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sobre livros, estórias e calvície

A página 121 do livro que li ontem traz uma pequena mancha sobre a primeira sílaba da palavra ouvi. Conheço o leitor que veio antes de mim; fui eu que lhe dei o livro para que ele lesse primeiro. E, no entanto, apesar de ele ter me confessado que chorou recentemente, jamais poderei saber ao certo se a mancha da página 121 foi produzida por uma de suas lágrimas. Todo livro pode ser um depósito infinito de estórias. Começar a ler um livro com a intenção de lê-lo até o fim é se ver num ponto em que passado e futuro confluem no presente. O que está escrito já faz parte do passado de quem escreveu e de quem já tenha lido. O que ainda está por ser lido é também o futuro de quem agora se pôs a ler. Quem lê um livro que antes passou pelas mãos de outras pessoas está diante não apenas da estória contada pelo texto mas também de fragmentos das estórias dos leitores precedentes. Talvez seja por isso que gosto de ler livros riscados, por causa da oportunidade que eles me dão de conhecer uma estória a mais. Sempre fico a imaginar o perfil do leitor que me antecedeu e tento estabelecer com ele uma conversa imaginária. Desdenho de algumas passagens medianas que ele grifou e, algumas páginas mais adiante, me alegro de não ter sido o único a ter visto beleza e melancolia na ascensão aos ares do balão que se soltou das mãos da garotinha. Lembro que, certa feita, fui com uma pessoa a um sebo no centro da cidade, onde resolvi presenteá-la com uma coletânea de contos de Tchecov que já tinha sido o presente de alguém num passado recente. O livro estava praticamente novo: ou não tinha sido manuseado, ou havia sido lido com o cuidado dos que, como eu, cultivam o hábito de não formar ângulos obtusos ao abrir um livro. Trazia uma dedicatória assinada por um filho num segundo domingo de maio. Por que a mãe havia se desfeito do livro? Será que ela não gostava de literatura ou tudo não passava de um gesto pragmático de quem queria ceder a outros livros o lugar que aquele ocupava na estante? Seria aquele um ato de vingança contra a ingratidão de um filho? Mais um fragmento de uma estória que nunca se revelará por completo a ninguém. Como recentemente percebi que, aos poucos, meus cabelos estão começando a cair, não tem sido incomum que minha atenção seja desviada da leitura para um fio de cabelo meu que descreve uma curva sobre cinco linhas de texto. Um dia, o futuro leitor dos livros que leio hoje encontrará alguns destes fios. Será que, antes de removê-los, ele se dará conta de que tem nas mãos o depósito de minha juventude?

Comments

Quando eu estudava no Colégio Militar, desenhava o personagem como imaginava nas páginas em branco perto da capa e contracapa. Assinava e tudo. Gostava de fazer observações pequenas, mínimas. Fiz até inda pouco. Um Padre Amaro tem uma frasezinha lá na BCentral. Mas parei. Comecei a achar um pecado.
Eu também viajo muito nas anotações dos outros, mas raramente as encontro. Penso nos lugares por onde o livro passou, se ele viajou. Enquanto estão comigo, os livros vão para todos os lugares que eu vou, conhecem minha cama, meu trabalho, a faculdade e os lugares que freqüento. Uma loucura.
Amei o email. :)

vou te emprestar meu exemplar do morro dos ventos uivantes. nele você vai encontrar marcas que já nem lembro bem de que são - tem uma de suco de pêssego tomado num vôo da gol para ssa - e talvez seus olhos bem treinados até consigam perceber sinais de onde esteve, durante meses, um papelzinho rabiscado às pressas. era o telefone de uma rapaz que ao me dar o número afirmou: "não é cantada".
algumas mémorias guardadas em livros valem mais que a própria estória contida neles...

Eu sempre passo as mãos, mecanicamente, sobre as páginas lidas. Talvez pra esconder melhor alguma história que ficaria evidente demais pra quem lesse depois.

E eu nunca risco livros, nunca marco nem grifo. Quando algo me interessa muito, copio para um caderno qualquer, onde eu jamais lerei novamente, mas que me dá a satisfação de ter notado aquilo - aquela frase de que não me lembro, mas que me deixou feliz enquanto eu lia.

Abraço.

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