Estamos no Rio. Constato que o Galeão está pior que a Rodoviária de Salvador. O primeiro contato com a fauna local se estabelece quando passamos pela moça que recebe o ticket do estacionamento. Sem se importar com os clientes, ela faz algum comentário sobre uma prótese de silicone e em seguida quase grita, "A bunda da Manoela―caralho!" Ficamos curiosos, querendo saber se Manoela pôs silicone na bunda ou o quê. Biscoito Globo é só um avoador metido a besta que custa dois reais. Que bom que hoje não está chovendo; amanhã, quando nos encontrarmos, Igor dirá que choveu a semana toda.
Vamos buscar os ingressos na Sapucaí. Pessoas que vão assistir aos shows, daqui a oito horas, já estão fazendo fila. Não há fila para a compra de ingressos, porém. Ficamos sabendo depois que a totalidade dos ingressos não foi vendida e que Los Hermanos receberam muito dinheiro para topar fazer essa reunião, último recurso de que lançou mão a organização do festival "Just a Fest" para chamar público, que será de apenas 24 mil pessoas, informará o jornal de domingo. "Compraram ingressos pela internet?", pergunta o segurança, "Por aqui, então. Nesse tapete vermelho." Tapete vermelho. Agora só nos falta-nos o gramour.
Ingressos na mão, decidimos comer. Pegamos o metrô, ao qual me afeiçoo. Ao chegar no shopping, decidimos que, primeiro, vamos beber. Gente sensata não acorda às três da manhã, tendo dormido pouco mais que quatro horas, pega um voo às cinco, sem tomar café, e antes de almoçar toma quase dois litros de cerveja. Cumpre dizer, portanto, que não somos sensatos. Só almoçaremos quando a falta de alimento já estiver trazendo séria ameaça de desmaio a um de nós.
Voltamos pra casa. Urge dormir, e dormimos. Porque não acreditamos em pontualidade carioca, sairemos com um pouco de atraso e chegaremos à Sapucaí por volta das 19h30, a tempo de assistir meio show dos Los Hermanos e ouvir parte daquela que, saberemos mais tarde, foi apenas a segunda vez que Cher Antoine foi executada ao vivo por essa banda de barbados que neste momento toca, melancolicamente, para uma Sapucaí quase vazia. Dias depois, dois de nós conversarão sobre a singela letra dessa canção, que foi composta por um sujeito que iniciava seus estudos de francês e que não quer dizer senão isto: "Caro Antoine, lamento profundamente, mas não vou poder ir com você. Tenho que trabalhar do dia 20 ao 24. Tenho quatro dias de folga. Vou pro interior, viajar de trem pelas montanhas, um trajeto adorável! Vou à praia com os amigos. Vou praticar esportes, e depois, vou esquiar." Um de nós se perguntará por que é que a parte em francês dessa música faz mais sentido que a parte em português ("Feito pra mim, bom pra você, deixa mudar e confundir. Deixa de lado o que se diz, tem no mercado, é só pedir, me faz chorar e é feito pra rir."), porém não chegará a conclusão alguma.
Estamos nos aproximando das catracas, onde coletarão nossos ingressos e não quererão ver o documento de identificação estudantil que confere a um de nós o direito de pagar cem reais, e não duzentos, para estar ali. Ficamos com a sensação de que desperdiçamos trezentos reais, e isso muito nos custará, pois tudo aqui é muito caro. Para beber 300ml de água, será preciso se desfazer de três reais. Na arquibancada, de onde assistiremos os shows, os mesmos 300ml de água custarão cinco reais, mesma quantia que estão cobrando por uma lata de cerveja. O som dos Los Hermanos está muito baixo, e a iluminação do palco lembra um show de colégio. Por que será que fazem isso com as bandas de abertura? O show não corresponde a minhas expectativas, Kraftwerk também não me empolga, e quando eu já estou começando a achar que fiz mau negócio, Radiohead entra no palco. Ouve-se, em português, o anúncio "somos Radiohead", feito por um dos integrantes da banda. Pelas próximas duas horas, assistirei ao show mais bonito a que já pude comparecer. Nos telões projetam-se imagens; são porções dos corpos dos músicos: uma cabeça, um braço. Sobre o palco, acima da banda, há agora o que parecem ser estalactites de luz. Eu nunca vi coisa parecida. É tudo muito bonito. O som está bem mais alto e muito bom. Quer dizer, quem está aqui na arquibancada percebe um pequeno problema, pois ele sai do palco, atravessa a Sapucaí, choca-se contra uns paredões de concreto e retorna, ou seja, eco―que merda. Tirando isso, o show vai ser épico. Vai valer cada real gasto, e quando voltarmos pra casa, estaremos certos de que assistimos a um espetáculo de primeira grandeza.
Dormimos e acordamos. É sábado. Ligo para Igor. É Cíntia que atende. Marcamos de nos encontrar no shopping. Quando eu tiver um filho, quero que ele seja igual a Davi, que ele não pare quieto, que me pergunte se eu conheço a música do camarão, que diga coisas como "eu era Botafogo mas agora eu sou Flamengo porque se não meu pai disse que eu não vou ganhar a piscina de minha mãe". Grande garoto. Família bonita. Nós vamos ficar lá, conversando e rindo, até as 18h. Vai ser uma tarde muito agradável, ao fim da qual Igor ouvirá a promessa de que não beberá Schin quando vier a Salvador.
Nós agora estamos no metrô, indo para Copacabana, a fim de encontrar o rapaz que atendia pela alcunha de Marcelo Rota. A Rua Tonelero nos recorda a figura de Carlos Lacerda. O Sujeito Que Era Marcelo Rota―neste texto, doravante, um acrônimo―chega acompanhado de Pedro, pianista gente-boa. Marcus chega logo depois. Vamos para o bar. SQEMR não bebe, mas fuma que é uma beleza. O Fluminense está jogando, e SQEMR, pó-de-arroz, confessa que nem sabia. Pedimos batata-frita, cerveja e refrigerante. Falamos de Cormac McCarthy e do Big Lebowski e de João Antônio e de Joe Gould. Nos sentimos bem, na presença um dos outros. SQEMR propõe que passeemos no calçadão que orla a praia―além do sambódromo, este será o único ponto turístico que visitaremos. A noite está como a tarde, agradável. Passamos pelo monumento aos 18 do Forte, onde bananas jazem inexplicavelmente. Calling it a night, voltamos para casa.
Dormimos e acordamos, de novo. O domingo está feio. Nublou-se o céu. Hoje não vamos fazer nada digno de nota. Voltaremos pra Salvador à noite. (Apertemos o botão de fastforward para que anoiteça logo. Pronto: é noite.) Estamos no taxi, rumo ao Galeão. Estamos passando pelas imediações do Maracanã agora. O taxi―com a gente dentro―por pouco não vai ficar preso no meio do conflito que dezenas de flamenguistas e vascaínos ali conflagrarão. Mais cinco segundos, e aqui haveria um relato ensanguentado. Ainda no taxi, ouvindo o jogo, damos muita risada quando o locutor narra, "Que ótima arrancada de Léo Lima, conduzindo a bola pelo meio-de-campo! Lá vem ele! Lá vem ele! Pode ser agora, pode ser ago― ô, Léo Lima... ô, Léo Lima... O Léo Lima tava até indo bem, só que aí ele lembrou que ele era o Léo Lima e fez esse papelão aí". Rindo ainda, alguém pensa, "Pô, fim-de-semana legal".