meta para 2008
Você certamente já sentiu a alegria que eu senti ontem. É o tipo de alegria que sentimos quando encontramos um velho amigo que não víamos há um bom tempo e percebemos que a amizade se manteve latente, esperando apenas um encontro fortuito que a viesse despertar. Momentos como o que eu vivi ontem são invariavelmente marcados pelas mesmas piadas internas e comentários sobre o passado que marcaram todos os encontros anteriores; é como se esses pequenos rituais compusessem o código de um cofre que, se corretamente decifrado, libera o acesso à boa e velha amizade.
Meu amigo não parece ter mudado muito desde a última vez que o vi. Está mais gordo, é verdade, mas não tão gordo assim. A mudança que eu realmente notei parece ter se dado em seu cérebro; ele me pareceu mais sábio. Das muitas coisas que ele me disse na nossa conversa de ontem, uma ainda está ressoando em minha cabeça. O que ele me falou pode ser tido como banal, mas estou certo de que, subjacente àquilo, havia uma outra coisa que me pareceu muito importante, tão importante que resolvi escrever este post a respeito. Acho meio difícil ele ter visto a importância do que ele estava dizendo no momento mesmo em que o dizia, pois a coisa toda foi bem trivial e tranqüila, e, de todo modo, nós já estávamos muito bêbados. Sei, no entanto, que tentei disfarçar a maneira como aquelas palavras estavam me fazendo vibrar por dentro. Se decidi não esboçar muitas reações na hora, foi para que ele continuasse confortável e não se sentisse tentado a me manter impressionado; este meu amigo tem esta vaidade de, ao perceber que está causando um determinado efeito em alguém, querer manter, pelo máximo de tempo possível, a sensação de poder que ele sente nestes momentos. Na maioria das vezes em que isso acontece, a espontaneidade cessa e a conversa acaba ganhando uma artificialidade indesejável.
Eu consegui evitar isso ontem. Tente enxergar a cena: eu e meu amigo já estamos conversando há algumas horas e estamos falando agora sobre um determinado livro que serviu de pretexto para que passássemos a fazer reflexões bêbadas sobre experiências desagradáveis e o modo como nós reagimos a elas (bêbados sempre tendem a abordar grandes temas). Meu amigo e eu, bêbados, volta e meia fazendo comentários parentéticos sobre o fato de os garçons ainda não terem levado embora os restos do tira-gosto que estávamos beliscando, apesar de já termos comunicado que desejávamos que isso acontecesse. Antes de prosseguir, peço licença para registrar um traço de minha personalidade que chama a atenção das pessoas com quem convivo, registro esse que terminará oferecendo um pouco de contexto às palavras de meu amigo. É que (não ria) eu ainda mostro alguma resistência para comer vegetais. Não é que eu não os coma nunca; eu até como, às vezes, mas fazer isso não me dá muito prazer. Meu amigo agora está, portanto, analisando este traço de minha personalidade e, num plano maior, o tomando como símbolo para continuar defendendo seu argumento. Nosso diálogo, se bem me lembro, foi mais ou menos este:
Que porra é essa véi cê não comeu verdura nenhuma só comeu a carne. Olhaí os tomate tudo aí, cebola, come essa porra rapaz. Aposto que quando cê era pequeno cê era daquele tipo de guri que chorava pra comer verdura né não.
É. Mais ou menos. Tipo isso.
Então veja como isso é igualzinho ao que a gente tá falando. Vamo tomar essa experiência como uma experiência que era desagradável pra você. Nessas horas sua mãe devia dizer "Meu filho, come a verdura, tanta gente passando fome", e você, claro, como todo mundo, achava aquilo um saco, já tinha decidido que verdura era ruim e não tava nem aí se tinha gente passando fome ou não, cê não queria era comer a porra da verdura. Pois meu ponto é que você só podia fazer isso porque cê nunca tinha passado fome nem nunca ia passar. Cê tinha condição, vamo dizer assim, de não querer comer a verdura.
Hmm.
Então tá então vamo tentar esquecer a viadage que é achar que comer verdura é uma experiência desagradável e vamo considerar que sim, é desagradável. Então pra você comer verdura é uma experiência desagradável, mas o que rola na verdade é que você pode achar que comer verdura é uma experiência desagradável, pode continuar reagindo à situação dessa maneira. Cê não precisa fazer esforço nenhum pra mudar o jeito como você reage a essa experiência desagradável. Cê pode, cê tem condições, cê pode continuar achando essas coisas. É diferente do cara que já passou fome ou que tem dificuldade pra achar o que comer. Cê não acha impossível um cara desses ser igual a você nisso, que também ache comer verdura um saco, tal. Mas esse cara não pode continuar achando isso ruim porque, se não, ele tá ainda mais fudido, que porra que ele vai comer então? Então a maneira como ele reage à experiência desagradável vai ter que ser diferente da sua, ou ele vai ter que esquecer que a porra é ruim ou dar um jeito de conviver com ela, porque só assim ele vai poder continuar. É mais ou menos isso. A porra acontece, e o modo como a gente lida com ela varia se a gente tá numa situação de conforto ou não, é um ou outro a depender de se a gente tem ou não condição de continuar achando ela ruim sem fazer nada a respeito. O fudido que tem que comer a porra da verdura tem que dar um jeito de passar por cima do que ele acha da verdura, ele tem que fazer alguma coisa disso, não tem muita opção.
Hoje pela manhã, de ressaca, percebi que meu amigo estava falando sobre o valor do estoicismo. Sim, sim, Estoicismo. Lembrei então de um artigo que David Foster Wallace terminou escrevendo a pretexto de fazer uma reportagem sobre um jogador de tênis num determinado torneio. Reli o artigo, que se chama “Tennis Player Michael Joyce’s Professional Artistry as a Paradigm of Certain Stuff about Choice, Freedom, Discipline, Joy, Grotesquerie, and Human Completeness”, e agora vou deixar rabiscados aqui no blog dois trechos que vêm em duas notas de rodapé, para que eles fiquem aqui, prestando homenagem à noite de ontem:
trecho 1
It turns out that a portion of the talent required to survive in the trenches of the ATP tour is emotional: Joyce is able to keep from getting upset about stuff that struck me as hard not to get upset about. When he points out that there's "no point" getting exercised about unfairness you can't control, I think what he's really saying is that you either learn how not to get upset about it or you disappear from the Tour. The temperamental behavior of many of the game's top players -- wich gives the public the distorted idea that most pro players are oversensitive brats -- is on a qualifier's view easily explainable: top players are temperamental because they can afford to be.
trecho 2
It is impossible to get Michael Joyce to give a straight answer on whether he thinks guarantees are good or bad -- it's not like Joyce is muddled or Nixonianly evasive about it, but rather that he can't afford to think in good/bad terms, to nurture resentment or bitterness or frustation. My guess is that he avoids these feelings because they make it even harder to play against Agassi and the rest, and he cares less about what's "right" in the grand scheme than he does about maximizing his own psychological chances against other players. This seems totally understandable, though I'm kind of awed by Joyce's evident ability to shut down lines of thinking that aren't to his advantage.
Então é isso. Minha principal meta para 2008 agora é: comer verduras, shutting down lines of thinking that aren't to my advantage.
Comments
Nossa cara achava que era só eu que tinha essa, digamos, dificuldade em engolir nossos amigos vegetais...
Eu também to precisando achar um modo de gostar de come-los, estou pensando em hiponose!
abraço, parabéns pelo blog.
Posted by: Gustavo | julho 31, 2008 08:13 PM
Deselho-lhe um controle maior do seu Pathos em 2008, meu caro.
Boa sorte.
***
Bife com pimentão ou cebola afogada em catchup são bons começos para quem quer se aventurar no mundo dos legumes, verduras e derivados.
Ainda tem o orgulho de, quando vier o sanduíche do McDonald's, não estiver ele enrolado naquele papel de "feito especialmente pra você".
um abraço.
Posted by: Caio Marinho. | fevereiro 3, 2008 04:21 PM