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agosto 30, 2007

a dialética erística de tiago a. ou my nights were sour/ spent with Schopenhauer

De antemão advirto que não nego a possibilidade de recondução do meu singelo estratagema a um dos 38 famosões, notadamente o VIII,1 o XVIII,2 o XXVII3 e o XXXIV.4

(Se quiserem extrair algum sentido de minhas sábias palavras, recomendo-lhes que acompanhem as notas de rodapé, que estão em inglês porque não tenho em mãos a versão brasileira. Pensando bem, se a tivesse, também não a citaria—que eu não sou besta. Não porque eu tenha qualquer ressalva a ela, ou porque duvide da capacidade intelectual de seu Anotador, não é nada disso. Receio apenas que a mera menção do nome do Anotador neste post dê a meus poucos e burros detratores a oportunidade de se valer do estratagema XXXII:5 conheço bem o caráter dessa gente, sei que não perderiam a chance de me tachar de você-sabe-o-quê, putting me into some odious category; aquela, a terminada em -ete. Juro que é só por isso que não a cito. Agora, depois desta minha manobra triunfante, que pôs de joelhos meus acéfalos inimigos, podemos ir ao que interessa e fechar este parêntese gigantesco.)

O singelo estratagema que proponho é o que segue. Sempre que seu oponente lhe fizer uma pergunta incisiva e você não tiver uma resposta convincente para ela—ou estiver com muita preguiça para elaborá-la—, tome um elemento central da pergunta formulada e peça para que ele o defina. E. g.: (1) “Blog é literatura?”, “Defina blog/literatura.”; (2) “O Estadão tem razão? Blogueiros são macacos?”, “Defina blogueiro/macaco.”; (3) “Meu bem, você me ama?”, “Defina amor.”

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1 This trick consists in making your opponent angry; for when he is angry he is incapable of judging aright, and perceiving where his advantage lies. You can make him angry by doing him repeated injustice, or practising some kind of chicanery, and being generally insolent.

2 If you observe that your opponent has taken up a line of argument which will end in your defeat, you must not allow him to carry it to its conclusion, but interrupt the course of the dispute in time, or break it off altogether, or lead him away from the subject, and bring him to others. In short, you must effect the trick which will be noticed later on, the mutatio controversiae. (See § XXIX.)

3 Should your opponent surprise you by becoming particularly angry at an argument, you must urge it with all the more zeal; not only because it is a good thing to make him angry, but because it may be presumed that you have here put your finger on the weak side of his case, and that just here he is more open to attack than even for the moment you perceive.

4 When you state a question or an argument, and your opponent gives you no direct answer or reply, but evades it by a counter-question or an indirect answer, or some assertion which has no bearing on the matter, and, generally, tries to turn the subject, it is a sure sign that you have touched a weak spot, sometimes without knowing it. You have, as it were, reduced him to silence. You must, therefore, urge the point all the more, and not let your opponent evade it, even when you do not know where the weakness which you have hit upon really lies.

5 If you are confronted with an assertion, there is a short way of getting rid of it, or, at any rate, of throwing suspicion on it, by putting it into some odious category; even though the connection is only apparent, or else of a loose character. You can say, for instance, "That is Manichasism," or "It is Arianism," or "Pelagianism," or "Idealism," or "Spinozism," or "Pantheism," or "Brownianism," or "Naturalism," or "Atheism," or "Rationalism," "Spiritualism," "Mysticism," and so on. In making an objection of this kind, you take it for granted (1) that the assertion in question is identical with, or is at least contained in, the category cited--that is to say, you cry out, "Oh, I have heard that before"; and (2) that the system referred to has been entirely refuted, and does not contain a word of truth.

agosto 27, 2007

vinte e sete de agosto

Antonio falou dessa livraria inúmeras vezes, perdi a conta. Das Mercês pra Piedade, indo direto, não tem erro, ele dizia, repetia, eu percorria, freqüentemente, o mesmo trecho, e nunca via, é quase um ponto cego, daqueles lugares em frente aos quais por mais que se passe, nunca se nota, eu, pelo menos, nunca notei, e, dentre as muitas coisas que eu nunca noto, fiquem certos, livrarias não estão, mas essa de que Antonio tanto falava, essa eu nunca tinha visto, até hoje, hoje eu vi. Hoje eu entrei e vi que não era bem uma livraria, que chamar aquele espaço de livraria seria elogio gratuito, existem sebos mais agradáveis, banheiros públicos mais agradáveis, Antonio contou que já houve época em que aquele lugar teve uns três andares, bem mais deprimente entrar nele sabendo disso, sendo testemunha do seu passado glorioso, de seu reinado soberano, ali, na Avenida Sete, mas o que é bom ele inda tem, basta procurar direito. É eterno balaio, balaio não, que vocês podem não saber o que é balaio, é saldão permanente. Muitos livros a cinco reais numa determinada parte do lugar, como o Machenka, que está bem mais feliz aqui, na minha estante, agora, do que lá, naquele lugar escuro, asseguro. Comprei mais alguns livros a cinco reais. O lugar era bem feio, tirando os livros, lembrava um depósito qualquer, me ocorre agora que aquilo lá não passa de um depósito, depósito de livros, e o volume de cartas de Elizabeth Bishop estava lá, sozinho, melancólico, se ele tivesse olhos, eu diria que ele me olhava com olhos tristes. Nem leio tanta poesia assim para me interessar por volumes de cartas de poetas cujos poemas não costumo ler, mas aquele lugar não merecia um livro desses, tão cheio de páginas traduzidas por Paulo Henriques Britto, tão bonito livro apesar do amarelado de suas páginas, ele não estava na parte determinada em que os livros custavam cinco reais, estava numa outra parte, onde, acho, os livros custavam mais um pouco. Fui ao caixa, consultar preços, pedir descontos, e a vendedora me perguntou de onde vinham os livros, ao que escutei a voz. Vinda não sei de onde. Me aconselhando, me induzindo, me aliciando a dizer que vieram todos dessa parte aqui, da determinada parte da livraria onde estava o Machenka, e eu sucumbi à voz, eu me deixei seduzir, eu disse, eu fiz como ela mandou. A vendedora disse que, neste caso, então, todos eram cinco reais, e eu comprei, e eu sabia que o de Bishop não tinha vindo de lá, sim, eu sabia, mas calei, e agora tudo o que eu quero saber é se a voz que ouvi lá, se a voz que me fez mentir, se aquela voz foi a voz de Deus, ou se foi a de Satanás.

agosto 23, 2007

Já que tocaram no assunto, deixa eu dizer que o Troféu A Mais Horrenda Capa de Revista do mês de agosto não vai para a piauí, como eu pensei que iria. Viram a Rolling Stone desse mês?

agosto 15, 2007

do que mais me impressiona em um determinado vídeo

O que mais me impressiona nesse vídeo que postei aí embaixo – o trecho de abertura do especial que João Gilberto gravou para a Globo em 1980 – não é o fato de já ter havido uma época em que se podia assistir a um recital1 de JG na TV aberta. Também não é o fato de Aquarela do Brasil ser totalmente recriada (repare nas palavras que JG suprime, no modo como ele evita os cacoetes que marcam a canção, nas alterações no andamento da música, em como no fim nem parece que o que você ouviu foi Aquarela do Brasil). Não, o que mais me impressiona também não é o fato impressionante de todas as sílabas serem conscientemente cantadas, de até o m da palavra “minha” poder ser ouvido distintamente (atenção para quando faltarem 52'' para o fim do vídeo). Tampouco é o combover de JG o que mais me impressiona nesse vídeo.

O que mais me impressiona é a maneira como o vídeo ilustra uma coisa que eu sempre comento com as pessoas mais próximas, as que têm que agüentar me ouvir falar de JG. É algo que você não consegue captar no disco se não estiver escutando com atenção, se estiver fazendo qualquer uma dessas coisas que você faz enquanto ouve um disco.2

O que mais me impressiona nesse vídeo é – bem, assista, é melhor. A coisa vai acontecer entre os intervalos 3’04’’-2’48’’, 1’34’’- 1’20’’ e 43’’-29’’.3 Experimente cantar juntinho pra ter uma idéia do quão difícil é fazer isto:

1 sim, agora que você sabe que eu sou um daqueles chatos que acham que show não é a palavra mais apropriada quando se está falando de JG, me processe por isso. Melhor: escreva um post reclamão no seu blog, me esculhambando.

2 se é que você é do tipo que ainda ouve discos, esse hábito tão anacrônico, tão 90’s.

3 a culpa pela contagem regressiva é do u-tube.

agosto 12, 2007

ainda não sei por que resolvi falar disso, mas

este mês vai ser difícil deixar de notar a capa da piauí nas bancas: um pôster soviético, que retrata Mao Tsé-tung apertando a mão de Stálin e segurando o livro vermelho, foi objeto de uma montagem que imprime o nome da revista sobre a capa do livro. Quando vi a tal capa pensei que pudesse se tratar de uma tentativa de repetir o efeito da de novembro, aquela, a do cartoon da New Yorker. Bem, não é. O conteúdo do tal do dossiê poder & política - com um perfil de Bruno Maranhão (!) e texto de Tariq Ali (!!) - afastou de vez a hipótese. Pra mim o recado ficou claro. piauí é esquerdinha.

Só recomendaria a revista por causa de um texto de Werner Herzog - aquele, o do tiro -, mas já que dá pra lê-lo aqui, economize a grana.

agosto 01, 2007

enquanto isso, do outro lado do muro (e do mundo)

Burocratas do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, mirem-se no exemplo filipino.*

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* aqui, a FILOSOFIA por trás disso tudo.