a ironia não é mais o novo cool
Em E unibus pluram: television and U.S. fiction David Foster Wallace fala de um monte de coisas, dentre as quais a principal me pareceu ser o modo e a medida em que a ironia no comportamento da juventude americana é produto da televisão e da cultura que elegeu a tv como oráculo moderno. O argumento dele é muito extenso pra ser mostrado aqui, agora, enquanto escovo os dentes, mas uma versão grosseira e humilde e superficial poderia dizer que, sempre a fim de garantir sua viabilidade, a tv i) absorveu auto-criticamente as táticas dos pós-modernistas dos 60s, 70s e early 80s (Pynchon, Delillo, essa galera), ii) se tornou o meio irônico por excelência, tanto nos programas quanto nos comerciais, e iii) completando o ciclo, influenciou profundamente os ficcionistas americanos da geração do próprio dfw.
A coisa toda, se li direito, teria acontecido mais ou menos assim: pra manter e aumentar sua audiência, a tv teve que se reiventar e se distanciar do modelo que predominou nos seus primeiros anos, modelo que podemos chamar aqui de sincero. Como a primeira infância da tv coincidiu com um monte de desgraça na vida política dos eua (vietnam, watergate), a postura sincera teve de ser abandonada porque passou a ser vista como hipócrita, o que levou a tv a se valer da melhor arma até então inventada pra combater a hipocrisia - ela, a ironia.
Vejam que eu falei da causa, mas não falei do objetivo que a tv tinha quando adotou a ironia como tábua de salvação. Vocês vão me perdoar, mas acho que esse é o ponto alto do artigo e prefiro que vocês tenham a oportunidade que eu tive de ser levado até ele pelo próprio dfw.* O fato é que a tv utilizou a ironia à exaustão até ela passar de recurso de guerrilha a traço comportamental do jovem americano médio da época em que o artigo foi escrito (early 90s), o qual, passando seis horas diárias na frente da tv, uma hora ou outra haveria de ter sua psique alterada por essa overdose. Por causa disso e do dado que eu propositadamente omiti, a ironia se tornou no novo cool.
Sucedeu de alguns desses americanos também serem ficcionistas e enxergarem na tv uma maneira de levar a cabo suas pesquisas comportamentais sem precisar arcar com o ônus de estar em contato com seres humanos de verdade. O problema todo surgiu quando essa geração de ficcionistas quis criticar aquele estado de coisas e dar o troco à tv na mesma moeda da ironia, pois a essa altura a própria tv já tinha se especializado no discurso irônico, já tinha se fechado em si mesma, já estava, digamos, vacinada, de sorte que o máximo que qualquer discurso irônico que viesse de fora ia conseguir fazer nela era cosquinha. Daí porque dfw conclui que os escritores que quiserem combater esse bom combate só vão ser capazes de fazer isto se retornarem o quanto antes à postura sincera, ela, sim, o novo novo cool.
O artigo é gigantesco, e eu estava querendo ler há muito tempo, principalmente porque tinha ouvido falar que a análise de dfw não demoniza a tv, o que é verdade. Eu só estava esperando o dia em que a internet ia me mostrar uma versão que ao menos estivesse dividida em parágrafos, o que aconteceu anteontem, aqui (é divertido fazer o cadastro com os dados tudo errado; dá certo do mesmo jeito, =]). Creio não precisar dizer que vale muito a pena clicar e ler, mas, ainda assim, só pra garantir, aproveito que essa é a última linha do post e digo que vale muito a pena clicar e ler.
Comments
Ah, por capricho, Tiago. As coisas são como eu quero que sejam, e eu gosto de ironia bem aplicada (não li o artigo, ainda, too damn huge, além de eu ter medo de mudar de idéias por aí, como uma prostituta muda de parceiro).
Mas abraços, abraços.
Posted by: Gustavo | maio 23, 2007 10:36 PM
Hey, Saymon Man, valeu pelo linque (lerei). Mas não é irônico que você o estivesse lendo; é coincidência, que é algo diverso. Tem um artigo massa sobre isso, clicando no meu nome.
E, Gustavo, por quê?
Abraços
Posted by: tiago a. | maio 23, 2007 09:21 PM
Novo ou velho, ironia continua cool.
Posted by: Gustavo | maio 23, 2007 08:53 PM
Irônico, tava lendo isso aqui: http://www.revistacinetica.com.br/porquebbb.htm
Aliás, texto nada irônico.
Posted by: Saymon Nascimento | maio 23, 2007 04:08 PM