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dezembro 24, 2007

[...] o objetivo maior de um romance, que [...] é promover o compartilhamento de uma visão de mundo particular por meio de uma obra de arte e sacudir um pouco o barquinho da subjetividade, jamais será atingido por completo, pois é impossível experimentar o mundo do ponto de vista de outra pessoa. Chegar o mais próximo possível desse ideal é o desafio de todo escritor, e nesse sentido o que ele busca é fracassar o melhor possível. Como autor, sempre experimento essa espécie de fracasso no sentido de que o texto final, por mais trabalhado que seja, nunca dá conta de tudo que se pretendia expressar. Mas mesmo essa insuficiência é assombrosamente mais poderosa do que o tipo de comunicação que se alcança nas relações pessoais cotidianas. O que um romance realiza não é muito diferente, em essência, do que acontece numa daquelas eventuais conversas de bar entre dois ou três amigos, nas quais de repente a densidade do que se pode compartilhar fica muito maior do que o comum. Nesse caso a alteração se dá pela combinação de camaradagem e álcool. Quando se escreve um livro, busca-se algo análogo por meio de uma elaboração paciente de idéias, um tremendo esforço de imaginação e exploração da linguagem cujo efeito final, além de prazer estético, preenche um espaço que parecia condenado ao silêncio.


Tenha um pouquinho de paciência e leia essa parte de novo:

O que um romance realiza não é muito diferente, em essência, do que acontece numa daquelas eventuais conversas de bar entre dois ou três amigos, nas quais de repente a densidade do que se pode compartilhar fica muito maior do que o comum. Nesse caso a alteração se dá pela combinação de camaradagem e álcool. Quando se escreve um livro, busca-se algo análogo por meio de uma elaboração paciente de idéias, um tremendo esforço de imaginação e exploração da linguagem cujo efeito final, além de prazer estético, preenche um espaço que parecia condenado ao silêncio.

Agora em negrito, pra fortalecer:

O que um romance realiza não é muito diferente, em essência, do que acontece numa daquelas eventuais conversas de bar entre dois ou três amigos, nas quais de repente a densidade do que se pode compartilhar fica muito maior do que o comum.


Cê sabe aqueles momentos em que seus olhos, depois de lerem algo, passam a brilhar, brilhar enquanto seus lábios meio que involuntariamente murmuram É isso mesmo! É isso!? Pois foi assim que eu fiquei quando li esta parte desta entrevista de Daniel Galera. Pra entender o *poder* desta comparação, é claro que ajuda muito você e seus amigos serem freqüentadores de mesa de bar. Não tenho dúvidas: foi o melhor símile sobre a experiência literária que vi em algum tempo, e 2007 não podia terminar sem que eu registrasse isto. Post agora só quando o calendário mudar. Boas festas pra todo mundo.

dezembro 17, 2007

ToC da New Yorker de fim-de-ano

Último nº da New Yorker de cada ano costuma ser acima da média, não apenas porque fazem double issue, mas também porque o povo lá, Papai Noel style, parece que guarda um monte de coisa boa pro período. O desse ano não fugiu à regra. Tem resenha do livro novo de Coetzee, assinada por James Wood (boa, 0% spoilers), tem tipo um especial Raymond Carver (reportagem sobre a relação dele com o editor, um conto, fotinhas, tal) e tem também esse conto de Junot Díaz, que tipo meio que decepcionou um pouco. Narrada na segunda pessoa (algo parecido com o How to Date a Browngirl, Blackgirl, Whitegirl, or Halfie1), a estória mantém aqueles cacoetes todos2 e até que começa bem, tem ritmo, mas no final derrapa, eu acho―talvez Humbert Humbert já tenha esgotado a desculpa, não sei. De todo jeito, inda quero ler o livro dele que saiu esse ano, esperando apenas ficar mais barato.3

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1 esse, sim, massa; ouça aqui
2 gírias e palabras hispánicas surgindo do nada, a big butt latina, o personagem comedor que dá corno na latina etc.
3 se você ainda não sabe o que me dar de Natal, olhaí a dica ó.

pensamento do dia: raro é encontrar quem não se julgue mais sábio do que realmente é; mais raro ainda é encontrar quem não creia que o outro é que se julga mais sábio do que realmente é.

dezembro 13, 2007

por Mitya, por Ilucha, por Aliocha, por Kolya, por Mitya

Mais um protesto, agora contra piauí. A única razão de ser para o número que está nas bancas é a publicação de alguns contos de Augusto Monterroso. Esse nome, provavelmente, não lhe é estranho―você já deve tê-lo ouvido nalgum lugar em que se falava das possibilidades do microconto, do relato breve enquanto gênero etc. Foi ele quem fez aquele que dizem ser o conto mais curto jamais escrito, intitulado "El dinosaurio":

Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.

Não vi nada demais nesse conto quando o li numa livraria, folheando aquela tal coletânea de microcontos. Mas os outros contos que piauí publicou esse mês são uma outra estória. Estes, sim, são muito bons. Traduziram-nos Vilma Arêas e Samuel Titan Jr., pessoas que desconheço, mas que fizeram um belo serviço. (Olá, Vilma. Olá, Samuel.)

Os avarentos editores de piauí, no entanto, não puseram um continho sequer no site. Não sei o que há com essa gente. O perfil de Bozo (mediano apenas) está lá, de graça. Do que é superior, contudo, nem uma mostra sequer. É assim que eles acham que vão vender revistas?

Eis aqui metade do meu protesto, pois. A outra metade é este link, no qual você encontra cerca de 40% dos contos publicados em piauí e mais outros tantos. Estão em espanhol, infelizmente, mas espanhol, todos sabem, é dialeto, de modo que dá pra ler. O melhor, dentre todos os que li, é este:

Homenaje a Masoch
de Augusto Monterroso

Lo que acostumbraba cuando se acababa de divorciar por primera vez y se encontraba por fin solo y se sentía tan contento de ser libre de nuevo, era, después de estar unas cuantas horas haciendo chistes y carcajeándose con sus amigos en el café, o en el cóctel de la exposición tal, donde todos se morían de risa de las cosas que decía, volver por la noche a su departamento nuevamente de soltero y tranquilamente y con delectación morosa ponerse a acarrear sus instrumentos, primero un sillón, que colocaba en medio del tocadiscos y una mesita, después una botella de ron y un vaso mediano, azul, de vidrio de Carretones, después una grabación de la Tercera Sinfonía de Brahms dirigida por Felix Weingartner, después su gordo ejemplar empastado Editorial Nueva España S.A., México, 1944, de Los hermanos Karamazov; y en seguida conectar el tocadiscos, destapar la botella, servirse un vaso, sentarse y abrir el libro por el capítulo III del Epílogo para leer reiteradamente aquella parte en que se ve muerto al niño Ilucha en un féretro azul, con las manos plegadas sobre el pecho y los ojos cerrados, y en la que el niño Kolya, al saber por Aliocha que Mitya su hermano es inocente de la muerte de su padre y sin embargo va a morir, exclama emocionado que le gustaría morir por toda la humanidad, sacrificarse por la verdad aunque fuese con afrenta; para seguir con las discusiones acerca del lugar en que debía ser enterrado Ilucha, y con las palabras del padre, quien les cuenta que Ilucha le pidió que cuando lo hubiera cubierto la tierra desmigajara un pedazo de pan para que bajaran los gorriones y que él los oiría y se alegraría sintiéndose acompañado, y más tarde él mismo, ya enterrado Ilucha, parte y esparce en pedacitos un pan murmurando: «Venid, volad aquí, pajaritos, volad gorriones», y pierde a cada rato el juicio y se desmaya y se queda como ido y luego vuelve en sí y comienza de nuevo a llorar, y se arrepiente de no haber dado a la madre de Ilucha una flor de su féretro y quiere ir corriendo a ofrecérsela, hasta que por último Aliocha, en un rapto de inspiración, al lado de la gran piedra en donde Ilucha quería ser enterrado, se dirige a los condiscípulos de éste y pronuncia el discurso en que les dice aquellas esperanzadas cosas relativas a que pronto se separarán, pero que de todos modos, cualesquiera que sean las circunstancias que tengan que enfrentar en la vida, no deben olvidar ese momento en que se sienten buenos, y que si alguna vez cuando sean mayores se ríen de ellos mismos por haber sido buenos y generosos, una voz dirá en su corazón: «No, no hago bien en reírme, pues no es esto cosa de risa», y que se lo dice por si llegan a ser malos, pero no hay motivo para que seamos malos, verdad muchachos, y que aun dentro de treinta años recordará esos rostros vueltos hacia él, y que a todos los quiere, y que de ahí en adelante todos tendrán un puesto en su corazón, con la final explosión de entusiasmo en que los niños conmovidos gritan a coro ¡viva Karamazov!; lectura que desarrollaba a un ritmo tal y tan bien calculado que los vivas a Karamazov terminaban exactamente con los últimos acordes de la sinfonía, para volver nuevamente a empezar según el efecto del ron lo permitiera, sobre todo que permitiera por último apagar el tocadiscos, tomar una copa final e irse a la cama, para ya en ella hundir minuciosamente la cabeza en la almohada y sollozar y llorar amargamente una vez más por Mitya, por Ilucha, por Aliocha, por Kolya, por Mitya.

a nível de

Ou porque quero compará-la com a minha, ou porque quero um exemplo moral: um destes dois motivos—ou talvez os dois ao mesmo tempo—é o que me leva a ler (auto-) biografias, perfis, diários. Sei dos limites do gênero e estou ciente de que toda empreitada que pretenda transformar uma vida em texto (linearizando-a, portanto) será muito mais ficcional do que jamais admitirá. Mas gosto, apesar disto. Ou, vai ver, justamente por causa disto. Geralmente, os dias em que me sinto mais inseguro quanto ao futuro, achando impossível imaginar como será minha vida daqui a alguns anos, são também aqueles em que fico mais suscetível a relatos biográficos; talvez porque ache que, do exercício de comparação que inevitavelmente vem logo em seguida, sairá alguma lição—ou, mais provavelmente, porque o encadeamento linear dos episódios, junto com a impressão (que, no fundo, sei falsa) de que na vida há certa ordem, sempre traz algum alento, momentâneo, impermanente. Só não funciona com Speak, Memory. Quanto mais leio, mais fico deprimido por me saber incapaz de produzir algo que seja parecido com 3,6% daquilo. Seja a nível de vida, seja a nível de texto.

dezembro 05, 2007

links

Perdi a paciência e tirei o link pro site de Dave Eggers, o Mcsuínos. Já fazia uns meses que o link tava ali, à direita deste travessão―mas, em todo este período, Dave Eggers, este milionário populista ingrato e fedorento, foi incapaz de retribuir a gentileza e linkar de volta pro meu blog, mesmo eu tendo lido aquele livro de memórias dele e achado não-ruim e recomendado pra alguns de meus amigos. De maneira que tirei o link, pra ele aprender a não ser tão metido a besta. Quem ele pensa que é? Alexandre Soares Silva?

Eu às vezes faço isso de retirar links, pondo outros no lugar. Hábito que se estende pra blogs de amigos, inclusive, porque cedo aprendi que, toda vez que o nível de qualidade de um blog de que eu gostava começava a cair, a crise passava mais rápido se eu protestasse tirando o link. Funciona na maioria dos casos. Fiz isso com Gabi, vocês devem ter reparado, durante aquele período em que ela parecia ter perdido a mão. Mas aí a ida pra São Paulo começou a fazer bem, ela voltou a blogar direito e o link retornou, faceiro e pimpão (e verde, hehe). Às vezes basta parar de assinar o feed do blog, é verdade, mas há situações mais graves que passam a exigir medidas mais drásticas. E aí só tirando o link mesmo.

Tome Luciano, por exemplo. Já estava beirando o insustentável quando resolvi tomar uma providência. Aproveitei minha revolta contra Dave Eggers e, no lugar do link pro blog dele, numa espécie de castigo pra que ele pare de fazer o que quer que esteja fazendo (comer, por exemplo) e volte a blogar, botei o novo endereço d'A Origem das Espécies. Vamos ver se agora ele toma jeito, hhmpf.

dezembro 04, 2007

Só pra te avisar que 1) a caixa bonitona do novo disco do Radiohead―te juro que mudo de assunto a partir de amanhã, cê vai ver―começou a chegar nas casas das pessoas e que 2) algumas delas já colocaram nos rapidshares da vida versões de mais de 400 kbits/s das músicas e que 3)―o mais importante―o cd bônus é massa.