Sempre que deparo com um post em que o blogueiro ou a blogueira*, depois de ter anunciado que sonhou um sonho qualquer, passa a narrá-lo nos mínimos detalhes, tenho basicamente duas reações. A primeira é duvidar de que alguém foi capaz de se lembrar do sonho que teve, porque comigo isso só acontece muito raramente, e a segunda (conseqüência da primeira) é pensar, Ok, beleza, isso só pode ser ficção, então por que não vir e narrar a estória de uma vez sem precisar se justificar, dizendo que foi tudo um sonho? Tá com vergonha de quê, fio?
Dia desses, porém, me ocorreu que o motivo de ele ou ela* precisar desse tipo de desculpa está num outro lugar. Está na plataforma, no blog itself. Como as pessoas** se acostumaram a ver blogs como diários e reagem com estranheza quando um post não trata dos pormenores da interessante vida do blogueiro ou da blogueira*, se um dia o blogueiro ou a blogueira* quiser ensaiar uma prosinha tipo assim ficcional, causará menos espanto se, no primeiro parágrafo, ele ou ela* disser, Ô, pessoal, pesso-a-al, ó eu aqui ó; sabe, ontem eu tive um sonho bem estranho, estranho mesmo, putz, muito sem noção - desta maneira advertindo desde o início que tudo aquilo aconteceu de verdade, só que na cabeça dele ou dela* enquanto ele ou ela* dormia.
Bem, esse não é o meu caso, pois eu não tenho a pretensão de ensaiar prosinha tipo assim ficcional em lugar nenhum.*** Por isso, posso garantir que o sonho que narro no parágrafo seguinte é verídico, ou seja, ele aconteceu de verdade na minha cabeça enquanto eu babava nos braços de Morfeu. Eu lembrar de um sonho que tive é um acontecimento extraordinário, portanto bem vale um post. Se bem que acontecimentos ordinários também valerão posts por aqui, mas enfim, passemos ao sonho de uma vez.
Nesse meu sonho, havia uma blogueira que mantinha um blog que eu, no sonho, adorava muito ler. Essa garota escrevia anonimamente - a informação de algum modo também estava presente no sonho. O blog dela não é nenhum blog que realmente exista; no sonho, não me perguntem como, eu tinha certeza de que jamais seria capaz de encontrá-lo quando acordasse. A garota que mantinha o blog do meu sonho fez um vídeo caseiro desses de u-tube e postou. Certo que não costumo clicar nesse tipo de coisa, mas no sonho eu clicava, não sei por quê. O tal vídeo era tipo um clipe de uma música de Elliott Smith, e não existe a menor chance de que eu lembre qual era, só sei que a música era dele porque, apesar de a garota estar realmente cantando (e a voz dela era bem doce), dava pra ouvi-lo, baixinho, ao fundo. Era uma música meio dançante, e a garota dançava e girava e dançava e girava e dançava. A imagem estava propositadamente embaçada de maneira a não nos, digo, me permitir identificar quem era a garota, e uma luz bonita entrava pela janela e se projetava contra ela, envolvendo sua cabeça com aquele halo característico; você deve ter visto algo parecido nalgum desenho da Disney. Mas o mais impressionante de tudo era que, enquanto a garota girava, parecia que, num giro, ela era uma garotinha de, tipo, uns dez anos, e no outro, uma garota de 20 e poucos. O cabelo dela era preto e comprido, a televisão da sala onde ela gravou o vídeo estava ligada, e esse, pesso-a-al, foi o sonho que eu tive essa noite.
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* Um dos meus programas favoritos é passar tardes inteiras lendo textos de teoria crítica feminista. Isso me ensinou que você precisa dizer blogueiro ou blogueira, ele ou ela, se não quiser que sua prosa fique, tipo, logofalocêntrica, característica que denota que o autor (i. e., você) escreve pensando em pau.
** É óbvio que falo aqui das pessoas que não mantêm blogs porque as pessoas que mantêm blogs geralmente são muito espertas e sabem que há blogs que se afastam do modelinho diário.
*** A verdade é que, quando eu era criança, tudo o que eu mais queria na vida era ser ficcionista, mas não pude, não poderei - minha mãe não me deu Nescau suficiente na época – de modo que, aos 15 anos, praticamente já tinha desistido do meu desejo infantil de viver para narrar estórias e manter gostosas rainhas assassinas acordadas noites e noites seguidas sem matar ninguém.