como fazer um post preguiçoso sem precisar recorrer a uma conversa de msn
Hoje não vou poder passar o dia aqui na internet, como é meu costume, pois vou precisar sair pra renovar o estoque do soro (pra quem não sabe, eu fico o dia inteiro no computador, me alimentado de soro intravenoso). De modo que o post de hoje vai ser só um trecho de um papo que eu tava/tou tendo com Lucas Murtinho sobre literatura, papel da crítica e chatice de um modo geral.
3 Notas importantes: 1) "Blá, blá, blá" é a indicação de trechos suprimidos. 2) "Fulano" é o autor que serviu de mote pra nossa conversa. 3) "Um Outro Fulano" é um sujeito que falou uma coisa que eu achei legal e citei no meio da conversa pra demonstrar erudição.
Lucas M.: Blá, blá, blá. E surge daí outra pergunta/provocação: qual é o papel do crítico diante de uma obra cujo projeto estético não atende às suas expectativas de leitor? Blá, blá, blá. Mais: sem ter acesso às intenções do autor, é possível distinguir a chatice que surje da falta de talento da chatice que surje de um projeto literário?
Tiago A.: Blá, blá, blá. Mas às suas perguntas.
A primeira é: “qual é o papel do crítico diante de uma obra cujo projeto estético não atende às suas expectativas de leitor?”
Minha resposta é: explicitar suas expectativas de leitor. Não valorizo crítica asséptica e crítico que não revela seus gostos, a tal da crítica cotada em estrelinhas. Daí que, pra mim, não existe esse negócio de “colocar o gosto pessoal em segundo plano e discutir os objetivos do autor”. Há que se colocar o gosto pessoal em primeiro plano à medida em que se discute o texto (não o autor–mais sobre isso adiante). Não sei desenvolver muito bem o tema assim, abstratamente, tal, então recorro ao exemplo de James Wood. A essa altura, todo mundo já deve ter ouvido falar da implicância dele com o estilo que ele apelidou de Realista Histérico, saco em que ele põe boa parte da literatura em língua inglesa contemporânea (Rushdie, Delillo, David Foster Wallace, Pynchon, Dave Eggers, Zadie Smith et. al.). Pois mesmo discordando dele, mesmo reconhecendo que o gosto dele não é o meu, eu não deixo de ler uma resenha dele que trate de um Realista Histérico. Ali está um cara com um gosto definido, que a todo momento está lhe dizendo Se liga que eu não gosto disso aqui não, mas que dá ao objeto da resenha uma atenção tão awesome que no final você acaba colhendo mais insights de uma resenha dele do que da maioria das resenhas da galera que efetivamente gosta daquele projeto estético. Não tem como terminar a leitura de uma resenha de JW e sair com a impressão de que o cara não leu a parada. Isso eu acho massa. Blá, blá, blá.^^
Divago. Voltando ao assunto, vou aproveitar minha implicância com essa ênfase sobre a figura do autor para responder àquilo que identifico como uma segunda pergunta no seu comentário: “sem ter acesso às intenções do autor, é possível distinguir a chatice que surje da falta de talento da chatice que surje de um projeto literário?”. Eu acho difícil e dolorosamente subjetiva essa parada de identificar intenção de autor. Tipo, Fulano veio aqui e prestou seu depoimento sobre o efeito que queria produzir. Mas quem me garante que ele está sendo sincero? Ou, ainda, quem me garante que ele sabe realmente qual o efeito que queria produzir? Quem me garante que esse não é um discurso elaborado depois de o livro ter sido escrito? Quem me garante que a intenção dele era essa e que permaneceu essa? (E veja que não há aqui ofensa nenhuma a Fulano–só desconfio da sinceridade dele na mesma medida em que desconfio da sinceridade de qualquer escritor, esses sujeitos que, como todos sabem, mentem pra viver, cujo trabalho tem por essência a mentira, no fundo sendo isso o que nos faz gostar tanto deles; a gente adora que eles mintam, que eles nos enganem, é o que a gente mais quer quando vai até eles né: minta pra mim, autor, mente aí, na boa.) Sacou mais ou menos o que eu quero dizer? É basicamente por isso que acho melhor se ater ao texto. Claro que não é desprezível o discurso que um autor formula sobre sua própria obra; como diz Um Outro Fulano, isso “pode balizar uma leitura, alterar o campo semântico de um texto, instruir o leitor a respeito de sua tarefa interpretativa”. Se bem que eu tenha dúvidas quanto a necessidade de um leitor ser instruído/tutelado em sua tarefa interpretativa, concordo com o grosso do que ele diz aí. Acho apenas que essa é uma tarefa secundária, que a tarefa principal é encarar primordialmente o texto, confrontá-lo/relacioná-lo com outros textos (noto agora que, falando assim de textos, textos, estou perigosamente soando como um estruturalista seborrento, coisa que eu não sou, viu, gente, eu sou limpinho, tomo banho, tal). E aí dá sim pra “distinguir a chatice que surje da falta de talento da chatice que surje de um projeto literário”. Falta de talento é um troço que fede, tu percebe pelo cheiro. Voltando a JW, direto ele diz isso quando tá falando de David Foster Wallace: “Aqui tem um gênio trabalhando, talentosíssimo, tal, mas cujo projeto, infelizmente, eu acho chato pra cacete”. Pra resumir, eu continuo achando que perscrutar consciências é coisa de psicanalista. E se ater ao texto é a maneira possível de ser objetivo nessa parada tão subjetiva que é a crítica, pelo menos essa é a minha opinião.

