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legião ennui, porque somos muitos

Esta estranha sensação de que pertencemos a Algo Maior―que todos os que nos antecederam já tiveram―, nós também a temos, às vezes. Esse Algo Maior é algo que, de certa maneira, é feito de tudo aquilo que cada um de nós é―e também é algo que, ao mesmo tempo, nos define, nos informa. E este post é só mais uma tentativa inútil de dar alguns exemplos do que eu sempre quis dizer, mas nunca consegui. (Eu já li o post todo e antecipo que fracassei mais uma vez).

Para nós, é muito natural (tão natural quanto a nossa respiração) pensar no modo como as outras pessoas estão nos percebendo. Nós sempre temos pelo menos duas linhas de pensamento acontecendo nas nossas cabeças simultaneamente. Numa delas, elaboramos as coisas que julgamos que as outras pessoas julgarão ser engraçadas, divertidas, du caralho, quando nós finalmente as dissermos; na outra, antecipamos todas as reações que julgamos possíveis, para continuar tentando nos portar de acordo com elas, como sempre fizemos.

Contamos nos dedos as vezes em que fomos sinceros sem ter medo de ser vítimas de algum tipo de chacota no futuro. O que nos move, o elemento de acordo com o qual decidimos nossas próximas condutas, é o medo de ser vítima de qualquer coisa que soe como zombaria. Nós queremos ser sempre aqueles que riem de, nunca aqueles de quem se ri.

Aprendemos isso nas escolinhas de onde, ao que parece, ainda lamentamos ter sido um dia obrigados a sair. Nós não queremos ser adultos: queremos ser adolescentes, para sempre. Este nosso arremedo de auto-crítica―que queremos muito fazer parecer auto-consciência―é, na verdade, a nossa tentativa de esvaziar toda crítica. Porque nós temos medo de críticas, porque não queremos ser criticados, porque não queremos ser adultos. Queremos continuar adolescentes. Ser adulto é ter que aprender a lidar com o sofrimento, e nós não queremos sofrer. (Nós nos acostumamos a fazer os outros sofrerem antes que eles nos fizessem sofrer, tipo Mortal Kombat). Nós somos hedonistas e descartamos tudo aquilo que nos parece incapaz de nos dar prazer. (Pessoas, inclusive).

Não temos nenhuma aspiração, sabemos que todos os que vieram antes de nós fracassaram de alguma forma―em algum nível, como nós gostamos de dizer. Mas nós também sabemos: nós nunca fracassaremos como as outras gerações fracassaram porque descobrimos o segredo do êxito constante e absoluto―que é nunca tentar. Zombamos de todos os que nos precederam e de todos os que virão depois de nós. Zombamos de todos os que não são nós. Só que, tipo, não há um nós. Nós somos todos eu. Nós somos uma massa de não-indivíduos―mas somos individualistas, somos cool e não nos importamos. O nosso cinismo segue filtrando o mundo para nós.

Nós estamos todos aqui, na net, até esta hora, para não precisar lidar com gente de verdade e, uma vez aqui, na net, ansiamos por algo que pelo amor de deus pareça um pouco humano, mas que nos poupe do sofrimento que o contato humano sempre gera, uma hora ou outra, como nossas poucas experiências de contato humano verdadeiro já demonstraram. Nós estamos cercados de gente por todos os lados―a apenas um SMS, e-mail, scrap (o caralho) de qualquer pessoa―e no entanto nos sentimos cada vez mais desesperadamente sós. Aqui, na net, até esta hora.

No plano maior, não poderia ser diferente: também estamos e continuaremos todos inertes. Seja porque estamos em repouso, seja porque estamos em movimento uniforme em direção a lugar nenhum. Nosso legado será não ter deixado legado algum, as marcas que deixaremos serão todas involuntárias. Subitamente, tudo parece ter ficado ao nosso alcance. Mas nós vamos continuar aqui, sem fazer porra nenhuma disso.

Comments

Um Zeigeist deveras blasé: tão Zeigeist, mas tão Zeigeist, que nem ser chamado de Zeigeist deveria ser, posto que o ascetismo alemão - como a fleuma britânica, mais apropriada e sintética que este Zeigeist que não é Zeigeist - passou longe.

ennui é o nosso, er, zeitgeist.

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