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post-festival philip roth

Philip Roth lançou livro novo: "Exit Ghost". Está sendo anunciado como a despedida de Nathan Zuckerman, o alter ego literário de Roth. Lançamento de livro de autor importante é bom porque nos permite ver os melhores críticos escrevendo a respeito. Christopher Hitchens faz isso na Atlantic desse mês. E na New Yorker da semana que vem, é a vez de James Wood, falando que Roth é poeta enrustido:

In fact, in this later, plainer work Roth often makes subtle poetry by using ordinary words in unexpected ways, or by mobilizing cliché, but he slips these phrases past us conversationally, almost before we have noticed them.

E por falar em Roth, o livro anterior, "Everyman", acaba de ser lançado no Brasil como "Homem Comum", tradução de Paulo Henriques Britto. Semana passada fui à livraria só pra ver como ficou o trecho em que o protagonista lembra dos jacarés que pegava no mar.* E está tudo lá: o ritmo, a subtle poetry de que fala James Wood, a emoção. Bendito Paulo Henriques Britto, deus te abençoe.

* A força dessa cena motivou um textículo que escrevi sobre "Homem Comum" para um site de amigos e que agora, com os reparos necessários para celebrar o lançamento no Brasil, repubico na extended entry:

Literatura & Previdência privada

Pela cabeça do Homem Médio de Vinte e Poucos Anos passa quase tudo menos a idéia de que ele vai ficar velho. Quem é, ou foi, um H.M.V.P.A. sabe do que estou falando. Dia desses, e. g., este resenhista, convencido de que é bom prever para prover, quis escolher um plano de previdência privada. Aprendeu algo importante. Se você por acaso quiser saber qual o melhor plano de previdência privada, não peça a opinião de um H.M.V.P.A. Porque, a menos que ele trabalhe num banco, sua pergunta corre o risco de soar tão exótica quanto um pedido para que ele cantarole algo do repertório de Jacques Brel.

Previdência privada e Jacques Brel é tipo tudo a mesma coisa para o H.M.V.P.A. — coisa de velho, e ele nada sabe sobre. Justifica-se. Nessa idade viver parece tão urgente que sobra pouco tempo para concluir que não se é jovem a vida inteira. Aos 30 e poucos anos, o protagonista de Homem Comum, de Philip Roth, continuava assim. Via a velhice como um futuro remoto.

Homem Comum, que acaba de ser lançado por aqui, deu a Roth seu terceiro prêmio PEN/Faulkner. É um livro curto: uma novela que começa pela cena do enterro do protagonista sem nome — aposentado do ramo publicitário, aspirante a pintor, três vezes divorciado, pai de dois filhos que o desprezam (frutos do primeiro casamento) e de uma filha que o ama (fruto do segundo) — e termina com sua morte aos 70 e tantos anos. Entre estes marcos, em pouco mais que uma centena de páginas, a estória de um homem que vai envelhecendo e ficando cada vez mais só enquanto enfrenta a luta contra a fragilidade e a precariedade do corpo. Uma luta que desde a cena inicial já se sabe quem vai vencer. “A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre”, lemos a certa altura.

Escrever sobre um livro que trata de um tema desses sem parecer estereotipado só não é tão difícil quanto escrever o tal livro sem incorrer nesse mesmo erro. Desconfio que seja o sonho de todo resenhista vencer o primeiro desafio com 1/3 da desenvoltura com que PR deu conta do segundo. Afinal, é fácil resvalar no clichê quando se fala da melhor idade. (Melhor idade? Perdi.) Mr. Roth, no entanto, não é nenhum neófito em seu ofício. Seu tom nesse livro pode até ter algo de pessimista, pode até fazer tocar na cabeça do leitor os acordes tristes da Les Vieux de Jacques Brel. Mas se mantém sóbrio do começo até o fim. Talvez só se produza algo assim, competentemente, depois que viver passa a ser se preocupar também com o pouco tempo que ainda resta — PR tem hoje 74 anos.

Roth escolheu não forçar a universalidade do protagonista, tampouco fazer dele uma alegoria do que é ficar velho. O que lemos é uma estória particular. Certo que o título original do livro (Everyman) fez muita gente, inclusive o incauto aqui, pensar que Roth quis criar um personagem que representasse o homem médio. Mas os pingos dos ii vieram numa entrevista que ele deu à NPR na época do lançamento. Segundo ele, seu protagonista sem nome só representaria o homem médio na medida em que, como todos nós, também assinou o contrato maldito por força do qual você nasce para viver — e morre. Mais: a intenção dele ao escolher o título era fazer menção a uma peça inglesa do século XV. A peça também se chama Everyman e nela o personagem-título, ao se ver diante do personagem da Morte, lamenta que ela tenha chegado quando ele menos esperava.

Determinado H.M.V.P.A. não vai esquecer tão cedo a passagem em que o protagonista de Everyman contempla o mar e lembra dos jacarés (não o bicho) que ele pegava ali quando era garoto. Por dias, este H.M.V.P.A. ficou pensando nesta cena e no fato de seu avô tanto insistir para que ele aproveite os dias da juventude. Na certa por saber que lembrar deles pode ser a parte mais agradável da velhice.

Comments

Como vocês podem perceber, tive o cuidado de lincar para uma crítica favorável e para outra desfavorável--eu sou unbiased.

Que vontade de largar tudo e ficar lendo Philip Roth e o que escrevem sobre Philip Roth

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