janeiro, 2008 Archives

31
jan

meta para 2008

by tiago a. in Uncategorized

Você certamente já sentiu a alegria que eu senti ontem. É o tipo de alegria que sentimos quando encontramos um velho amigo que não víamos há um bom tempo e percebemos que a amizade se manteve latente, esperando apenas um encontro fortuito que a viesse despertar. Momentos como o que eu vivi ontem são invariavelmente marcados pelas mesmas piadas internas e comentários sobre o passado que marcaram todos os encontros anteriores; é como se esses pequenos rituais compusessem o código de um cofre que, se corretamente decifrado, libera o acesso à boa e velha amizade.
Meu amigo não parece ter mudado muito desde a última vez que o vi. Está mais gordo, é verdade, mas não tão gordo assim. A mudança que eu realmente notei parece ter se dado em seu cérebro; ele me pareceu mais sábio. Das muitas coisas que ele me disse na nossa conversa de ontem, uma ainda está ressoando em minha cabeça. O que ele me falou pode ser tido como banal, mas estou certo de que, subjacente àquilo, havia uma outra coisa que me pareceu muito importante, tão importante que resolvi escrever este post a respeito. Acho meio difícil ele ter visto a importância do que ele estava dizendo no momento mesmo em que o dizia, pois a coisa toda foi bem trivial e tranqüila, e, de todo modo, nós já estávamos muito bêbados. Sei, no entanto, que tentei disfarçar a maneira como aquelas palavras estavam me fazendo vibrar por dentro. Se decidi não esboçar muitas reações na hora, foi para que ele continuasse confortável e não se sentisse tentado a me manter impressionado; este meu amigo tem esta vaidade de, ao perceber que está causando um determinado efeito em alguém, querer manter, pelo máximo de tempo possível, a sensação de poder que ele sente nestes momentos. Na maioria das vezes em que isso acontece, a espontaneidade cessa e a conversa acaba ganhando uma artificialidade indesejável.
Eu consegui evitar isso ontem. Tente enxergar a cena: eu e meu amigo já estamos conversando há algumas horas e estamos falando agora sobre um determinado livro que serviu de pretexto para que passássemos a fazer reflexões bêbadas sobre experiências desagradáveis e o modo como nós reagimos a elas (bêbados sempre tendem a abordar grandes temas). Meu amigo e eu, bêbados, volta e meia fazendo comentários parentéticos sobre o fato de os garçons ainda não terem levado embora os restos do tira-gosto que estávamos beliscando, apesar de já termos comunicado que desejávamos que isso acontecesse. Antes de prosseguir, peço licença para registrar um traço de minha personalidade que chama a atenção das pessoas com quem convivo, registro esse que terminará oferecendo um pouco de contexto às palavras de meu amigo. É que (não ria) eu ainda mostro alguma resistência para comer vegetais. Não é que eu não os coma nunca; eu até como, às vezes, mas fazer isso não me dá muito prazer. Meu amigo agora está, portanto, analisando este traço de minha personalidade e, num plano maior, o tomando como símbolo para continuar defendendo seu argumento. Nosso diálogo, se bem me lembro, foi mais ou menos este:
Que porra é essa véi cê não comeu verdura nenhuma só comeu a carne. Olhaí os tomate tudo aí, cebola, come essa porra rapaz. Aposto que quando cê era pequeno cê era daquele tipo de guri que chorava pra comer verdura né não.
É. Mais ou menos. Tipo isso.
Então veja como isso é igualzinho ao que a gente tá falando. Vamo tomar essa experiência como uma experiência que era desagradável pra você. Nessas horas sua mãe devia dizer “Meu filho, come a verdura, tanta gente passando fome”, e você, claro, como todo mundo, achava aquilo um saco, já tinha decidido que verdura era ruim e não tava nem aí se tinha gente passando fome ou não, cê não queria era comer a porra da verdura. Pois meu ponto é que você só podia fazer isso porque cê nunca tinha passado fome nem nunca ia passar. Cê tinha condição, vamo dizer assim, de não querer comer a verdura.
Hmm.
Então tá então vamo tentar esquecer a viadage que é achar que comer verdura é uma experiência desagradável e vamo considerar que sim, é desagradável. Então pra você comer verdura é uma experiência desagradável, mas o que rola na verdade é que você pode achar que comer verdura é uma experiência desagradável, pode continuar reagindo à situação dessa maneira. Cê não precisa fazer esforço nenhum pra mudar o jeito como você reage a essa experiência desagradável. Cê pode, cê tem condições, cê pode continuar achando essas coisas. É diferente do cara que já passou fome ou que tem dificuldade pra achar o que comer. Cê não acha impossível um cara desses ser igual a você nisso, que também ache comer verdura um saco, tal. Mas esse cara não pode continuar achando isso ruim porque, se não, ele tá ainda mais fudido, que porra que ele vai comer então? Então a maneira como ele reage à experiência desagradável vai ter que ser diferente da sua, ou ele vai ter que esquecer que a porra é ruim ou dar um jeito de conviver com ela, porque só assim ele vai poder continuar. É mais ou menos isso. A porra acontece, e o modo como a gente lida com ela varia se a gente tá numa situação de conforto ou não, é um ou outro a depender de se a gente tem ou não condição de continuar achando ela ruim sem fazer nada a respeito. O fudido que tem que comer a porra da verdura tem que dar um jeito de passar por cima do que ele acha da verdura, ele tem que fazer alguma coisa disso, não tem muita opção.
Hoje pela manhã, de ressaca, percebi que meu amigo estava falando sobre o valor do estoicismo. Sim, sim, Estoicismo. Lembrei então de um artigo que David Foster Wallace terminou escrevendo a pretexto de fazer uma reportagem sobre um jogador de tênis num determinado torneio. Reli o artigo, que se chama “Tennis Player Michael Joyce’s Professional Artistry as a Paradigm of Certain Stuff about Choice, Freedom, Discipline, Joy, Grotesquerie, and Human Completeness”, e agora vou deixar rabiscados aqui no blog dois trechos que vêm em duas notas de rodapé, para que eles fiquem aqui, prestando homenagem à noite de ontem:
trecho 1
It turns out that a portion of the talent required to survive in the trenches of the ATP tour is emotional: Joyce is able to keep from getting upset about stuff that struck me as hard not to get upset about. When he points out that there’s “no point” getting exercised about unfairness you can’t control, I think what he’s really saying is that you either learn how not to get upset about it or you disappear from the Tour. The temperamental behavior of many of the game’s top players — wich gives the public the distorted idea that most pro players are oversensitive brats — is on a qualifier’s view easily explainable: top players are temperamental because they can afford to be.
trecho 2
It is impossible to get Michael Joyce to give a straight answer on whether he thinks guarantees are good or bad — it’s not like Joyce is muddled or Nixonianly evasive about it, but rather that he can’t afford to think in good/bad terms, to nurture resentment or bitterness or frustation. My guess is that he avoids these feelings because they make it even harder to play against Agassi and the rest, and he cares less about what’s “right” in the grand scheme than he does about maximizing his own psychological chances against other players. This seems totally understandable, though I’m kind of awed by Joyce’s evident ability to shut down lines of thinking that aren’t to his advantage.

***

Então é isso. Minha principal meta para 2008 agora é: comer verduras, shutting down lines of thinking that aren’t to my advantage.

28
jan

finalmente! taquigrafaram a entrevista de seu cormac

by tiago a. in Uncategorized

Que The Road é um dos melhores livros da década de todos os tempos acho que já não é preciso mais dizer. É também o livro que rendeu mais visibilidade a Seu Cormac, não há dúvida alguma quanto a isso (o sucesso tem sido tamanho que os livros da Trilogia da Fronteira, que pareciam já estar fora de catálogo, voltaram a ser vistos nas livrarias). Vai virar filme etc.
Em junho, falei aqui da entrevista que ele concedeu à inigualável Oprah Winfrey, mas posso apostar que a indolência impediu alguns de vocês de fazer o tal registro lá no site dela para assistir os videozinhos. Sabedor disso, num acesso de utilidade e para que não haja mais desculpas, posto agora uma transcrição da entrevista na extended entry (cortesia do inexcedível AMP). Façam um favor a si mesmos, meus amigos. Leiam-na:
THE EXCLUSIVE INTERVIEW BEGINS:

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O: Well you look just like you do on the back of the cover.
C: Yeah, Well I don’t know if that’s good or bad.
O: That’s very good
C: Eh hm.

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25
jan

legião ennui, porque somos muitos

by tiago a. in Uncategorized

Esta estranha sensação de que pertencemos a Algo Maior―que todos os que nos antecederam já tiveram―, nós também a temos, às vezes. Esse Algo Maior é algo que, de certa maneira, é feito de tudo aquilo que cada um de nós é―e também é algo que, ao mesmo tempo, nos define, nos informa. E este post é só mais uma tentativa inútil de dar alguns exemplos do que eu sempre quis dizer, mas nunca consegui. (Eu já li o post todo e antecipo que fracassei mais uma vez).
Para nós, é muito natural (tão natural quanto a nossa respiração) pensar no modo como as outras pessoas estão nos percebendo. Nós sempre temos pelo menos duas linhas de pensamento acontecendo nas nossas cabeças simultaneamente. Numa delas, elaboramos as coisas que julgamos que as outras pessoas julgarão ser engraçadas, divertidas, du caralho, quando nós finalmente as dissermos; na outra, antecipamos todas as reações que julgamos possíveis, para continuar tentando nos portar de acordo com elas, como sempre fizemos.
Contamos nos dedos as vezes em que fomos sinceros sem ter medo de ser vítimas de algum tipo de chacota no futuro. O que nos move, o elemento de acordo com o qual decidimos nossas próximas condutas, é o medo de ser vítima de qualquer coisa que soe como zombaria. Nós queremos ser sempre aqueles que riem de, nunca aqueles de quem se ri.
Aprendemos isso nas escolinhas de onde, ao que parece, ainda lamentamos ter sido um dia obrigados a sair. Nós não queremos ser adultos: queremos ser adolescentes, para sempre. Este nosso arremedo de auto-crítica―que queremos muito fazer parecer auto-consciência―é, na verdade, a nossa tentativa de esvaziar toda crítica. Porque nós temos medo de críticas, porque não queremos ser criticados, porque não queremos ser adultos. Queremos continuar adolescentes. Ser adulto é ter que aprender a lidar com o sofrimento, e nós não queremos sofrer. (Nós nos acostumamos a fazer os outros sofrerem antes que eles nos fizessem sofrer, tipo Mortal Kombat). Nós somos hedonistas e descartamos tudo aquilo que nos parece incapaz de nos dar prazer. (Pessoas, inclusive).
Não temos nenhuma aspiração, sabemos que todos os que vieram antes de nós fracassaram de alguma forma―em algum nível, como nós gostamos de dizer. Mas nós também sabemos: nós nunca fracassaremos como as outras gerações fracassaram porque descobrimos o segredo do êxito constante e absoluto―que é nunca tentar. Zombamos de todos os que nos precederam e de todos os que virão depois de nós. Zombamos de todos os que não são nós. Só que, tipo, não há um nós. Nós somos todos eu. Nós somos uma massa de não-indivíduos―mas somos individualistas, somos cool e não nos importamos. O nosso cinismo segue filtrando o mundo para nós.
Nós estamos todos aqui, na net, até esta hora, para não precisar lidar com gente de verdade e, uma vez aqui, na net, ansiamos por algo que pelo amor de deus pareça um pouco humano, mas que nos poupe do sofrimento que o contato humano sempre gera, uma hora ou outra, como nossas poucas experiências de contato humano verdadeiro já demonstraram. Nós estamos cercados de gente por todos os lados―a apenas um SMS, e-mail, scrap (o caralho) de qualquer pessoa―e no entanto nos sentimos cada vez mais desesperadamente sós. Aqui, na net, até esta hora.
No plano maior, não poderia ser diferente: também estamos e continuaremos todos inertes. Seja porque estamos em repouso, seja porque estamos em movimento uniforme em direção a lugar nenhum. Nosso legado será não ter deixado legado algum, as marcas que deixaremos serão todas involuntárias. Subitamente, tudo parece ter ficado ao nosso alcance. Mas nós vamos continuar aqui, sem fazer porra nenhuma disso.

22
jan

oi

by tiago a. in Uncategorized

* Pra você que estava esperando por uma boa notícia, ei-la: a Atlantic acaba de demolir sua pay-wall. Legal hein.
* Quê? Você queria ler um blog que reunisse citações de Nabokov? Por que não disse antes?
* Falando em Nabokov, tropecei numa troca de correspondências entre Richard Lamb e James Wood que a Slate publicou em 99. Nela, lá pelas tantas, James Wood escreveu:

[...] At his best, despite all my strictures, Nabokov is able to wring great pathos from the delicate games he plays. One such moment occurs near the end of Speak, Memory, when Nabokov is describing the Russian-émigré writers he knew in Berlin. He depicts an awkward lunch with the Nobel laureate, Ivan Bunin, then comes a sumptuous sentence about Poplavski: “I did not meet Poplavski who died young, a far violin among near balalaikas.” And then Nabokov writes: “But the author that interested me most was naturally Sirin.” Sirin was the pen-name of Nabokov when he was writing in Russian in Berlin in the ’20s and early ’30s. (And notice that Nabokov does not write “interested me most, naturally, was Sirin,” but “interested me most was naturally Sirin,” slyly, ironically pushing “naturally” and “Sirin” next to each other, when in fact there was nothing “natural” about Sirin; he was an artificial name; invented.) Nabokov describes Sirin’s career, beginning in 1925 (the date of Nabokov’s first novel), “until he vanished as strangely as he had come,” and then writes that: “Across the dark sky of exile, Sirin passed, to use a simile of a more conservative nature, like a meteor, and disappeared, leaving nothing much else behind him than a vague sense of uneasiness.”
It is impossible not to be moved by this. It is not merely a game; or rather, it is a game of high beauty. Remember that Nabokov wrote this passage in English, in America, in 1950, having left Europe ten years before. So, it is an elegy for a lost self, a Nabokov who was once called Sirin and who once wrote in Russian, and who did truly vanish “as strangely as he had come.” But there is a further delicacy. When Nabokov wrote these words, he was an obscure American writer, still making his way in American letters. Certainly, very, very few of the potential readers of Speak, Memory would have known that Sirin was Nabokov in an earlier incarnation. Nabokov’s Russian novels had not been translated into English at this time. His earlier career was a total blank in the States.
So, when Nabokov wrote those words, he was not playing quite the game of recognition he seems to be playing now. Most of his readers will not have got the joke, and Nabokov knew this. As far as Nabokov’s American readership was concerned, Sirin has indeed nothing to do with Nabokov–not merely a lost self, but an entirely other self, a different writer completely, an unknown: an absence, filled with Nabokov’s gorgeous game. And not a game, but a very beautiful irony. For what an extraordinary self-elegy, what an extraordinary farewell to a lost piece of oneself, to offer that lost piece up to the blameless ignorance of a new American readership, in a new American exile, confident that this new readership will not even recognize that such a sacrifice is taking place! How very beautiful! This is a “game” that almost none of Nabokov’s earliest readers would have recognised as a game; thus a game that nullifies itself, or rather fortifies itself, in the very process of being played. For whose eyes, for whose private knowledge, if not his readership’s, did Nabokov write the passage about Sirin, I wonder? For Véra’s of course.

* Tenho ouvido a junkie da Amy Winehouse mais do que o recomendável, acho. Estava procurando um vídeo de uma perfomance ao vivo na qual ela mostrasse algum traço de sobriedade pra poder postar aqui. Encontrei ontem:


Meu novo conceito de Alegria está contido na dancinha destes backing vocals negões, sério. Simplesmente sensacional, mormente a partir do segundo minuto. E vê se vocês param de rir dela, que ela está sofrendo.

12
jan

by tiago a. in Uncategorized

Tenho cinco minutos para deixar registrado que In The Wee Small Hours é um disco que reformulou, para mim, não apenas o que eu entendia por Álbum Conceitual*, mas o próprio conceito de Tristeza. Ele não exige que você esteja triste para criar a identificação que diferencia um disco qualquer de uma obra de arte. Você pode estar felicíssimo da vida: ouça o disco e vai entender perfeitamente o que é ser triste. Ouvindo sem parar há duas semanas desde que um amigo fez o favor de me apontar mais esta lacuna em minha formação. Sinatra canta Fools rush in, so here I am/ Very glad to be unhappy/ I can’t win, but here I am/ More than glad to be unhappy e faz você acreditar em cada sílaba. Baixe imediatamente.

* Diz-se, aliás, que este foi o primeiro Álbum Conceitual. Frank Sinatra aproveitou a invenção do LP para― ah, lê aqui, tô com pressa. Tchau, baixe o disco.
9
jan

revista piauí=bando de filisteus

by tiago a. in Uncategorized

Estávamos falando de João Gilberto, não foi? Pois saibam que

João Gilberto não é fácil nem difícil. É uma questão de entender ou não a personalidade dele. Quando você entende, se depara com uma pessoa maravilhosa.

É o que escreveu João Donato, na seção “o que aprendi”1 da piauí desse mês. Na noite de ontem, ao pôr meus olhinhos cansados sobre2 ver a capa da revista, fiz menção de pular de alegria,3 pois dela constava o anúncio:
Amor maior
que o mar
E.E. CUMMINGS
Sim, sim, isso mesmo; também pensei que tinha lido errado. Ao todo, são oito poemas que não, não foram vertidos para o vernáculo por meu cachorro pretensioso, mas por um tradutor e poeta bem mais experimentado.4 A revista vale só por eles; fiquei bem feliz e me apressei em vir dar a boa notícia aqui e telefonar pros amigos que não visitam meu blog, avisando-os, e dedicar o último poema a você e―
Euforia acabou assim que abri o site da revista. Os malditos editores de piauí (eles nunca acertam) publicaram os poemas em seu site criminosamente―não contentes por arruinar a disposição gráfica de dois poemas, ainda deram a um tal Silvio Vasconcellos a oportunidade de fazer *leituras* de poemas de Cummings PARA SEU IPOD (sic). Aviso: é de chorar.5
Não recomendo de maneira alguma, mas, se você quiser―apenas para ter uma noção do tamanho da atrocidade―, compare qualquer uma delas―a IV, por exemplo (Jesus, que desgraça)―com esta outra, de “let’s,from some loud unworld’s most rightful wrong“, feita pelo próprio Cummings. Fiz isto; suspeito que jamais me recuperarei.

____________
1 cópia descarada do what i’ve learned, da esquire, mas ok.
2pôr meus olhinhos cansados sobre a capa da revista“: meu alter ego devia estar dormindo quando escrevi isso, credo.
3 felizmente me contive.
4 o Sr. Vinícius Dantas.
5 (de raiva, claro)
8
jan

by tiago a. in Uncategorized

Radiohead have been sending out Webcasts of single song performances since “In Rainbows” was released online, all filmed by stationary cameras in their Oxford studio. The more I see of this exclusive! footage!, the less of it I want. Whether or not the idea was a new model for the music business, the digital release of “In Rainbows” was a thrill in large part because the band was “giving away” something they had obviously worked on.

Exatamente: também já enchi o saco dessa overdose de Radiohead e até falaria mais disto se não estivesse tão deprimido por ter descoberto há pouco que Jorge Ben lançou Samba Esquema Novo quando tinha 21 anos de idade e que, na época, JT Meirelles, responsável pelo arranjo de Mas que Nada, era um pouco mais velho—tinha 23. Numa nota ainda menos relacionada, registro que pensei numa camiseta com os dizeres EI, PESSOAS, QUE TAL VOLTAR A FAZER SENTIDO? e que foi numa mesa de bar que eu ouvi de um amigo a melhor definição para o Politicamente Correto: “O Politicamente Correto é a nova AIDS”.

4
jan

sendo João Gilberto

by tiago a. in Uncategorized

Até onde eu soube lendo Chega de Saudade, João Gilberto mora num apart hotel no Rio, troca o dia pela noite, vive de pijama e não recebe ninguém, nem mesmo o sujeito do restaurante da esquina que, apesar de trazer seu almoço todo dia, nunca teve a honra de cumprimentá-lo pessoalmente porque só está autorizado a deixar o rango no chão, tocar a campanhia e ir-se embora. Se Ruy Castro estiver mesmo certo, quando João Gilberto se sente só na madrugada, que é tipo a parte útil do dia dele, ele liga pralgumas pessoas e fica horas e horas conversando e eventualmente tocando e lá pelas tantas pede uma licencinha pra ir até a cozinha fazer um lanchinho e fica lá meia hora enquanto as ditas pessoas esperam penduradas no telefone, porque, afinal, é João Gilberto, é João Gilberto.1
Daí que eu acho que só existem duas possibilidades: ou (i) João Gilberto é autista e fim de papo, ou (ii) deu um jeito de criar para si um mito que o permite dar uma entrevista de 5 min em que basicamente se limita a dizer que gosta de Emílio Santiago e mandar um beijo pro Brasil e, ainda assim, fazer a gente (tá, tá, eu) gostar tanto dele. No fundo, no fundo, tendo a achar que a segunda hipótese tem maiores chances de vir a ser corroborada e portanto peço um minuto da atenção de vocês para declarar que, ao menos no que diz respeito ao convívio e à manutenção de laços afetivos com pessoas, é possível vislumbrar aspectos muito convenientes na circunstância de ser, tipo, João Gilberto.
É que ninguém cobra nada de João Gilberto. Por maior que seja o esforço que se faça, a gente nunca vai poder conceber que um amigo de João Gilberto ficou irritado porque João Gilberto não lembrou de uma efeméride qualquer ou que ficou aborrecido porque João Gilberto não foi ao seu casamento ou exigindo atenção de João Gilberto, que, pô, não liga, não dá notícias, que porra é essa. Que batida de bossa nova que nada: defendo que na verdade a genialidade de João Gilberto reside em ter ele conseguido encontrar uma maneira de se relacionar com as pessoas que o permite ser relapso e ausente como só João Gilberto pode ser e ainda mantê-las gostando dele e querendo o seu bem. João Gilberto nunca é ingrato, nunca é ausente, nunca é egoísta, ele é João Gilberto e ponto. E aí basta ele falar qualquer coisa que, fosse algum de nós falando, seria considerada simplesmente bullshit, tipo basta que ele fale qualquer coisa mesmo, como nessa entrevista que eu linquei acima e na qual você provavelmente ainda não clicou, para que os amigos dele perdoem tudo, achem lindo, adorem. João Gilberto teve um filho com uma mulher casada (com outro homem), todo mundo achou bonitinho; João Gilberto levanta e vai embora, todo mundo acha (tá, não todo mundo, boa parte das pessoas acha) que ele tem todo o direito; João Gilberto te liga de madrugada, te deixa na linha por meia hora enquanto faz uma boquinha, e você acha maravilhoso. Tão mais fácil lidar com gente quando se é João Gilberto.

1 Lembra daquela estória do sítio dos Novos Baianos aonde João Gilberto ia, de terno, levando a filha, apenas porque apreciava tocar com eles e porque gostava muito do canto dos passarinhos? Pois então agora você me imagine João Gilberto de terno dirigindo uns bons quilômetros pra chegar ao tal do sítio e ainda levando a filha pequena só pra poder se encontrar com um Moraes Moreira jovem, uma Baby Consuelo jovem, um Pepeu Gomes jovem e um Paulinho Boca de Cantor jovem―só porque é João Gilberto, todo mundo acaba achando Normal1a uma coisa dessas.

1a Sendo este conceito de Normal = àquele que empregamos quando estamos falando de João Gilberto.