maio, 2007 Archives

31
mai

lerei

by tiago a. in Uncategorized

Trecho sem título de algo maior que ainda nem chegou perto de ser tido como parcialmente terminado. Por David Foster Wallace. Aqui (em pdf, 8 páginas).
update: Caso se confirmem os boatos de que o algo maior que ainda nem chegou perto de ser tido como parcialmente terminado será o novo romance de DFW, podemos ir nos preparando para dar umas boas risadas. Esse trecho do linque é a mais engraçada peça de ficção dele que eu já li. É a estória de um auditor fiscal oprimido por um bebezinho, filho do chefe. Se você é burocrata, faça questão de lê-la no trabalho.

29
mai

é vaia, é aplauso ou?

by tiago a. in Uncategorized


Depois do salto, outra sessão de apupos.

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27
mai

sobre livros, estórias e calvície

by tiago a. in Uncategorized

A página 121 do livro que li ontem traz uma pequena mancha sobre a primeira sílaba da palavra ouvi. Conheço o leitor que veio antes de mim; fui eu que lhe dei o livro para que ele lesse primeiro. E, no entanto, apesar de ele ter me confessado que chorou recentemente, jamais poderei saber ao certo se a mancha da página 121 foi produzida por uma de suas lágrimas. Todo livro pode ser um depósito infinito de estórias. Começar a ler um livro com a intenção de lê-lo até o fim é se ver num ponto em que passado e futuro confluem no presente. O que está escrito já faz parte do passado de quem escreveu e de quem já tenha lido. O que ainda está por ser lido é também o futuro de quem agora se pôs a ler. Quem lê um livro que antes passou pelas mãos de outras pessoas está diante não apenas da estória contada pelo texto mas também de fragmentos das estórias dos leitores precedentes. Talvez seja por isso que gosto de ler livros riscados, por causa da oportunidade que eles me dão de conhecer uma estória a mais. Sempre fico a imaginar o perfil do leitor que me antecedeu e tento estabelecer com ele uma conversa imaginária. Desdenho de algumas passagens medianas que ele grifou e, algumas páginas mais adiante, me alegro de não ter sido o único a ter visto beleza e melancolia na ascensão aos ares do balão que se soltou das mãos da garotinha. Lembro que, certa feita, fui com uma pessoa a um sebo no centro da cidade, onde resolvi presenteá-la com uma coletânea de contos de Tchecov que já tinha sido o presente de alguém num passado recente. O livro estava praticamente novo: ou não tinha sido manuseado, ou havia sido lido com o cuidado dos que, como eu, cultivam o hábito de não formar ângulos obtusos ao abrir um livro. Trazia uma dedicatória assinada por um filho num segundo domingo de maio. Por que a mãe havia se desfeito do livro? Será que ela não gostava de literatura ou tudo não passava de um gesto pragmático de quem queria ceder a outros livros o lugar que aquele ocupava na estante? Seria aquele um ato de vingança contra a ingratidão de um filho? Mais um fragmento de uma estória que nunca se revelará por completo a ninguém. Como recentemente percebi que, aos poucos, meus cabelos estão começando a cair, não tem sido incomum que minha atenção seja desviada da leitura para um fio de cabelo meu que descreve uma curva sobre cinco linhas de texto. Um dia, o futuro leitor dos livros que leio hoje encontrará alguns destes fios. Será que, antes de removê-los, ele se dará conta de que tem nas mãos o depósito de minha juventude?

25
mai

*sigh*

by tiago a. in Uncategorized

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Marilyn Monroe lendo Ulisses – o livro, não o blogueiro.

23
mai

a ironia não é mais o novo cool

by tiago a. in Uncategorized

Em E unibus pluram: television and U.S. fiction David Foster Wallace fala de um monte de coisas, dentre as quais a principal me pareceu ser o modo e a medida em que a ironia no comportamento da juventude americana é produto da televisão e da cultura que elegeu a tv como oráculo moderno. O argumento dele é muito extenso pra ser mostrado aqui, agora, enquanto escovo os dentes, mas uma versão grosseira e humilde e superficial poderia dizer que, sempre a fim de garantir sua viabilidade, a tv i) absorveu auto-criticamente as táticas dos pós-modernistas dos 60s, 70s e early 80s (Pynchon, Delillo, essa galera), ii) se tornou o meio irônico por excelência, tanto nos programas quanto nos comerciais, e iii) completando o ciclo, influenciou profundamente os ficcionistas americanos da geração do próprio dfw.
A coisa toda, se li direito, teria acontecido mais ou menos assim: pra manter e aumentar sua audiência, a tv teve que se reiventar e se distanciar do modelo que predominou nos seus primeiros anos, modelo que podemos chamar aqui de sincero. Como a primeira infância da tv coincidiu com um monte de desgraça na vida política dos eua (vietnam, watergate), a postura sincera teve de ser abandonada porque passou a ser vista como hipócrita, o que levou a tv a se valer da melhor arma até então inventada pra combater a hipocrisia – ela, a ironia.
Vejam que eu falei da causa, mas não falei do objetivo que a tv tinha quando adotou a ironia como tábua de salvação. Vocês vão me perdoar, mas acho que esse é o ponto alto do artigo e prefiro que vocês tenham a oportunidade que eu tive de ser levado até ele pelo próprio dfw.* O fato é que a tv utilizou a ironia à exaustão até ela passar de recurso de guerrilha a traço comportamental do jovem americano médio da época em que o artigo foi escrito (early 90s), o qual, passando seis horas diárias na frente da tv, uma hora ou outra haveria de ter sua psique alterada por essa overdose. Por causa disso e do dado que eu propositadamente omiti, a ironia se tornou no novo cool.
Sucedeu de alguns desses americanos também serem ficcionistas e enxergarem na tv uma maneira de levar a cabo suas pesquisas comportamentais sem precisar arcar com o ônus de estar em contato com seres humanos de verdade. O problema todo surgiu quando essa geração de ficcionistas quis criticar aquele estado de coisas e dar o troco à tv na mesma moeda da ironia, pois a essa altura a própria tv já tinha se especializado no discurso irônico, já tinha se fechado em si mesma, já estava, digamos, vacinada, de sorte que o máximo que qualquer discurso irônico que viesse de fora ia conseguir fazer nela era cosquinha. Daí porque dfw conclui que os escritores que quiserem combater esse bom combate só vão ser capazes de fazer isto se retornarem o quanto antes à postura sincera, ela, sim, o novo novo cool.
O artigo é gigantesco, e eu estava querendo ler há muito tempo, principalmente porque tinha ouvido falar que a análise de dfw não demoniza a tv, o que é verdade. Eu só estava esperando o dia em que a internet ia me mostrar uma versão que ao menos estivesse dividida em parágrafos, o que aconteceu anteontem, aqui (é divertido fazer o cadastro com os dados tudo errado; dá certo do mesmo jeito, =]). Creio não precisar dizer que vale muito a pena clicar e ler, mas, ainda assim, só pra garantir, aproveito que essa é a última linha do post e digo que vale muito a pena clicar e ler.

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* A dica que posso dar é que tem a ver com a necessidade de criar uma empatia com o telespectador; mais não vou dizer. O que posso assegurar é que, depois de ter lido o artigo, jamais vou conseguir deixar de pensar duas, três, catorze vezes antes de fazer qualquer coisa que possa parecer gratuitamente irônica.
22
mai

academicização = fim

by tiago a. in Uncategorized

Na Prospect, leio

The last 30 years have seen the effects of turning novel writing into an academic profession with a career path. As they became professional, writers began to write about writers. As they became academicised, writers began to write about writing. And the language of the American literary novel began to drift away from anything used by human beings anywhere on earth. Thirty years of the feedback loop have led to a kind of generic American literary prose, instantly recognisable, but not as instantly comprehensible. Professions generate private languages designed to keep others out. This is irritating when done by architects. But it is a catastrophe for novelists, and the novel.

Essa crítica aos cursos de creative writing, sozinha, já valeria o artigo todo, mas ele ainda defende a volta do cômico na literatura pra fazer frente à desgraça que é ver a generalidade dos autores contemporâneos não conseguir/querer tratar de grandes temas senão num tom trágico. E leiam este post também (o autor do artigo apareceu nos comentários).

19
mai

don delillo inventou o onze de setembro

by tiago a. in Uncategorized

He has been insisting for as long as he’s been writing that humanity has turned into a mass-organism, twitching with the plots and conspiracies hatched by loners desperate for connection, and so 9/11 itself stands, perversely, as the high point of his career or at the very least the fulfillment of all his foreboding. It was a day he himself might have authored, “DeLilloesque” not only as the end-point of a conspiracy but as a mass-event witnessed by billions, and who could see the Falling Men and the Falling Women — the people who jumped, and were swallowed by the horrific discrepancies of scale — without conceding that DeLillo had gotten it right?

Trecho de resenha do novo livro de Don Delillo (The Falling Man) assinada por Tom Junod, autor do artigo que deu título à foto que deu título ao livro.

17
mai

non non non

by tiago a. in Uncategorized

“M. Gil a tenu présenter ses chansons en français bien que ce ne soit clairement pas une langue où il soit à son aise.” (daqui)

Peço perdão por lincar para blogs franceses, uma das coisas mais hediondas que já foram inventadas, mas seria bom se certas coisas chegassem aos ouvidos da afinação da interioridade de M. Gil, que insiste em querer falar francês em toda oportunidade que encontra. Campanha Fala Português, M. Gil. Pelamordedeus.

16
mai

Donaudampfschifffahrtsgesellschaftskapitänsmützenfabrik

by tiago a. in Uncategorized

No ano passado eu fui numa festa de aniversário de uma mulher que era casada com um alemão. Eles moravam num bairro antigo da cidade e o apartamento era bastante agradável; devia ser porque o alemão era arquiteto. Assim que cheguei vi a estante de livros que ficava em destaque na sala e por um bom tempo fiquei admirando as lombadas, quase tudo em alemão. Alguns convidados falavam alemão, no som, volta e meia, tinha música alemã – foi uma festa alemã, pode-se dizer. Tinha uns convidados brasileiros também, mas eles não eram nada interessantes e pareciam só estar esperando a deixa pra sambar, que é o que brasileiro sabe fazer de melhor quando vê gringo. Então fiquei a maior parte da festa sentado, bebendo e rindo prum ponto indefinido na parede. A certa altura me cansei um pouco daquilo e saí pra varandinha, de onde dava pra ter uma visão geral do bairro. Sentei perto de uma janela e fiquei lá, olhando pro vazio, até que um guri de uns 5 anos veio, tentou fechar a janela e deu com ela em minha cabeça. Quis xingar o miserável e reagir como qualquer um que recebe uma janelada na cabeça, mas como o guri estava todo bem vestido, achei ele bonitinho e sorri. O guri não achou graça nenhuma, na certa porque queria fechar a janela e minha cabeça não deixou. Daí, eu insisti no sorriso e ingenuamente perguntei, “Que foi?”, e ele respondeu, “Ich datsch ein deubschwüterland!”.* Deixei o sorriso de lado e, mais uma vez em português, expliquei que não tinha entendido nada. Ele me olhou com um sentimento que me pareceu de desprezo, virou a cara e foi embora. Fiquei depois pensando na experiência toda, que foi bem opressora pra mim, e acho que foi por causa dela, por causa do ar de superioridade daquele menininho que eu decidi que um dia eu ia dar um jeito de aprender alemão.
OK, Tiago, muito legal, muito legal mesmo. Só vou pedir pro resto da turma tentar ser um pouquinho mais breve, OK, turma? Certo? Ok, vamos continuar então. E você, Felipe, por que você resolveu aprender alemão?
Ah, professora, o mercado exige, né?

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* É gibberish.
15
mai

nsfw

by tiago a. in Uncategorized

Tendo a concordar com Rota. Blogueiros menores sempre tentarão preencher o vazio existencial de seus blogs com vídeos do u-tube. Definitivamente, essa gente só aprenderá a blogar direito depois de ver isto*: How to blog.

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* que é uma paródia disto. Recadinho para as pessoas que fazem esses vídeos: vocês estão todos completa e irremediavelmente loucos.