[...] o objetivo maior de um romance, que [...] é promover o compartilhamento de uma visão de mundo particular por meio de uma obra de arte e sacudir um pouco o barquinho da subjetividade, jamais será atingido por completo, pois é impossível experimentar o mundo do ponto de vista de outra pessoa. Chegar o mais próximo possível desse ideal é o desafio de todo escritor, e nesse sentido o que ele busca é fracassar o melhor possível. Como autor, sempre experimento essa espécie de fracasso no sentido de que o texto final, por mais trabalhado que seja, nunca dá conta de tudo que se pretendia expressar. Mas mesmo essa insuficiência é assombrosamente mais poderosa do que o tipo de comunicação que se alcança nas relações pessoais cotidianas. O que um romance realiza não é muito diferente, em essência, do que acontece numa daquelas eventuais conversas de bar entre dois ou três amigos, nas quais de repente a densidade do que se pode compartilhar fica muito maior do que o comum. Nesse caso a alteração se dá pela combinação de camaradagem e álcool. Quando se escreve um livro, busca-se algo análogo por meio de uma elaboração paciente de idéias, um tremendo esforço de imaginação e exploração da linguagem cujo efeito final, além de prazer estético, preenche um espaço que parecia condenado ao silêncio.
Tenha um pouquinho de paciência e leia essa parte de novo:
O que um romance realiza não é muito diferente, em essência, do que acontece numa daquelas eventuais conversas de bar entre dois ou três amigos, nas quais de repente a densidade do que se pode compartilhar fica muito maior do que o comum. Nesse caso a alteração se dá pela combinação de camaradagem e álcool. Quando se escreve um livro, busca-se algo análogo por meio de uma elaboração paciente de idéias, um tremendo esforço de imaginação e exploração da linguagem cujo efeito final, além de prazer estético, preenche um espaço que parecia condenado ao silêncio.
Agora em negrito, pra fortalecer:
O que um romance realiza não é muito diferente, em essência, do que acontece numa daquelas eventuais conversas de bar entre dois ou três amigos, nas quais de repente a densidade do que se pode compartilhar fica muito maior do que o comum.
Cê sabe aqueles momentos em que seus olhos, depois de lerem algo, passam a brilhar, brilhar enquanto seus lábios meio que involuntariamente murmuram É isso mesmo! É isso!? Pois foi assim que eu fiquei quando li esta parte desta entrevista de Daniel Galera. Pra entender o *poder* desta comparação, é claro que ajuda muito você e seus amigos serem freqüentadores de mesa de bar. Não tenho dúvidas: foi o melhor símile sobre a experiência literária que vi em algum tempo, e 2007 não podia terminar sem que eu registrasse isto. Post agora só quando o calendário mudar. Boas festas pra todo mundo.