onde tiago a. discorda de andreis passarinho
andreis passarinho, do altamente derivativo, falou de Infinite Jest, dia desses. Tocou num ponto importante: dfw é mesmo um escritor moral. Não digo moralista porque a palavra tem conotações negativas, mas espero que você tenha entendido o que eu quero dizer. Se não entendeu, eu explico: o que eu quero dizer é que dfw é um escritor à Dostoiévski, daqueles que Nabokov detestava. E tenho quase certeza de que, se Nabokov estivesse vivo, ele ia detestar dfw, apesar do tanto que este deve àquele.
Como eu disse, essa é uma grande sacada e vale a pena ler o post de andreis por causa dela. É uma coisa que eu não vejo muita gente se dar conta. E no entanto, lá no finalzinho do post tem uma coisa com a qual discordo, uma parada que eu já vi outras pessoas defenderem. Não tenho muito tempo pra desenvolver meu argumento agora, mas vou citar um trecho do post lá ainda assim:
E a culpa é principalmente do próprio Foster Wallace, por ter meio que jogado o jogo que ele critica durante o livro inteiro. Soa sempre injusto culpar o autor pelas interpretações retardadas que fazem dele, mas você tem que fazer um esforço, quando se acredita que está ensinando certo e errado a alguém. Você tem saber que tipo de leitores o seu livro vai atrair, quem que vai aguentar as piruetas todas. Infinite Jest poderia certamente, ao menos, manter toda a sua estrutura em 600 páginas mais diretas, sem boa parte dos trechos que só estão lá porque são divertidos pra caramba (embora, em defesa deles, eles realmente sejam divertidos pra caramba). Teria que ser outro livro, absolutamente, com outro nome e o caramba, mas seria um romance melhor em todos os sentidos. Talvez não rendesse o hype todo, o folclore, tivesse outros leitores. Mas esse seria justamente o ponto.
Veja que eu ainda não terminei o Infinite Jest, mas já avancei o suficiente pra achar que a intenção de jogar o jogo que ele critica é um dos pontos altos do livro. É um grande jogo, muito bem montado, em que dfw critica o estado de coisas se valendo de elementos do próprio estado de coisas.
Não sei se me fiz entender. Tento de novo.
O livro é divertido justamente para botar o dedo na ferida do leitor que só espera ser entretido. E saber que o livro é, sobretudo, triste deixa o leitor inteligente (falo daquele que não está atento apenas às filuras) ainda mais reflexivo. Ele fica se repetindo Não, não era pra eu estar rindo dessas coisas.
Como em Pnin, tal.
O recado me parece ser precisamente este (veja que pretensão a minha: dizer qual o recado do Infinite Jest em um post de vinte minutos, Jesus): olha só, leitor, eu vou te contar uma tragédia, mas você está tão acostumado com o entretenimento e a televisão foi tão importante na formação da sua psique (olha o E unibus pluram aí) que é bem provável que você não perceba que a estória é uma tragédia e que queira ler o livro até o fim justamente por causa disso. Você vai ficar impressionado com a quantidade de vozes do livro, com as digressões, com a teoria dos jogos sendo explicada em uma nota de rodapé, e apesar de você, leitor, alguma coisa do que eu quero dizer vai ficar aí na sua cabeça, porque eu não passei três anos de minha vida escrevendo um livro de mais de 1000 páginas à toa. Eu queria dar um curto-circuito em você, ainda que você não estivesse plenamente consciente do fato de que estava rolando um curto-circuito em você, e eu duvido que eu não tenha conseguido, em algum nível.
Em resumo, Infinite Jest não seria um romance melhor sem as firulas. Simplesmente porque essa carga de subtexto aí não poderia ser dita de uma outra maneira.
Comments
É que, me parece, ele queria mais do que ditar a "lição". Afinal, não é à toa que tem esse monte de tese aí relacionando Infinite Jest com a Divina Comédia e o escambau. Pra mim fica claro que ele queria fazer um romance enciclopédico, e um romance enciclopédico precisa de espaço para criar o clima da auto-referencialidade, tal. Daí o mamute.
As piadinhas e trechos divertidos vêm muito daquela tentação dele de querer soar engraçado sempre--coisa que ele confessa naquela entrevista famosona, de antes do IJ, tá lembrado?:
[...] it sounded to me like a covert digest of my biggest weaknesses as a writer. One is that I have a grossly sentimental affection for gags, for stuff that's nothing but funny, and which I sometimes stick in for no other reason than funniness. Another's that I have a problem sometimes with concision, communicating only what needs to be said in a brisk efficient way that doesn't call attention to itself.
A verdade é que eu acho que um romance mais direto não seria um romance davidfosterwallaciano (:
(e, respondendo ao seu parêntesis, pra mim o mais bacana--e raro--é encontrar leitor brasileiro de dfw que queira conversar sobre.)
Posted by: tiago a. | outubro 23, 2007 10:52 AM
Eu entendo isso, e até pensei em combater esse ponto no próprio texto, logo depois de postá-lo.
Como empreitada estética estrita, você provavelmente está certo, o ponto dele se demonstra de forma ainda mais magistral com o romance que temos aí.
Agora, se falamos de um escritor moral, e de uma espécie de 'lição' a ser absorvida de um livro, como acredito que seja o caso, aí acho que a coisa se complica um pouco mais.
Acho que ele poderia, sim, ter comprometido o mamute final para fazer um romance mais direto. Eu concordo que ele jogar o jogo faz parte do ponto, mas até onde você consegue fazer isso de verdade? Jogar o jogo é jogar o jogo, ele mesmo confessa em entrevistas que coisas demais estão lá no livro só por serem engraçadinhas.
(ainda achando meio absurdo existir um post comentando um post meu, e muito bacana sempre encontrar brasileiro leitor do dfw :)
Posted by: andreis | outubro 22, 2007 03:49 PM