drogadilheiros, uni-vos!
De cinco em cinco anos, anuncia-se a morte da Literatura, mas a arte que está prestes a bater as botas é outra: a Arte do Trocadilho. Parcela expressiva de meus amigos costuma encarar todo trocadilho como obra da cretinice humana, não importando o grau de elaboração―o que é deveras desolador. Mais desolador ainda é perceber que verdadeiros mestres na Arte do Trocadilho não recebem de seus contemporâneos o tratamento majestático merecido (daí os meses sem postar, acredito). Não sermos capazes de reconhecer a beleza de um trocadilho quando somos expostos a um é a maior prova de que nossas almas estão atrofiando sob o peso do filistinismo ubíquo, pensei eu hoje, num arroubo epifânico que me veio enquanto eu comia Fandangos, assistindo Malhação.

Mas de que valeria um post que pretende valorizar a Grande Arte do Trocadilho se nele inexistissem exemplos de? Muito pouco? Pouquíssimo?
Nada, eu diria. Não é por outra razão, portanto, que minha contribuição e―espero―a de outros artistas abnegados passam a ser reunidas na caixa de comentários a sudeste deste ponto final.
Comments
Tiago, segue abaixo minha contribuição pra sua campanha pró-trocadilho. Esse texto foi publicado há anos no JB e no meu livro 'What língua is esta?'. Abraço
Sérgio
O prazer proibido da língua
O que terá acontecido para que o trocadilho, cultivado por gregos, romanos e renascentistas, caísse em desgraça entre os modernos?
De vez em quando alguns trocadilhos aparecem nesta página, mas sempre escoltados por desculpas. Há pouco tempo brinquei com a semelhança entre as palavras acelerado e celerado, sem esconder a alegria de descobrir que ambas se aplicavam a motoristas apressadinhos. Semana passada arrisquei um pouco mais, misturando ketchup (molho) ao chutzpah (descaramento) de Jorge Bucha. Em ambos os casos, como sempre, a piada veio acompanhada de um pedido de licença meio constrangido. Claro, eu também conheço a máxima de que o trocadilho é a mais baixa forma de humor, indigna de freqüentar textos respeitáveis. Como gosto dele, apesar de tudo, a solução que encontrei para empregá-lo e manter a compostura lembra - imperdoavelmente - aquelas aspinhas que algumas pessoas desenham no ar enquanto falam: assinalar que o trocadilho só foi admitido na festa por liberalidade, um convidado rude que pode até ser divertido, mas com o qual não devemos nos misturar.
Eu acreditava realmente nisso até ler, dia desses, um artigo publicado em 1950 por Paulo Rónai, chamado “Defesa e ilustração do trocadilho” (salvo da poeira da história no livro Como aprendi o português, Editora Globo, ainda encontrável nas livrarias). Pena que tenha demorado tanto a descobri-lo. Conhecidos vinte anos atrás, os argumentos do erudito me poupariam um caminhão de desculpas envergonhadas por trocadilhos que, sendo bons achados, só deveriam ter me proporcionado orgulho. Rónai trocou a Hungria pelo Brasil no início da Segunda Guerra, fugindo da perseguição nazista. Trouxe na bagagem a melhor tradição humanista européia e um fino senso de humor. Não lhe falta autoridade para dizer que o trocadilho, “como a rima, inspira-se em semelhanças formais para apontar ao espírito associações novas, às vezes apenas divertidas, às vezes, porém, espantosamente sugestivas”.
Não, não estou querendo dizer que alguma das gracinhas sonoras que já perpetrei seja espantosamente sugestiva. Ficarei satisfeito se umas poucas forem divertidas. O importante é notar que Rónai dá ao jogo humorístico de palavras um lugar de honra ao lado da melhor poesia ao dizer que o elemento essencial do conceito é “a impossibilidade de traduzir o trocadilho para outras línguas”, o que o torna “ligado à substância íntima de cada língua”. É claro que de vez em quando, por sorte, o jogo de palavras, que em inglês se chama pun, pode até ser transposto para outro idioma. Na maioria dos casos, no entanto, não pode. Uma das exceções mencionadas pelo sábio húngaro deveria ser suficiente para convencer os céticos do pedigri nobre da coisa. Disse Jesus: “E também te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”. Espirituoso, não? Espírito Santo, ainda por cima. Hoje, o Papa nem pensaria em ser tão engraçadinho. O que terá acontecido para que o trocadilho, cultivado por gregos, romanos e renascentistas, caísse em desgraça entre os modernos?
Rónai responde com simplicidade: os excessos. Às vésperas da Revolução Francesa, um escritor medíocre chamado Marquês de Bièvre deliciava os salões parisienses com personagens que tinham, todos eles, nomes de duplo sentido como Comtesse Tation - ao mesmo tempo Condessa Tation e contestation. Aí veio uma contestação de verdade e guilhotinou essas bobagens. Desde então os trocadilhos sugerem preciosismo, frivolidade ou mau gosto, mas será que não chegou a hora de redimi-los? Não me espantaria se a dança lúdica de sons e sentidos fosse exatamente o que falta para que tantas gerações inimigas da leitura - uma coisa séria e chata, dizem - se reconciliem com os prazeres da língua. Os prazeres da língua, eu disse? Pois é, disse. E dessa vez não vou pedir desculpas.
Posted by: Sérgio Rodrigues | novembro 23, 2007 07:04 PM
http://wiki.cecm.usp.br/wiki/Drogadilho
Posted by: Rafael | novembro 11, 2007 12:04 PM
Sempre que penso em instituir a Ditadura do Protelariado resolvo deixar pra depois.
Posted by: tiago a. | novembro 2, 2007 10:40 PM