sendo João Gilberto
Até onde eu soube lendo Chega de Saudade, João Gilberto mora num apart hotel no Rio, troca o dia pela noite, vive de pijama e não recebe ninguém, nem mesmo o sujeito do restaurante da esquina que, apesar de trazer seu almoço todo dia, nunca teve a honra de cumprimentá-lo pessoalmente porque só está autorizado a deixar o rango no chão, tocar a campanhia e ir-se embora. Se Ruy Castro estiver mesmo certo, quando João Gilberto se sente só na madrugada, que é tipo a parte útil do dia dele, ele liga pralgumas pessoas e fica horas e horas conversando e eventualmente tocando e lá pelas tantas pede uma licencinha pra ir até a cozinha fazer um lanchinho e fica lá meia hora enquanto as ditas pessoas esperam penduradas no telefone, porque, afinal, é João Gilberto, é João Gilberto.1
Daí que eu acho que só existem duas possibilidades: ou (i) João Gilberto é autista e fim de papo, ou (ii) deu um jeito de criar para si um mito que o permite dar uma entrevista de 5 min em que basicamente se limita a dizer que gosta de Emílio Santiago e mandar um beijo pro Brasil e, ainda assim, fazer a gente (tá, tá, eu) gostar tanto dele. No fundo, no fundo, tendo a achar que a segunda hipótese tem maiores chances de vir a ser corroborada e portanto peço um minuto da atenção de vocês para declarar que, ao menos no que diz respeito ao convívio e à manutenção de laços afetivos com pessoas, é possível vislumbrar aspectos muito convenientes na circunstância de ser, tipo, João Gilberto.
É que ninguém cobra nada de João Gilberto. Por maior que seja o esforço que se faça, a gente nunca vai poder conceber que um amigo de João Gilberto ficou irritado porque João Gilberto não lembrou de uma efeméride qualquer ou que ficou aborrecido porque João Gilberto não foi ao seu casamento ou exigindo atenção de João Gilberto, que, pô, não liga, não dá notícias, que porra é essa. Que batida de bossa nova que nada: defendo que na verdade a genialidade de João Gilberto reside em ter ele conseguido encontrar uma maneira de se relacionar com as pessoas que o permite ser relapso e ausente como só João Gilberto pode ser e ainda mantê-las gostando dele e querendo o seu bem. João Gilberto nunca é ingrato, nunca é ausente, nunca é egoísta, ele é João Gilberto e ponto. E aí basta ele falar qualquer coisa que, fosse algum de nós falando, seria considerada simplesmente bullshit, tipo basta que ele fale qualquer coisa mesmo, como nessa entrevista que eu linquei acima e na qual você provavelmente ainda não clicou, para que os amigos dele perdoem tudo, achem lindo, adorem. João Gilberto teve um filho com uma mulher casada (com outro homem), todo mundo achou bonitinho; João Gilberto levanta e vai embora, todo mundo acha (tá, não todo mundo, boa parte das pessoas acha) que ele tem todo o direito; João Gilberto te liga de madrugada, te deixa na linha por meia hora enquanto faz uma boquinha, e você acha maravilhoso. Tão mais fácil lidar com gente quando se é João Gilberto.
Comments
Muito bom. "Que batida de bossa nova que nada: defendo que na verdade a genialidade de João Gilberto reside em ter ele conseguido encontrar uma maneira de se relacionar com as pessoas que o permite ser relapso e ausente como só João Gilberto pode ser e ainda mantê-las gostando dele e querendo o seu bem" - esse trecho é um inçaite brilhante
Um abraço,
Marcos
Posted by: Marcos Matamoros | janeiro 17, 2008 12:12 PM
being John Gilbert
seu blog está tão legalll...
bj
Posted by: gabi | janeiro 5, 2008 03:26 PM
o que é um ponto preto numa espiga de milho?
Posted by: um emilho santiago | janeiro 4, 2008 10:11 AM