minha vida em ciclos

maio 17, 2008

Entro no google reader, que me acusa centenas de itens a serem lidos, e fico angustiado porque sei que não vou conseguir ler todos eles. Então cancelo a assinatura da maioria dos blogs e deixo apenas os essenciais. Acontece que esses blogs que eu reputo essenciais não são muito prolíficos. Então quando eu entro no google reader de novo, pouco menos que uma dezena de itens me espera, e eu acabo lendo tudo em poucos minutos. Só que aí eu fico angustiado por não ter mais posts pra ler. E volto a assinar a maioria dos blogs que havia cancelado da última vez, de maneira que algumas horas depois, quando entro no google reader de novo, ele me acusa novamente centenas de itens a serem lidos, e eu fico angustiado etc. e tal.

me dis como fas/

maio 14, 2008

David Remnick não achou que era suficiente escrever este excelente perfil sobre um sujeito obcecado que há 27 anos apresenta na rádio KCRW um programa diário dedicado estritamente a Charlie Parker. Montou também uma lista dos 100 álbuns de jazz mais importantes, mapa para não-iniciados como eu. Se seu nome nem é Ruy Goiaba, nem Noronha, pode ser que lá existam discos que você ainda não ouviu.

pensando o "quem sou eu" do orkut

maio 13, 2008

Espantoso que ainda não tenhamos tido notícia de investigação séria sobre o "quem sou eu" do orkut―espaço em que o usuário da rede social manipula a imagem de si que espera produzir para os outros. Os freqüentadores do sítio bem o sabem: não é incomum que ali se encontrem citações, poemas, frases enigmáticas, letras de música, bulas de remédio. Os exemplos são vários, mas o objetivo, no mais das vezes, parece ser o mesmo: comunicar―preferencialmente de maneira irônica e/ou sarcástica―o quão esperto e bacana é o indivíduo responsável pelo perfil virtual, mesmo que isso não possua lastro empírico.

A partir de hoje, vamos analisar/pensar alguns "quem sou eu". Acreditamos que este campo de investigação pode justificar a existência de bolsas de pesquisas e departamentos inteiros. Da análise do discurso do usuário sobre si mesmo, esperamos extrair o significado último, quando existir algum. É importante advertir que observaremos o comportamento de espécimes aleatoriamente selecionados; não nos valeremos de nossas ferramentas de análise para atingir a honra e a fama de quem quer que seja (exceto, claro, se o desejarmos). A fim de evitar processos e ameaças de morte, não deixaremos links, nem identificaremos nossas cobaias; garantimos que tudo é 98% não-ficcional. Porque entendemos que os enunciados que orientam as investigações científicas devem ser testáveis intersubjetivamente, convidamos ao debate na caixa de comentários os pares minimamente inteligentes que não tenham halitose. Nossas glosas vêm em itálico, e eu não sei por que estamos usando a primeira pessoa do plural (how creepy).

Primeiro espécime: R. M., sexo feminino.

quem sou eu: Eu sou eu e minhas ocasiões !?!?!

Leitora de Ortega y Gasset. Também é digno de nota o uso idiossincrático dos sinais de pontuação. Influência de Cummings? Seja como for, o espécime demonstra sólida formação cultural.

SE VC NÃO MERECE...MUITO MENOS EU....MAS FAZER OQ SE ACONTECE...O GEITO TALVEZ SERIA MATAR A TODOS QNDO SE TEM VONTADE

O espécime se define como alguém que se resigna diante dos reveses que a vida apresenta (FAZER OQ SE ACONTECE). Manifesta, porém, possível tendência ao crime (O GEITO TALVEZ SERIA MATAR A TODOS QNDO SE TEM VONTADE).

Têm dias !? ! ? ! e dia ... sabe aquele no qual nada se tem vontade de fazer a não ser pensar na vida de uma forma simples e simbolica a tal ponto que o chão parace esta longe dos pés e o céu não parece tão distante....

Maconha.

[Suprimiu-se o trecho de encerramento: um poema desnecessário, onde figurava o verso "Ela é dela".]

maio 12, 2008

Fábio Danesi Rossi, o primeiro a chegar de , depois do apagar das luzes, foi seguido pelo blogueiro-palindromista César Miranda; e agora é a vez de Alexandre Soares Silva. Pro apostos.com ficar melhor que isso só se Igor resolvesse voltar a postar.

genialmente incompreensível

maio 09, 2008

É fato: a morte de seu filho fez nascer um novo Laerte, muito diferente do que criou os (grandes) Piratas do Tietê. Há quem goste, ache genial; e há quem não goste, ache incompreensível. Genial ou incompreensível? A mim, não importa. Contanto que ele continue fazendo tiras como a de ontem...

momento Pulíticu$ du Brasiu

Espero que a esta altura do campeonato todos já conheçam a série Pulíticu$ du Brasiu, da Nova Corja, que informa ao público interessado, e ao não-interessado também, quais são as proposições legislativas dos parlamentares brasileiros. Graças ao trabalho daqueles abnegados patriotas, ficamos sabendo, por exemplo, que determinado deputado deseja que se denomine a segunda ponte sobre o Estreito dos Mosquitos na BR - 135, ligando a Ilha de São Luís ao continente, de Ponte Governador Ivar Figueiredo Saldanha; que um outro quer instituir o Dia Nacional do Motorista de Ambulância; e que há um que propõe seja instituída a “Medalha do Mérito Desportivo Adhemar Ferreira da Silva”―projeto, este último, mais que merecedor de aprovação, já que, bem, você sabe:

adhemar.jpg

Julgo que seria interessante se a Nova Corja também nos dissesse quais desses relevantes projetos são aprovados e viram lei. Simples levantamento, que levou em conta apenas o corrente ano, revela que o Brasil, graças ao seu produtivo Congresso Nacional e à sanção de sua esclarecida Presidência da República, possui leis como a 11.642, que determina se considere o Município de Iguape, localizado no Estado de São Paulo, o Berço da Colonização Japonesa no Brasil; a 11.654, que institui o dia 4 de dezembro como o Dia Nacional do Perito Criminal; a 11.655, que denomina Ordem do Mérito das Comunicações Jornalista Roberto Marinho a Ordem do Mérito das Comunicações; a 11.657, que institui o dia 18 de agosto como o Dia Nacional do Campo Limpo; e a 11.660, que denomina Ponte Sérgio Ceotto a ponte sobre o Rio Doce na BR-259, no Município de Colatina, no Estado do Espírito Santo.

O meu nome é Tiago A., sou brasileiro, e amo o meu país.

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maio 07, 2008

Vem do Altamente Derivativo a notícia de que

wunderblogs se foi, moribundo já há um tempo. Não devo ser o único que os encontrou em tenra idade e ficou (falando honestamente) todo animadinho, todo ouriçadinho. Que comprou o livro e resmungava de tempos em tempos com amigos que não havia nada melhor por aí, etc. Releu arquivos do dante e do mozart mesmo sem entender com tanta frequência, tal e coisa. Agora não há muito o que dizer. Está é apenas uma formalidade, né, uma incerta de sua própria seriedade nessa terra de tantas internetes. If you have to ask, vá pros arquivos enquanto eles existirem.

Ele diz que não deve ser o único; e não é mesmo. Identificação total, aqui. Também os encontrei em tenra idade. Também fiquei todo animadinho/ouriçadinho. Também comprei o livro e resmungava etc. Também reli arquivos que não entendia. E também estou meio triste.

Hélas, c'est fini:* vai aqui um brinde ao portal amarelo-mostarda, cuja importância inda não foi devidamente reconhecida, mas será, escreva aí. Daqui a dez, vinte anos, você vai ler isto―

[...] fomos bem melhores do que a turma do Pasquim, essa turma de baby-boomers cariocas que apóia governos e nunca vai calar a boca

―e ver que não havia razão pra achar que aí tinha ironia.

_______

* Nos comentários ao post de Andreis, Juliana, do Miss Veen, anuncia, "Acho que manteremos um memorial no ar, sim, com o arquivinho dos que morreram de vez, e link para os que ainda estão/estarão ativos em outros lugares."

hãããããããã

maio 01, 2008

E assistindo os vídeos de Paul Muldoon neste site que eu linquei abaixo, lembrei de uma coisa sobre a qual eu queria falar já há um tempo. É que o modo como ele fala lembra aquele tipo peculiar, muito comum em bons professores; o tipo de fala dos indivíduos que dedicaram grande parte do tempo de suas vidas a uma determinada atividade e por causa disso chegaram aonde estão hoje: um patamar superior com relação ao resto dos homens. É uma fala em que as pausas comunicam um certo respeito que essas pessoas parecem ter pelo próprio fenômeno da comunicação; é como se elas dissessem "Olha, [pausa] eu sei que é quase um milagre que a gente esteja entendendo pelo menos um pouco do que um está dizendo ao outro, [pausa] então vou fazer algum esforço para não atropelar você [pausa] e para deixar cada coisa que eu disser se ajeitar bem direitinho na sua cabeça antes de passar para a próxima, [pausa] ok?". E gente feito Muldoon faz esse esforço sem parecer estar fazendo esforço algum—mas, ora, esse é justamente o traço que mais nos chama a atenção nessas pessoas que fazem muito bem as coisas que escolheram fazer: elas fazem algo que requer *muito* esforço para ser feito dando a impressão de que não estão se esforçando nem um pouco (vide Romário).

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Romário

Mas todo mundo tá ligado que pra impressionar certos tipos de pessoas, não é preciso dedicar grande parte do tempo de uma vida ao projeto de fazer algo muito bem; basta parecer ter feito isso. Sabendo disso, alguns desenvolvem o péssimo hábito de imitar a maneira de falar de caras como Muldoon. Nele, é até elegante; mas nesse outro pessoal, fica algo triste, porque caricato. Diz pra mim se não é verdade que você quase consegue tocar a tristeza que emana daquele seu amigo afetado quando ele resolve antecipar toda frase dele com um hããã. Juro que se eu dispusesse dos meios, encontraria um jeito de diagnosticar aí alguma espécie de patologia, cujas formas mais graves constrangem e deprimem deveras; mas eu sei que nunca vou conseguir fazer isso, mesmo porque até bem pouco tempo atrás, eu não tinha nem um nome pra aludir a este cacoete infeliz. Verdade que agora, pelo menos, um nome eu tenho (em inglês, at least); foi lendo um certo livro que o encontrei. Isso que essa gente tem, atenção, se chama cultured stutter. Cultured stutter. Sugira uma tradução, por favor.

Qual o melhor jeito de usar a internet? De que maneira ela está mudando as relações humanas? Onde nós estamos? Jason Kottke responde a essas e outras perguntas aqui nestes videozinhos. No mesmo site, há ainda entrevistas com Jonathan Franzen, David Remnick, aquele cara dos Fugees e mais um monte de gente. E não deixem de ver o conselho de Paul Muldoon para vocês, jovens poetas.

abril 30, 2008

Não faz dois meses, anunciei que o time do apostos.com rumava para Tóquio.

Eu estava errado.

Quando chegarem os novos reforços, cujos passes nossos cartolas já estão negociando, Tóquio vai ser só uma estação. Quem avisa amigo é.

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Clique na figura, circule pela vizinhança e não deixe água parada em vasos e pneus.

o leitor não enxerga o trabalho que teve o escritor

abril 26, 2008

A obra pronta, aí sim, deve dar a ilusão de que nasceu toda junta e bem montada. Porque, se o escritor quando escreve tem n opções (mata ou não mata o personagem x, faz com que y viaje ou fique aqui, casa a com b ou b com c), o texto que-deu-certo esconde todas elas, de modo que o leitor enxerga, e acredita que aquele que vê não é só o melhor, mas o único caminho possível. Em outras palavras, o leitor não enxerga o trabalho que teve o escritor. Isso não sou eu que estou dizendo, roubei de alguma aula do Assis Brasil (se cito a fonte, não há mais roubo, portanto está tudo bem).

Se você for leitor e quiser dar pelo menos uma espiada no quão trabalhoso é fazer literatura, saiba que Carol Bensimon, depois de resolver escrever um livro, se impôs o desafio de escrever sobre escrever o tal livro. E antes que você decida que soa muito *META* pro seu gosto, permita que eu diga um "vale a visita".

Vale a visita.

pela inutilidade dos blogs

abril 24, 2008

Porque, afinal, esta é a principal função dos blogs: dar opiniões que ninguém pediu, justamente para que ninguém as leia.

seo mauro dizndo tudo o que precisava ser dito

qdo vejo sujeito prgando q tdo qto eh blog precisa ser relevante, sinto ganas de estapear ate ele esquecer o nome da mae dele. me diz, mne diz: de onde eh qveio essa, agora? eh gente querndo fazer revista de blog (sic, nem pergunte), gnte querendo fazer campanha de politico em blog, gente qeurendo conferir! importancia! a blog!―sim, sim, eh uma gente grave, uma gnte q usa conferir como verbo trnasitivo direto e indireto e tudo e, pior, querndo te obrigar a fazer o mesmo.

ok o mundo eh vasto, a internet, ja se disse, eh varia, mas eh tarde, to meio bebado e sonolnto (bebados ainda podem escrever posts/), entao me permitam o saudozismo de um tempo em q a relaçao entre las palabras blogue e blague era muito mais q um trocadilho, como registrou um certo alguem, num certo prefacio―estao lembrados? (btw: alguem sabe dizer se isto aqui eh uma volta? ou eh viral?)

e na extended entry, se eh pra ser relevante, uma foto gratuita dos peitos de scarlett johansson

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abril 20, 2008

abril 19, 2008

o concerto de João Gilberto em Salvador (I)

abril 17, 2008

Hoje é 17 de abril de 2008, uma quinta-feira, dia em que me fizeram acreditar que, sim, verei um concerto de João Gilberto. São 22h 34min, e eu estou bastante ansioso. Já roí todas as unhas das mãos. Para não roer as dos pés, escrevo este parágrafo, primeiro de muitos que espero escrever até 5 de setembro, O Grande Dia. Outrossim, cumpre-me confessar que, no presente momento, me encontro feliz pra caralho. Estou tão feliz que me permitirei fazer o óbvio registro de que há no título uma referência escancarada a O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, de Sérgio Sant'anna, registro, esse, feito apenas em favor dos que ainda não leram o referido conto e que por isso são no mínimo 68% menos felizes do que eu e você, que lemos. Com o registro, além de me comportar de maneira a comunicar extremo requinte e finura, também tenciono alcançar mais duas outras coisas.

primeira coisa

Desejo assumir desde logo a angústia da influência que alguns muito provavelmente veriam/verão, de qualquer maneira. Quero aqui deixar dito que isso é algo que não me preocupa nem um pouco; podem me acusar do que quiserem; daqui a alguns meses―daqui a exatos 141 dias―serei mais um membro da camada superior da Humanidade a que pertencem os homens e as mulheres que viram e ouviram João Gilberto tocar e cantar ao vivo. Nada mais pode me atingir.1

segunda coisa

Assumindo referência já tão explícita, inescapável e incontornável, pretendo também esconjurar o mau espírito encarnado naquele urubu que pousa sobre a asa do avião em que se acha João, voltando para o Rio, segurando a gaiola vazia que recebeu de John Cage2 no aeroporto de NY―para mim, o verdadeiro responsável3 por João haver resolvido não se apresentar. Sim, vocês dois que não leram o conto, O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro é um relato sobre uma não-apresentação de João Gilberto, um conto que serve de consolo para um autor que procura ver, no silêncio de João Gilberto, um concerto. Mas isso―seja-me permitido dizer―não vai se repetir aqui. ISSO―digo mais uma vez, em negrito, caps lock on―NÃO VAI SE REPETIR AQUI. O Concerto de João Gilberto em Salvador não será como O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro; o Concerto de João Gilberto em Salvador acontecerá de verdade, no dia 5 de setembro de 2008. Prezado Sérgio Sant'anna, U R PWNED, SRY.

1 Tiago A., songez que du haut de votre blog, quarante siècles vous contemplent.
2 (trocadilho sic)
3 NB: o urubu é o verdadeiro responsável, não Cage.