vinte e sete de agosto
Antonio falou dessa livraria inúmeras vezes, perdi a conta. Das Mercês pra Piedade, indo direto, não tem erro, ele dizia, repetia, eu percorria, freqüentemente, o mesmo trecho, e nunca via, é quase um ponto cego, daqueles lugares em frente aos quais por mais que se passe, nunca se nota, eu, pelo menos, nunca notei, e, dentre as muitas coisas que eu nunca noto, fiquem certos, livrarias não estão, mas essa de que Antonio tanto falava, essa eu nunca tinha visto, até hoje, hoje eu vi. Hoje eu entrei e vi que não era bem uma livraria, que chamar aquele espaço de livraria seria elogio gratuito, existem sebos mais agradáveis, banheiros públicos mais agradáveis, Antonio contou que já houve época em que aquele lugar teve uns três andares, bem mais deprimente entrar nele sabendo disso, sendo testemunha do seu passado glorioso, de seu reinado soberano, ali, na Avenida Sete, mas o que é bom ele inda tem, basta procurar direito. É eterno balaio, balaio não, que vocês podem não saber o que é balaio, é saldão permanente. Muitos livros a cinco reais numa determinada parte do lugar, como o Machenka, que está bem mais feliz aqui, na minha estante, agora, do que lá, naquele lugar escuro, asseguro. Comprei mais alguns livros a cinco reais. O lugar era bem feio, tirando os livros, lembrava um depósito qualquer, me ocorre agora que aquilo lá não passa de um depósito, depósito de livros, e o volume de cartas de Elizabeth Bishop estava lá, sozinho, melancólico, se ele tivesse olhos, eu diria que ele me olhava com olhos tristes. Nem leio tanta poesia assim para me interessar por volumes de cartas de poetas cujos poemas não costumo ler, mas aquele lugar não merecia um livro desses, tão cheio de páginas traduzidas por Paulo Henriques Britto, tão bonito livro apesar do amarelado de suas páginas, ele não estava na parte determinada em que os livros custavam cinco reais, estava numa outra parte, onde, acho, os livros custavam mais um pouco. Fui ao caixa, consultar preços, pedir descontos, e a vendedora me perguntou de onde vinham os livros, ao que escutei a voz. Vinda não sei de onde. Me aconselhando, me induzindo, me aliciando a dizer que vieram todos dessa parte aqui, da determinada parte da livraria onde estava o Machenka, e eu sucumbi à voz, eu me deixei seduzir, eu disse, eu fiz como ela mandou. A vendedora disse que, neste caso, então, todos eram cinco reais, e eu comprei, e eu sabia que o de Bishop não tinha vindo de lá, sim, eu sabia, mas calei, e agora tudo o que eu quero saber é se a voz que ouvi lá, se a voz que me fez mentir, se aquela voz foi a voz de Deus, ou se foi a de Satanás.
Comments
neste lugar, por 5 reais, compramos nosso primeiro amós oz.
Posted by: c. | setembro 17, 2007 09:26 AM
'A vendedora cordial'?
Posted by: Ronald | agosto 28, 2007 11:45 PM
Hoje de manhã me pareceu muito significativo que o nome do estabelecimento onde se passaram os acontecimentos do post, o nome da quase-livraria, do lugarzinho feio, fosse Civilização Brasileira. Deve ter uma lição sobre o brasil nisso daí.
Posted by: tiago a. | agosto 28, 2007 06:11 AM