t+

maio 12, 2009

Você talvez já saiba que estou de partida pro que restou do Arraial de Canudos. Lá deve ter internet, além de bode, mas quero aproveitar a ocasião pra dar um tempo aqui no blog, um dois-alto. Só que eu não aprendi dizer adeus, então adeus não. Com Gerônimo, te digo até breve:

eu já sabia

maio 06, 2009

Chat with Leandro Oliveira

Apr 15

9:54 AM me: qual é sua teoria pro chilique de adriano?
estou fazendo uma enquete
9:55 AM a minha é a de que ele quer voltar a jogar no rio
vai fazer esse auê todo, depois volta, no framengo
Leandro: depressão
acho que é uma doença
9:56 AM mesmo jogando na Sibéria, o cara com um salário daquele não iria chutar o balde assim
9:57 AM mas, se o cara voltar pro Flamengo, eu vou comemorar!
me: vc é framengo é?
hahahah
Leandro: sim!
hahahahaha
me: pensei que cê era galo, rapá?
Leandro: moro em Minas mas sou carioca :>
9:58 AM e como todo bom carioca, flamenguista, hahahaha
me: pois eu acho que ele pode, sim, estar com depressão--mas que vai voltar a jogar, e no fra
assim que a poeria baixar
o flamengo é um time interessante
não ganha nada há décadas
mas continua com os torcedores mais chatos do universo!
9:59 AM :)
Leandro: é, eu penso o seguinte: se o cara tem mais dinheiro que pode gastar numa vida e quer jogar bola, por que não seria lá?
hahahahaha

"venha, meu pai!"

maio 05, 2009

Bastante comum em Salvador, a expressão que serve como título para este post é uma espécie de saudação. É o high five americano vertido para o vernáculo do Pelourinho. Os mais atentos me corrigirão, dirão que na verdade o que se diz não é bem "venha, meu pai!", mas "venha, pai!", assim mesmo, com o "meu" virando "mô", mas isso é mero detalhe. Aliás, é bom que se diga: embora seja certo que o soteropolitano gosta de chamar seus camaradas de "meu pai", nunca vi ninguém chamando ninguém de "painho" por aqui. "Painho" é coisa de novela da Globo, e a Bahia da Globo é tão fidedigna quanto a Índia da Globo, o Marrocos da Globo, etc. (exceção feita à "Ó paí ó" de Lazáro Ramos, decalque da realidade).

Este vídeo, portanto, só fez confirmar o que eu sempre soube: Obama não é do Havaí coisíssima nenhuma. Mas tampouco é mulçumano, como quer Eulavo seu Baralho. O que Obama é é baiano. Vejam a maneira como a mão dele se desloca a fim de encontrar a mão de Luis Inácio. Prestem atenção nesse movimento brau―não é racismo, patrulheiros; "malandro" na Bahia é "brau", d'où Carlinhos Brown, versão baiana de Serginho Mallandro―prestem atenção no movimento brau que antecede o aperto de mão.

Eu, desde minha condição de baiano―eu sempre quis dizer "eu, desde minha condição de alguma coisa"―, eu, como eu ia dizendo, eu quase posso ouvir Obama exclamando mentalmente um "Venha, mô pai!" e procurando a expressão anglófona que melhor possa traduzir seu entusiasmo nagô. De maneira que, se um tradutor baiano tivesse sido o responsável pela criação das legendas deste vídeo, a tradução do que Obama disse à propos de Lula teria sido mais perfeita do que a que já se tornou notória. Assistam o vídeo, vocês que não viram ainda, e notem que Obama não diz hora nenhuma que Lula é o cara. O que ele diz é: "This is my man, right here", e isso quer dizer o mesmo que o "Esse é o meu cumpádi" dos cariocas, ou o "Aqui é meu manu, tá ligado?" dos paulistas, ou o "Venha, mô pai" de seus conterrâneos baianos. Jamais "Este é o cara", essa invenção da imprensa lulista (= Carta Capital, Hora do Povo, e agora BBC). Dizer que Obama disse que Lula é o cara é erro grosseiro. Ou má-fé. Parem de falsear a história.

ainda ij

abril 27, 2009

Falando em Infinite Jest, eu preciso comprar uma nova edição, hardcover, pois o paperback atual não deve durar muito mais. Quem sabe se isso não serve como incentivo para uma releitura? Hmmm.

Nessa segunda maratona, vou ver se existem mais trechos que ecoam outros livros dele, passagens que venham fazer companhia a estas duas:

Na p. 445 (do paperback do décimo aniversário):

Bob Death smiles coolly (South Shore bikers are required to be extremely cool in everything they do) and manipulates a wooden match with his lip and says No, not that fish-one. He has to assume a kind of bar-shout to clear the noise of his idling hawg. He leans in more toward Gately and shouts that the one he was talking about was: This wise old whiskery fish swims up to three young fish and goes, 'Morning, boys, how's the water?' and swims away; and the three young fish watch him swim away and look at each other and go, 'What the fuck is water?' and swim away. The young biker leans back and smiles at Gately and gives an affable shrug and blatts away, a halter top's tits mashed against his back.

Glosa: é a mesma anedota que ele conta no 2005 Kenyon Commencement Address, que acaba de virar livro.

E na p. 937:

The sun outside the big windows seemed to go up and down like a yo-yo.

Glosa: ele usa essa mesma imagem pra encerrar o conto Incarnations of Burned Children, coligido em Oblivion.

duas verdades em que pensei hoje

abril 16, 2009

Pra mim, dia feliz é aquele no qual você fica sabendo que, décadas antes de você existir, um homem muito mais sábio do que você disse uma coisa que você vive repetindo, porque acredita na verdade que ela encerra, topando fazer isso mesmo com boa parte de seus amigos, inclusive alguns dos melhores, desdenhando de você e lhe dizendo que essa coisa é uma daquelas que se pode encontrar entre as capas de livros baratos de auto-ajuda. Saibam vocês, então, que, sim, "[...] most of the inconveniences that make men swear or women cry are really sentimental or imaginative inconveniences - things altogether of the mind" e que quem disse isso foi Gilbert Keith Chesterton. Essa é a verdade nº 1.

Agora, a nº 2. Em algum lugar, Dave Wallace disse algo que, se bem me recordo, poderia ser resumido mais ou menos assim: todo clichê traduz uma verdade e se tornou clichê justamente por causa disso. Infinite Jest é um livro que já mereceria ser lido apenas por conter passagens como aquelas nas quais viciados com formação superior à média, ao frequentarem encontros dos Alcoolicos Anônimos e entrarem em contato com ex-viciados que lutam dia após dia para se manterem longe da Substância, são levados a ver que (i) eles não estão no controle, que (ii) superioridade intelectual nem liberta ninguém do vício, nem é garantia de que você não vai sofrer, e que (iii) as coisas que você às vezes tacha de Coisas Encontráveis Entre As Capas De Livros Baratos De Auto-Ajuda podem revelar verdades que você até então não tinha reunido coragem suficiente para encarar. Passagens como esta, da endnote nº 90 (citando assim, parece bíblico, né?):

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sessão da tarde

He's Just Not That Into You é um filmito que vale o ingresso, se você adquire este último por R$ 2, como fiz ontem. É divertido, mas uma coisa me assombrou: como é que depois de The Wire, um filme se passa em Bodymore, Murderland, trazendo um elenco que é 98% branco?

E aquele carinha do comercial da Apple? Ele é a cara do vocalista daquela bandinha, cuspido e escarrado!

cotação
:/

Ops, já ia esquecendo: o filmiño traz Scarlett Johansson no papel que ela melhor sabe fazer―o de goshtosa.

cotação de SJ
:D

shelf life

abril 15, 2009

Este texto de William Gass é muito bom, e toda pessoa interessante deveria lê-lo. Se você não se acha tão interessante assim, e gosta de se ver como um sujeito que não tem tempo a perder (porque tempo é dinheiro etc.), eu não sei o que você veio fazer aqui. Mas já que veio, faça um favor a si mesmo e leia pelo menos o trecho final, vá:

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minha alma canta

março 27, 2009

Estamos no Rio. Constato que o Galeão está pior que a Rodoviária de Salvador. O primeiro contato com a fauna local se estabelece quando passamos pela moça que recebe o ticket do estacionamento. Sem se importar com os clientes, ela faz algum comentário sobre uma prótese de silicone e em seguida quase grita, "A bunda da Manoela―caralho!" Ficamos curiosos, querendo saber se Manoela pôs silicone na bunda ou o quê. Biscoito Globo é só um avoador metido a besta que custa dois reais. Que bom que hoje não está chovendo; amanhã, quando nos encontrarmos, Igor dirá que choveu a semana toda.

Vamos buscar os ingressos na Sapucaí. Pessoas que vão assistir aos shows, daqui a oito horas, já estão fazendo fila. Não há fila para a compra de ingressos, porém. Ficamos sabendo depois que a totalidade dos ingressos não foi vendida e que Los Hermanos receberam muito dinheiro para topar fazer essa reunião, último recurso de que lançou mão a organização do festival "Just a Fest" para chamar público, que será de apenas 24 mil pessoas, informará o jornal de domingo. "Compraram ingressos pela internet?", pergunta o segurança, "Por aqui, então. Nesse tapete vermelho." Tapete vermelho. Agora só nos falta-nos o gramour.

Ingressos na mão, decidimos comer. Pegamos o metrô, ao qual me afeiçoo. Ao chegar no shopping, decidimos que, primeiro, vamos beber. Gente sensata não acorda às três da manhã, tendo dormido pouco mais que quatro horas, pega um voo às cinco, sem tomar café, e antes de almoçar toma quase dois litros de cerveja. Cumpre dizer, portanto, que não somos sensatos. Só almoçaremos quando a falta de alimento já estiver trazendo séria ameaça de desmaio a um de nós.

Voltamos pra casa. Urge dormir, e dormimos. Porque não acreditamos em pontualidade carioca, sairemos com um pouco de atraso e chegaremos à Sapucaí por volta das 19h30, a tempo de assistir meio show dos Los Hermanos e ouvir parte daquela que, saberemos mais tarde, foi apenas a segunda vez que Cher Antoine foi executada ao vivo por essa banda de barbados que neste momento toca, melancolicamente, para uma Sapucaí quase vazia. Dias depois, dois de nós conversarão sobre a singela letra dessa canção, que foi composta por um sujeito que iniciava seus estudos de francês e que não quer dizer senão isto: "Caro Antoine, lamento profundamente, mas não vou poder ir com você. Tenho que trabalhar do dia 20 ao 24. Tenho quatro dias de folga. Vou pro interior, viajar de trem pelas montanhas, um trajeto adorável! Vou à praia com os amigos. Vou praticar esportes, e depois, vou esquiar." Um de nós se perguntará por que é que a parte em francês dessa música faz mais sentido que a parte em português ("Feito pra mim, bom pra você, deixa mudar e confundir. Deixa de lado o que se diz, tem no mercado, é só pedir, me faz chorar e é feito pra rir."), porém não chegará a conclusão alguma.

Estamos nos aproximando das catracas, onde coletarão nossos ingressos e não quererão ver o documento de identificação estudantil que confere a um de nós o direito de pagar cem reais, e não duzentos, para estar ali. Ficamos com a sensação de que desperdiçamos trezentos reais, e isso muito nos custará, pois tudo aqui é muito caro. Para beber 300ml de água, será preciso se desfazer de três reais. Na arquibancada, de onde assistiremos os shows, os mesmos 300ml de água custarão cinco reais, mesma quantia que estão cobrando por uma lata de cerveja. O som dos Los Hermanos está muito baixo, e a iluminação do palco lembra um show de colégio. Por que será que fazem isso com as bandas de abertura? O show não corresponde a minhas expectativas, Kraftwerk também não me empolga, e quando eu já estou começando a achar que fiz mau negócio, Radiohead entra no palco. Ouve-se, em português, o anúncio "somos Radiohead", feito por um dos integrantes da banda. Pelas próximas duas horas, assistirei ao show mais bonito a que já pude comparecer. Nos telões projetam-se imagens; são porções dos corpos dos músicos: uma cabeça, um braço. Sobre o palco, acima da banda, há agora o que parecem ser estalactites de luz. Eu nunca vi coisa parecida. É tudo muito bonito. O som está bem mais alto e muito bom. Quer dizer, quem está aqui na arquibancada percebe um pequeno problema, pois ele sai do palco, atravessa a Sapucaí, choca-se contra uns paredões de concreto e retorna, ou seja, eco―que merda. Tirando isso, o show vai ser épico. Vai valer cada real gasto, e quando voltarmos pra casa, estaremos certos de que assistimos a um espetáculo de primeira grandeza.

Dormimos e acordamos. É sábado. Ligo para Igor. É Cíntia que atende. Marcamos de nos encontrar no shopping. Quando eu tiver um filho, quero que ele seja igual a Davi, que ele não pare quieto, que me pergunte se eu conheço a música do camarão, que diga coisas como "eu era Botafogo mas agora eu sou Flamengo porque se não meu pai disse que eu não vou ganhar a piscina de minha mãe". Grande garoto. Família bonita. Nós vamos ficar lá, conversando e rindo, até as 18h. Vai ser uma tarde muito agradável, ao fim da qual Igor ouvirá a promessa de que não beberá Schin quando vier a Salvador.

Nós agora estamos no metrô, indo para Copacabana, a fim de encontrar o rapaz que atendia pela alcunha de Marcelo Rota. A Rua Tonelero nos recorda a figura de Carlos Lacerda. O Sujeito Que Era Marcelo Rota―neste texto, doravante, um acrônimo―chega acompanhado de Pedro, pianista gente-boa. Marcus chega logo depois. Vamos para o bar. SQEMR não bebe, mas fuma que é uma beleza. O Fluminense está jogando, e SQEMR, pó-de-arroz, confessa que nem sabia. Pedimos batata-frita, cerveja e refrigerante. Falamos de Cormac McCarthy e do Big Lebowski e de João Antônio e de Joe Gould. Nos sentimos bem, na presença um dos outros. SQEMR propõe que passeemos no calçadão que orla a praia―além do sambódromo, este será o único ponto turístico que visitaremos. A noite está como a tarde, agradável. Passamos pelo monumento aos 18 do Forte, onde bananas jazem inexplicavelmente. Calling it a night, voltamos para casa.

Dormimos e acordamos, de novo. O domingo está feio. Nublou-se o céu. Hoje não vamos fazer nada digno de nota. Voltaremos pra Salvador à noite. (Apertemos o botão de fastforward para que anoiteça logo. Pronto: é noite.) Estamos no taxi, rumo ao Galeão. Estamos passando pelas imediações do Maracanã agora. O taxi―com a gente dentro―por pouco não vai ficar preso no meio do conflito que dezenas de flamenguistas e vascaínos ali conflagrarão. Mais cinco segundos, e aqui haveria um relato ensanguentado. Ainda no taxi, ouvindo o jogo, damos muita risada quando o locutor narra, "Que ótima arrancada de Léo Lima, conduzindo a bola pelo meio-de-campo! Lá vem ele! Lá vem ele! Pode ser agora, pode ser ago― ô, Léo Lima... ô, Léo Lima... O Léo Lima tava até indo bem, só que aí ele lembrou que ele era o Léo Lima e fez esse papelão aí". Rindo ainda, alguém pensa, "Pô, fim-de-semana legal".

tom jobim, profeta

"Tenho esperanças que o rock vai evoluir e descobrir o quarto acorde, porque fazer música só com três acordes é difícil, né?" disse Tom Jobim, numa entrevista à Playboy, em 88.

Corta para 2009, manchete da Ilustrada: Roqueiro Iggy Pop canta Tom Jobim em novo álbum. "Isso é porque chegou um certo momento em que simplesmente fiquei enjoado de ouvir brutamontes idiotas com suas guitarras, tocando música ruim."

aprendam

março 26, 2009

A TRIP liberou todo o seu conteúdo na internet.

corleone

março 14, 2009

Esta matéria da Vanity Fair deste mês, espécie de making of de The Godfather, conta várias estórias legais. Adianto uma delas.

Johnny Fontane, você se lembra, é um cantor apadrinhado por Don Vito Corleone. Quando ele aparece no casamento da filha do Poderoso Chefão, é aquele alvoroço, as mulheres ficam todas indóceis. Numa cena mais adiante, vemos que, junto com os votos de felicidade aos noivos, Fontane foi levar queixas ao Don, dizer que um certo produtor não quer dar a ele um papel na adaptação cinematográfica de um bestseller cujo personagem principal, ele alega, é um cara igualzinho a ele. "I wouldn't even have to act—just be myself", ele diz e, logo em seguida, começa a chorar, dando chilique, "Oh, Godfather, I don't know what to do. I don't know what to do". Em resposta, toma um tapa e ouve “You can act like a man!”.

Desde o livro de Mario Puzo se ouve que esse personagem do cantor apoiado pela Máfia foi inspirado num tal Frank Sinatra, um cantor que, dizem, era apoiado pela Máfia. No filme, o personagem é interpretado por Al Martino, um cantor menos famoso que, fiquei sabendo agora, só ganhou esse papel graças à intervenção de um chefão do crime: “Didn’t the Don send Tom Hagen to convince [studio head] Jack Woltz that Johnny Fontane must be in the movie?” pergunta Al Martino. “Isn’t it similar to what I did? Woltz didn’t want Johnny, and Coppola didn’t want me. There was no horse’s head, but I had ammunition.… I had to step on some toes to get people to realize that I was in the effing movie. I went to my godfather, Russ Bufalino,” ele conta, referindo-se a um chefão do crime da Costa Leste.

Então, gente, eis o que temos aqui. Porque teve o apoio de criminosos ao longo de sua carreira, um cantor serve de modelo para a concepção de um personagem também cantor que, interpretado por um outro cantor que só foi parar no filme graças ao apoio de um criminoso, recorre a um criminoso para obter o papel principal do filme-dentro-do-filme.

A matéria ainda diz que "[w]hen Al Martino, as the whimpering Johnny Fontane, cries over the role the big-shot producer won’t give him, and Brando barks 'You can act like a man!' and slaps him, the slap was Brando’s spontaneous attempt to bring some expression into Al Martino’s face [...]".

Isso é tão meta que minha cabeça quase deu um nó. Li essas coisas e fiquei (O_O) por três dias.

bc

Bernardo Carvalho: "Eu não tenho formação de leitor. Quando fiz vestibular, não sabia nem escrever redação".

bb

A Trip entrevistou Bob Burnquist, "o maior atleta brasileiro em atividade". Duvida? Duvida mesmo?

osíris proclamou matrimônio com ísis

março 13, 2009

por Marcus Martins

egito.jpg

O Olodum foi criado como bloco de carnaval em 1979, saindo pela primeira vez às ruas em 1980. Distinguia-se do som dominante à época por sua forte percussão e letras de caráter social e racial. O primeiro álbum, Egito Madagáscar, foi lançado apenas em 1987 e deu início a uma seqüência de dez discos em cerca de dez anos. Depois de ser o grande nome do carnaval baiano por um longo período, alcançando grande prestígio fora do país, o Olodum, por questões de mercado, passou a fazer diversas concessões em sua música, caindo em relativo ostracismo. As sucessivas concessões à axé music, que se erguia como ditadura musical, aceleraram o processo de desgaste da banda, que lançou seu último álbum de estúdio em 1997, sendo hoje em dia mais um projeto social que entidade musical—e neste ponto é pálido fantasma de seu passado glorioso.

***

[mais]

macarrão

março 10, 2009

          Eu devia ter de nove pra dez anos quando apareceu aqui na rua um cara que a galera botou logo o apelido de Macarrão. Como no começo ele odiava ser chamado assim, eu já nem lembro mais o nome verdadeiro dele—todo mundo sabe que se o apelidado não gosta, é aí que o apelido pega mesmo. É óbvio que a gente chamava Macarrão de Macarrão porque ele era alto, branquelo e magrelo. Ele raspava a cabeça com máquina um e tinha uns dentões assim, pra frente, tipo uma égua. Não era de falar muito, e por causa dos dentes, ninguém entendia direito o que ele dizia, quando dizia. Mas até que ele era legal.

          Às vezes a gente chamava Macarrão de Brandini, e parece que ele até preferia esse apelido; acho que porque, na cabeça dele, Brandini era um nome que podia levar alguns desavisados a pensarem que ele era descendente de italiano, gângster, sei lá. Macarrão jogava uma bolinha desse tamanhinho, mas tinha lugar garantido em qualquer time, porque corria feito um queniano. Ele se deslocava do jeito mais desengonçado que eu já vi; as pernas lá na frente, o tronco formando um ângulo de uns 110º com relação a elas. Apesar disso, ou vai ver que por causa disso, corria mais que todo mundo.

          A estória de Macarrão que eu tenho pra contar é que um dia a gente estava batendo baba naquele campo que fica do lado da igreja, eu num time, ele no outro. Aí uma hora lá eu recebo um lançamento, Macarrão vem marcar, e assim que mato a bola no peito, levo uma porrada—quase um rabo-de-arraia—que me derruba feio. Jurando vingança, levanto na mesma hora, retado da vida—e sem bola, na maldade, dou um toquinho por trás em Macarrão, que se afastava do local do crime rindo alto.

          Foi o que bastou. Um corpo estendido no chão, Macarrão com a cara cheia de terra. Saio correndo, temendo pela vida, Macarrão doido atrás de mim; e ele quase me pega; e se me pega, me almoça. Ainda bem que seguraram. Evitaram uma tragédia. Ninguém nunca tinha visto Macarrão daquele jeito, com tanto ódio no coração. Depois desse dia passei quase um mês sem sair na rua. Era de casa pra escola, da escola pra casa, direto.

          Muito, mas muito tempo depois, estava eu no fliper do bar de Seu Juarez, jogando sozinho o bom e velho Cadilaque e Dinossauro, quando do meu lado eis que surge Macarrão. Continuei olhando pra tela, esperando pelo pior, o esfíncter totalmente contraído, pedindo mentalmente a Deus, Senhor, faça Macarrão mudar de ideia, faça o murro na cara que estou prestes a levar virar um pescotapa, algo menos destruidor. Foram os segundos mais longos de minha vida.

          Eu tinha começado a jogar não fazia cinco minutos, acho que ainda estava na primeira fase; eu era Jack, como sempre. Macarrão ficou um tempinho assistindo, depois foi no balcão, comprou uma ficha e voltou. Sem falar nada, botou a ficha, pegou Mustafá e passou a jogar comigo, nós dois contra o computador. E eu lá. Suando frio. Olho grudado no jogo.

          Foi ali, naquele dia, com Macarrão me ajudando, que zerei Cadilaque pela primeira vez. Empolgado, quis comemorar de alguma maneira; aterrorizado, mudei de ideia na mesma hora. Enquanto os créditos finais ainda estavam rolando, Macarrão—que já devia ter zerado aquela fita umas duzentas mil vezes—pegou as coisas dele e foi embora. Nem me bateu, nem me disse palavra. Até hoje.

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Esta é uma estória de ficção, contribuição que faço à primeira aposta de 2009, cujo mote é "macarrão". Qualquer semelhança com fatos e pessoas da vida real é devida à circunstância de que a vida real de vez em quando me plagia.

acadimia

março 06, 2009

Randall Patrick Munroe: "Actually, I think if all higher math professors had to write for the Simple English Wikipedia for a year, we'd be in much better shape academically".

Grande ideia. E que coincidência, rapaz: ainda ontem estive me perguntando por que é que há tantos acadêmicos escrevendo tão mal. Formulei duas hipóteses:

1) Eles escrevem mal porque sabem que ninguém vai ler;

ou

2) Eles escrevem mal porque são gente ruim mesmo.

A ideia que tive para solucionar o problema foi arranjar um jeito de forçar esses acadêmicos a lerem as coisas que eles escreveram para uma plateia formada pelas mães deles. Isso, claro, contanto que elas também não fossem da Academia.

Wiggle Room

março 01, 2009

Conto de David Foster Wallace na NYer. É inédito, salvo engano.

Update: Não, não é um conto; é mais um trecho do que seria o terceiro romance, The Pale King, diz este artigo que também nos informa que o que conhecíamos como Good People e aquele trecho que ele leu pela primeira vez em 2006 naquele festival na Itália (.pdf aqui) são na verdade mais dois trechos do mesmo livro, o qual, embora não tenha sido concluído, vai sair ano que vem e tem por tema o poder libertador do tédio. O personagem principal é um burocrata do Fisco americano.

das coisas que o título deste distinto blog traz

fevereiro 28, 2009

Ainda não haver me extinguido não impede que eu já vá usufruindo da maior benesse que minha morte poderá trazer: o interesse póstumo por minha remotamente (espero) futura ex-pessoa. Ocasionalmente, mo diz o Sitemeter, linhas tão mal-digitadas quanto estas atraem seres que se deixam mover por um sentimento a que costumo dar o nome de curiosidade mórbida precoce, à falta de outro. Essa semana, por exemplo, trouxe a este blog gente desejosa de render "omenagem a memoria de thiago" e gente querendo saber "quem era tiago". Também trouxe para cá ao menos um mamífero à caça da biografia, ainda não-escrita, que bem poderá receber o título "tiago a vida" se outro melhor não se arranjar―biografia para cuja epígrafe, aproveitando o ensejo, recomendo seja usada a mesma mensagem que quero impressa em minha lápide: "Que os póstumos me tratem com a complacência que não vi em meus contemporâneos; mas se isso for pedir demais, pelo menos dêem um jeito de ir fumar crack longe do meu túmulo, rebanho de drogados."

não é favela

CDD, pra mim, é sigla para "O Calor, a Derrota e o Desespero"―título do livro de contos/álbum de black metal/filme pornô que ainda não escrevi/compus/estrelei.

a touch of stimulus

fevereiro 20, 2009

Gay Talese, que se veste tão bem quanto escreve, empresta seu talento aos necessitados.

Cheever

E finalmente John Cheever chega à Library of America. Há dois livros. Complete Novels é um, o que eu quero (por favor me dêem). O outro "is the largest collection of Cheever's stories ever published, and celebrates his indelible achievement by gathering the complete Stories of John Cheever (1978), as well as seven stories from The Way Some People Live and seven additional stories first published in periodicals between 1930 and 1953. Also included are several short essays on writers and writing, including a previously unpublished speech on Saul Bellow."

Assombroso o modo como ele termina o ensaio intitulado Why I Write Short Stories. Duas páginas e meia, vá ler. Vejo aqui ocasião azada para lembrar a tradução de Reunion pierremenardamente elaborada por meu cachorro antes de saber que PHB já tinha feito o mesmo há mais de duas décadas e com muito mais destreza, como sói ser.

quer saber o que alan moore acha de the wire?

fevereiro 05, 2009

"It's probably one of the best pieces of television I've ever seen. The only problem with it is that it makes everything else looks kind of sad and poorly written and poorly conceived. The fact is, that as, I think [series creator] David Simon justifiably says somewhere on the closing extra features,' 'Everything we raised, we resolved.' And just that simple statement explains why 'The Wire' is so far ahead of any other television that I've seen. Every tiny little thing, even inconsequential things that were raised in the first series, were incredibly, dramatically resolved by the end of the fifth. It bears going back and watching again, probably several times." [+]

voltem, desgraçados!

fevereiro 04, 2009

"Ter quem compre seu trabalho—não consigo conceber estímulo maior do que esse. Nunca escrevo—na verdade, sou fisicamente incapaz de escrever uma coisa se não acho que vão pagar por ela", disse Truman Capote, numa entrevista. Talvez esteja aí, nessa declaração honesta, parte da razão por que tanta gente boa está deixando de escrever de graça na internet. Afastando-se do modelo pioneiro, o americano, que sempre prezou mais a oferta de links para paragens interessantes, os bons blogs brasileiros sempre foram lugares de muito texto, e não faz muito tempo, se você estava atrás de gente nova e talentosa escrevendo em português, era a eles que você recorria.

Só que está cada vez mais raro encontrar bons blogs brasileiros à antiga1, e para piorar, inda estamos assistindo a um pendurar de chutei— (digo) teclados que periga nos levar de volta àquele tempo (ca. 2003, 2004) em que descobrir um blog brasileiro bom era motivo para sair enviando e-mails para todos os amigos. O que também teria seu charme se fosse acontecer mesmo, de novo, porém algo me diz que não vai, e isso é chato.

Claro que inda temos muita gente boa escrevendo por gosto, mas quem viveu aquele período sabe exatamente do que é que eu estou falando. Ainda assim, acho que temos mais é que dar graças por ter tido tanto profissa escrevendo na internet sem ganhar um puto, botando um monte de guri tipo eu com vontade de escrever também. Toparam fazê-lo por um tempo, "talvez porque no Brasil tenha muito menos jornal ou revista pras criaturas mostrarem o seu talento", como cogitou um deles; mas nenhuma festa dura para sempre, Capote tinha razão. Enquanto isso, as crônicas de Carlos Heitor Cony continuam saindo em 300 jornais, e o Brasil segue sendo um país de todos.

De qualquer modo, os arquivos, que não me deixam mentir, estão todos aí para serem vasculhados; waybackmachine sempre pode ser uma alternativa também.

[1] (com "antiga" aqui significando "aproximadamente cinco anos")

as regras updikianas

Sérgio Rodrigues rememora, vertendo para o vernáculo, as cinco (ou seis) regras de John Updike para uma boa resenha literária.

a/c rogério aka ruy goiaba

Matéria da Trip sobre a Igreja Ortodoxa Africana de São John Coltrane.

fakery

fevereiro 03, 2009

Quanto mais adentramos este milênio, mais céticos ficamos; todo mundo niilista, em nada crendo. Este garoto, por exemplo, cuja imagem se explora no youtube após a ministração do que parecem ser drogas, este garoto inocente, apático, anestesiado, indagando "is this real life" & "feelin' funny"—suponhamos que daqui uns dias se descubra que foi tudo encenação. Se isso acontecer—e você bem sabe que há uma chance de isso acontecer, uma chance que não é pequena—, tomaremos este garoto, este ator-mirim a serviço de não sabemos quem, como mais um símbolo deste nosso tempo, em que tudo é fingido, nada é o que parece? Vivemos com o pé atrás. O negócio tá tão brabo que, se filmassem uma Paixão de Cristo ambientada no início do século XXI, Tomé teria que receber a notícia do Jesus ressurecto e desdenhar "que nada, rapá, isso é viral".

25 notas sobre nossa pessoa A/C Posteridade

Nós (saiba, você que achou que não poderia haver experiência mais chata que ler 25 coisas sobre nossa pessoa, que inda faremos isso valendo-nos gratuitamente do Eu Majestático):

1) éramos criança quando o seguinte aconteceu. (É possível que esta seja a nossa memória mais antiga). Estávamos no quintal da casa de nossa avó, brincando, quando fomos surpreendidos pela aparição de um pequenino felino. Julgamo-lo deveras bonitinho e decidimos afagar-lhe o pelo; em troca, recebemos uma unhada. Naquele momento descobrimos quão cruel e hostil o mundo é.

2) até esta semana que ora atravessamos, ainda não tínhamos lido In Cold Blood, de Capote—e, oh, como nos arrependemos (de não ter lido antes, né).

3) só saímos da Bahia para irmos a três cidades: Goiânia, Brasília e Recife.

4) já fomos uma liderança estudantil (rs). E comunista (rsrs). Já fomos crentes também.

5) encontramos, há algumas semanas, trabalhando como atendente num café no shopping, a menina que nos deu nosso primeiro beijo na boca. Por alguma razão, não reunimos coragem suficiente para comunicar-lhe que a tinhamos reconhecido.

6) comparecemos anteontem ao show da Nação Zumbi na Concha do TCA. Bebemos o suficiente para garantir a excelência da apresentação.

7) consideramos que Obama, como todo político, é descarado e, nalgum momento, de alguma maneira, vai miserar nossa existência.

8) estamos cultivando pelos faciais e resistindo bravamente à pressão social que clama pelo advento do barbeador sobre eles.

9) não temos a mínima idéia de como preencher as próximas notas e receamos que você já tenha abandonado a leitura.

10) vamos continuar, mesmo assim. Mas não sem antes darmos uma passadinha na cozinha, onde obteremos um copo d'água.

11) estamos de volta.

12) já tivemos vários apelidos. Se considerarmos apenas aqueles de que presentemente nos lembramos, chegaremos à seguinte lista: Bico de Pato, Bica, Lisão, Purita, Jequié, Cara de Cachorro, TPM e Herege.

13) tivemos nosso caráter forjado pelo Mestre dos Magos.

14) lemos todo o Sítio do Pica-Pau Amarelo e reputamo-lo o ápice da literatura nacional, à sombra do qual se encontra todo o resto, inclusive Machado de Assis.

15) gostamos de elaborar comentários prenhes de hipérbole, como esse último re Machado de Assis, apenas para causar.

16) queríamos voltar às aulas de Francês, mas também temos considerado a ideia de investir a grana em aulas de Alemão.

17) não temos paciência para o noticiário local, nacional e internacional.

18) não temos opinião sobre Gaza.

19) não somos de Direita. Não somos de Esquerda. Politicamente, definimo-nos como de Acima©. Acima dessa chatice.

20) queríamos ter nascido rico e aposentado, mas não rolou.

21) cremos ser demasiado o tempo que despendemos na internet, em atividades como esta, muito embora quase nunca nos ocorra nada melhor para fazer, além de dormir. "What is a man,/ If his chief good and market of his time/ Be but to sleep and feed?", pergunta o Bardo. "Tiago", dizemos nós.

22) detestamos teatro, mas o frequentamos, ocasionalmente.

23) nessas ocasiões, quase sempre somos saudados com a visão da bunda de algum ator e indagamos por que a bunda nunca é a da atriz.

24) apreciávamos tocar campainhas e sair correndo.

25) pedimos desculpas por qualquer mal que já lhe tenhamos causado, juramos que não foi nossa intenção e brindamos nossa amizade com esta versão que Mario Ulloa fez para Lamentos do Morro, de Garoto.

é tudo nosso

A segunda Aposta está no ar, Wagner & Beethoven é coisa nossa, Coisas de Idiota também chega pra reforçar o plantel—alguma dúvida de que apostos.com > internet?

bardos do nosso tempo

janeiro 30, 2009

Com vocês: Eduardo Supli—PÁ-PÁ-PÁÁ! (via Nariz Gelado)

slides da escrava isaura

O melhor vídeo da história da Internet é assim descrito por sua réalisatrice: "Um videoclipe humilde para uma música genial do bardo de Copacabana, Fausto Fawcett."