

Fale que o livro nasceu de um conto homônimo publicado na New Yorker no natal de 2000; o que era apenas a estória de Oscar se tornou a estória de Oscar e de sua família. Aproveite para falar um pouco da estória. Não deixe de escrever que, “ao contar a saga de uma família de imigrantes dominicanos marcados por uma maldição (o fukú), o livro abraça um período de 50 anos (de 1944 a 1995) e consegue fazer isso sem soar pretensioso”. Apresente os personagens. Comece pelo personagem-título: Oscar de León, mais conhecido como Oscar Wao, um nerd preto e imenso de gordo (que quer ser tipo o Tolkien caribenho), um sujeito que faz uso do termo copacetic num diálogo, que pega absolutamente 0 (zero) mulher e cuja vida (diga ao seu eventual leitor que, se ele quiser ler um pequenino spoiler, terá que selecionar o trecho que aparece em branco a seguir) será brief & wondrous justamente por causa disso—um dos personagens mais cativantes de que você já teve notícia. Dê uma mostra do quão nerd ele é e revele que o livro premia os que dedicaram anos e anos de suas vidas a quadrinhos, Senhor dos Anéis, RPG e ficção científica. Mencione a quantidade de referências feitas a esses elementos que é simplesmente arremessada na cara do leitor, desacompanhada de maiores explicações. Faça questão de dizer que, apesar disso, o livro está longe de parecer esnobe; diga que, ao contrário, estas coisas têm um papel muito importante na narrativa. Prometa falar deste ponto mais adiante quando terminar de apresentar os personagens (descumpra a promessa). Fale da mãe de Oscar, Belícia Cabral, que não aparece muito no conto que deu origem ao romance, mas cuja estória, de tão poderosa, quase toma o livro de assalto. Fale da irmã dele, Lola, “tougher than adamantine”, e do ex-namorado dela, Yunior (talvez um alter-ego do próprio Junot Díaz)—o mesmo narrador dos contos de Drown, o dominicano arquetípico: machista e cafajeste. Não deixe de dizer que, apesar de narrada por Yunior, (i) esta é uma estória em que as mulheres são gigantes e que (ii) estas mulheres são gigantes porque são latinas. (Não explique “ii”).

Tome o gancho do fim do parágrafo anterior e fale um pouco de latinidade e da importância que isso tem no livro. Evite a tentação de fazer sociologia de botequim; diga apenas que a originalidade da voz de Junot Díaz deve muito ao fato de ele ser imigrante. Fale que The Brief Wondrous Life of Oscar Wao é narrado em spanglish, intercalando (inadvertidamente) expressões, frases inteiras em espanhol, sem itálico. Ilustre o que você acabou de dizer com este trecho que vem numa nota de rodapé que trata de uma determinada região da República Dominicana:1

32. Those of you who know the Island (or are familiar with Kinito Méndez’s oeuvre) know exactly the landscape I’m talking about. These are not the campos that your folks rattle on about. These are not the guanábana campos of our dreams. Outer Azua is one of the poorest areas in the DR; it is a wasteland, our own homegrown sertão, resembled the irradiated terrains from those end-of-the-world scenarios that Oscar loved so much—Outer Azua was the Outland, the Badlands, the Cursed Earth, the Forbidden Zone, the Great Wastes, the Desert of Glass, the Burning Lands, the Doben-al, it was Salusa Secundus, it was Ceti Alpha Six, it was Tatooine. Even the residents could have passed for survivors of some not-so-distant holocaust. The poor ones—and it was with these infelices that Beli had lived—often wore rags, walked around barefoot, and lived in homes that looked like they’d been constructed from the detritus of the former world. If you would have dropped Astronaut Taylor amongst these folks he would have fallen to the ground and bellowed, You finally did it! (No, Charlton, it’s not the End of the World, it’s just Outer Azua.) The only non-thorn non-insect non-lizard life-forms that thrived at these latitudes were the Alcoa mining operations and the region’s famous goats (los que brincan las Himalayas y cagan en la bandera de España).

Resista à tentação de pôr links para os verbetes da Wikipedia que explicam as referências contidas no trecho transcrito acima. Comente o aspecto curioso da experiência de ser um leitor lusófono (alguém que, portanto, pode ler e compreender as passagens em espanhol) deste livro, que foi escrito para um público e um mercado anglófonos. Aquilo que muito provavelmente causa estranheza nos gringos produziu empatia em você (“our homegrown sertão”, “fulano, who knows fulano, who knows fulano, said” etc.). Deixe seu eventual leitor saber disso. Também deixe-o saber que Junot Díaz declarou que tinha um propósito ao rechear seu livro de expressões hispânicas e referências obscuras da cultura nerd:

"There's always a space in every immigrant's life which is reserved for what you don't understand," he says. "In this book, I wanted there to be for everybody an area that they didn't understand, so that we would all share, in one place or another, this moment of unintelligibility."

Não se esqueça de escrever um parágrafo inteiro sobre o importante papel que a história da ditadura de Rafael Leonidas Trujillo Molina desempenha na estória da família de Oscar de Léon. Seria legal citar mais uma nota de rodapé.2

Sobretudo, tome cuidado para não dar a impressão de que o livro é um desfile de referências. Este não é um livro frio. Todos os personagens parecem seres humanos de verdade. Você se emocionou com ele. Quantas vezes, enquanto lia, você teve que olhar para o vazio? Olha pra você, você nem conseguiu escrever sobre ele ainda. Lembre-se da humilhação que o ficcionista wannabe que há em você sentiu quando percebeu a capacidade que Junot Díaz tem de contar estórias. Eu sei que você ainda está embasbacado pelo “ouvido” dele, pelo domínio da linguagem, pela impressão de que ele pode fazer o que quiser—compartilhe essas coisas. Aposto que, depois que você escrever sobre sua experiência e suas impressões, seus amigos todos vão querer ler, vão fazer fila para pedir emprestado. Para aquele seu amigo que não gosta de literatura, diga que a Time o elegeu o melhor livro de ficção do ano passado. Apele, diga que vai virar filme3—não, melhor não dizer que vai virar filme (ele pode querer esperar pelo filme, nunca se sabe).

Uma última coisa. Enquanto estiver escrevendo a resenha, mantenha o pensamento de que The Brief Wondrous Life of Oscar Wao se tornou um livro muito importante para você. Dê um jeito de dizer isso também.



_________

1 Este parece ser o momento ideal para montar uma nota de rodapé que diga que o livro está cheio de notas de rodapé que não são nem um pouco chatas e que conseguem expor elementos da História (com h) da República Dominicana sem parecer academicamente didáticas, por causa de uma voz extremamente original que você não vai conseguir imitar (admita isso). Faça justiça às referências literárias de Junot Díaz e diga que as notas de rodapé não foram inspiradas por David Foster Wallace, como notou uma certa resenhista, mas por Patrick Chamoiseau, escritor de quem você nunca tinha ouvido falar antes e que, portanto, não será apresentado por você, mas pela Enciclopédie Libre.

2 Cite aquela em que o ditador é apresentado, pois ela dará ao eventual leitor a exata noção de um outro aspecto muito importante: a voz de Yunior:

For those of you who missed your mandatory two seconds of Dominican history: Trujillo, one of the twentieth century’s most infamous dictators, ruled the Dominican Republic between 1930 and 1961 with an implacable ruthless brutality. A portly, sadistic, pig-eyed mulato who bleached his skin, wore platform shoes, and had a fondness for Napoleon-era haberdashery, Trujillo (also known as El Jefe, the Failed Cattle Chief, and Fuckface) came to control nearly every aspect of the DR’s political, cultural, social, and economic life through a potent (and familiar) mixture of violence, intimidation, massacre, rape, co-optation, and terror; treated the country like it was a plantation and he was the master. At first glance, he was just your prototypical Latin American caudillo, but his powers was terminal in ways that few historians or writers have ever truly captured or, I would argue, imagined. He was our Sauron, our Arawn, our Darkseid, our Once and Future Dictator, a personaje so outlandish, so perverse, so dreadful that not even a sci-fi writer could have made his ass up. Famous for changing ALL THE NAMES of ALL THE LANDMARKS in the Dominican Republic to honor himself (Pico Duarte became Pico Trujillo, and Santo Domingo de Guzmán, the first and oldest city in the New World, became ciudad Trujillo); for making ill monopolies out of every slice of the national patrimony (which quickly made him one of the wealthiest men on the planet); for building one of the largest militaries in the hemisphere (dude had bomber wings, for fuck’s sake); for fucking every hot girl in sight, even the wives of his subordinates, thousands upon thousands upon thousands of women; for expecting, no, insisting on absolute veneration from his pueblo (tellingly, the national slogan was “Dios y Trujillo”; for running the country like it was a Marine boot camp; for stripping friends and allies of their positions and properties for no reason at all; and for his almost supernatural abilities.

Outstanding accomplishments include: the 1937 genocide against the Haitian and Haitian-Dominican community; one of the longest, most damaging U.S.-backed dictatorships in the Western Hemisphere (and if we Latin types are skilfull at anything it’s tolerating U.S.-backed dictators, so you know this was a hard-earned victory, the chilenos and the argentinos are still appealing); the creation of the first modern kleptocracy (Trujillo was Mobutu before Mobutu was Mobutu); the systematic bribing of American senators; and, last but not least, the forging of the Dominican peoples into a modern state (did what his Marine trainers, during the Occupation, were unable to do).


3 (parece que é verdade)

fevereiro 07, 2008

João Pereira Coutinho entrevistou Diogo Mainardi:

[...] a arte tem um papel no combate à corrupção. Ela oferece à sociedade ferramentas como iconoclastia, humor, visão crítica, senso estético, senso de proporção, agitação intelectual, inquietude existencial: tudo isso aumenta nossa desconfiança e nossa insatisfação em relação às pessoas em geral e aos políticos em particular.

fevereiro 05, 2008

Adeus, vida em sociedade. (via)