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Kelle,

Há um ano, redigi um post em que se encontrava exposto o que alguns psicanalistas julgarão ser as razões que informam o sentimento de inferioridade que se abate sobre mim toda vez que me vejo diante de mulheres muito altas (conforme revelação mais uma vez feita nos comentários ao último post). Acredito que você não o tenha lido e, por não ter a ilusão de que você lerá este aqui, reuni forças para me expor mais um pouco. Na época em que publiquei o post acima mencionado, alguns pensaram que o texto era ficcional, produto de minha imaginação. Eles duvidaram do meu amor, Kelly. Quero, pois, mostrar agora que—não obstante dois erros factuais—a estória relatada pelo post era tão genuína quanto meu amor por quem você era há 14 anos. Republico o post para oferecer um contexto à transcrição do documento histórico que trago logo após mais alguns poucos comentários:


Kelly

Apesar do nome, era lindíssima, e eu lembro com nitidez o dia em que a vi pela primeira vez, no pátio da escola, balançando soberanamente os cabelos presos num rabo de cavalo que revelava a penugem aloirada de sua nuca. Antes de sua aparição, eu era apenas mais um aluno inocente da 4ª série da Escola Menino Jesus de Praga a ignorar completamente onde ficava a Checoslováquia; depois daquele dia, passei a conviver com esta perplexidade que nos assalta toda vez que estamos diante de mulheres muito belas.

Creio que ela jamais notou a minha existência, nem o modo como eu a olhava na hora do recreio enquanto simulava concentração no jogo de bolas de gude. Vestia shorts jeans que lhe cobriam apenas metade das coxas e mantinham-se justos a sua cintura graças a um cinto singelamente enfeitado por figuras que já não consigo enxergar neste olhar retrospectivo, mas cujas cores ainda criam uma aquarela sem forma definida que vez por outra vem ornar meus sonhos.

Ela era um pouco mais alta que eu, o que só reforçava a sensação de inferioridade que me acometia toda vez que ensaiava me aproximar dela para perguntar a grafia correta de seu nome (e eu mudava de idéia no meio do caminho, parava e fingia amarrar os cadarços encardidos do meu Bical). Sem saber como escrevê-lo, jamais pude lhe entregar a carta em que confessava meu amor silencioso e que iniciava com as palavras "Minha querida e doce_______". Hoje, quando penso ter finalmente aprendido, é triste, K-e-l-l-y, que você não esteja entre os gentis leitores deste post que se tornou, portanto, ainda mais inútil.


Como eu disse, dois erros factuais aparecem neste texto. Não foi minha intenção inventá-los, e não me teria sido possível percebê-los se minha mãe não tivesse encontrado a aludida carta, na última visita que fez à casa de minha avó. Conforme a análise do documento revelará, o primeiro erro está contido no trecho que fala da série escolar que eu cursava na época: não era a 4ª, mas a 3ª, quando eu contava oito inocentes anos de idade. O outro equívoco está na confissão das primeiras palavras da missiva: elas não foram "Minha querida e doce_______", como me fez crer Mnemósine em conluio com Eros, mas tão-somente seu doce e mal-grafado nome: "Kelle". Infelizmente não poderei, ao menos por enquanto, mostrar-lhe a emoção que minha caligrafia da época registrava, mas a transcrição feita a seguir é a mais fiel e acurada que me é possível, dadas as presentes condições:


Kelle

Estou te escrevendo para tirar uma dúvida que aperta meu peito
Se você disse o não porque pensa que tenho a cabeça poluída se engana
E com o maior respeito que tenho pergunto:
— Você quer namorar comigo?


TE
AMO
MUITO
KELLE

TIAGO
DA 3ª serie

MARQUE UM X SIM NÃO

POR
FAVOR DIGA
SIM!

[coraçõezinhos desenhados]

Comments

hahahahahha, que arte viu

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